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Por Flávia Fernandes

Na noite de 13 de agosto de 1961, guardas da República Democrática Alemã cercaram portão de Brandenburgo com arame farpado. Começava ali a construção do maior símbolo da Guerra Fria: o Muro de Berlim. Dois meses antes, Walter Ulbricht, presidente do conselho de Estado da RDA, havia anunciado em conferência que não tinha intenção de construir nenhuma fronteira que dividisse a Alemanha.

Porém, a presença de um território capitalista em uma área de domínio soviético provocou a fuga em massa de cidadãos orientais que buscavam melhores salários e mais liberdade. Em um final de semana, mais de duas mil pessoas atravessavam a fronteira dentro de Berlim. O governo da oriental não podia observar em silêncio a migração de sua população composta por profissionais altamente qualificados. Assim, a RDA começou a fechar todas as passagens para Alemanha ocidental até que fosse constituído o muro de 155 quilômetros de extensão e 3 metros de altura que cruzava um rio, dois lagos, quatro linhas de metrô, cinco trilhos de trem e era vigiado do alto de 302 torres por 14 000 soldados.

Soldado tenta espacapar para o ocidente
Foto: Reprodução

O Muro de Berlim se tornou um obstáculo mortal para os fugitivos. Peter Fechter, operário de 18 anos, foi a primeira das mais de 800 pessoas assassinadas tentando ultrapassar pelo muro. Em 17 de agosto de 1962, após passar pela barreira de arames farpados e seguir rumo à construção para pulá-la, ele foi atingido por 24 tiros. Permaneceu em solo oriental agonizando por quase uma hora, mas não recebeu nenhuma ajuda dos soldados. O assassinato provocou revolta nos cidadãos da Alemanha Oriental. Ao longo de seus 28 anos de existência o Muro de Berlim gerou diversos conflitos políticos.

Em setembro de 1989, a Hungria desafiou a liderança soviética e liberou a fronteira com Áustria, abrindo caminho para aqueles que quisessem fugir para o Ocidente. O governo da Alemanha Oriental não se pronunciou até a coletiva com o porta voz do partido comunista, Gunther Schabowski, realizada em 9 de novembro. Ele anuncia que entrou em vigor a lei que permite viagens à Alemanha Oriental. Contudo, Schabowski havia cometido um engano divulgando a informação antes do previsto. Porém, a fragilidade do governo soviético e as pressões externas e internas culminaram em aglomerações nos principais pontos da fronteira. Assim, às 23h00min os portões foram liberados. Era o fim do  principal símbolo da Guerra Fria.

Contudo, o Muro de Berlim não foi a única fronteira construída pelo conflito que polarizou o mundo. Após o final de Segunda Guerra Mundial, a Europa estava completamente destruída. União Soviética e Estados Unidos, antes aliados na luta contra o nazismo, agora eram inimigos.  Os países competiam por áreas de influência ideológica: os EUA tentava difundir o capitalismo, já URSS defendia os princípios socialistas. Porém, soviéticos e norte-americanos nunca transformaram seus territórios em campos de batalha. Os conflitos militares ocorreram em outras partes do mundo como África, Ásia e América Latina.

A Guerra Fria teve influência direta nos conflitos no Oriente Médio que continuaram assolando a região, mesmo após o fim da polarização do mundo em 1989. “O Oriente Médio virou um centro de articulação de Estados que apoiavam a União Soviética e outros estados que apoiavam os Estados Unidos, e no meio disso tudo se desenvolveu o conflito entre Israel e palestinos” diz o jornalista e professor da PUC-SP, José Arbex Jr..

Em 1897, o movimento sionista propôs a criação de um estado judeu. Durante a primeira metade do século  XX, os sionistas incentivaram a migração de para a Terra Santa que ficava em território Palestino. Com o aumento da imigração, aumentavam as tensões entre os povos que habitavam a região. Durante a Segunda Guerra Mundial, a perseguição dos nazistas aumentou o fluxo de judeus que migravam rumo à Palestina. Com o fim do conflito que vitimou milhões de judeus, a Organização das Nações Unidas resolveu criar o Estado de Israel. O território em questão seria dividido entre árabes e judeus com a criação de um Estado duplo. Apesar da negativa palestina, Israel recebeu o apoio tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética, pois ambos estavam interessados na influência que poderiam exercer em uma região produtora de petróleo.

Israel, após declarar sua independência em 1948, foi atacado pelos árabes, mas saiu vitorioso do embate. Já em 1967, a “Guerra dos Sete Dias” alterou o panorama da região: Israel conquistou Cisjordânia, Colinas de Golan e Jerusalém Oriental. Mesmo com o fim da Guerra Fria, os conflitos entre a Palestina e os judeus se mantiveram. Com o apoio dos Estados Unidos, o governo israelense se nega a respeitar as resoluções da ONU que os obriga a devolver os territórios conquistados.

Em 2002, com medo dos ataques de homens-bomba palestinos, o governo de Israel decidiu erguer um muro que impedisse a ação terrorista. De acordo com o Ministério da Defesa de Israel, atualmente, a estrutura de arame farpado e concreto tem 8 metros de altura e 515 quilômetros de comprimento, mas ainda está em processo de ampliação. Ela separa o território palestino dos assentamentos judeus na Cisjordânia. A ação de Israel foi amplamente criticada pelos palestinos e por toda a comunidade internacional.

A arte que transpõe barreiras

A incapacidade de lidar diplomaticamente com conflitos produz barreiras físicas que oprimem e segregam.   Porém, a população que convive com essas limitações impostas à paisagem encontra na arte meios para superar obstáculos. “A arte pode refletir crises políticas, pois pode ser entendida como uma manifestação social, inserida em um contexto histórico e que, por natureza, está sujeita a influências de sua época” menciona o historiador Diego López.

O Muro de Berlim está marcado na história alemã, não só como o símbolo de um período sombrio, mas como o fator fundamental para disseminação da arte urbana na Alemanha. Em Kreuzberg, bairro da Berlim Ocidental cercado pela barreira, jovens, altamente influenciados pela cultura do grafite que vigorava nos Estados Unidos, pichavam o muro para protestar contra o alistamento e contra o próprio muro. Já o lado oriental da construção, preservava intacta a cor acinzentada do concreto, refletindo a discrepância entre os dois lados da fronteira. Todos aqueles que fossem pegos pelo governo da Berlim Oriental com latas de spray eram punidos.

O beijo da submissão.
Foto: Reprodução

Após a queda do muro em 1989, 118 artistas de todo mundo ilustraram o que restou da estrutura. Muitas obras representam a história da construção. Entre as manifestações mais importantes estampadas em Berlim está o grafite inspirado na foto em que o presidente da Alemanha Oriental beija o líder soviético Leonid Brejnev. Abaixo da imagem está a legenda “Meu Deus, me ajude a sobreviver a este amor fatal” que faz referência à submissão alemã ao regime da URSS.

“Utilizar a arte para provocar questionamentos sobre o passado é muito importante. Portanto, reviver a história através da arte tem muito efeito sobre as pessoas. Nosso passado é intrigante, não vivemos sem memória e somos o que lembramos, somos um acúmulo de experiências de nossas vidas. Em um âmbito social, coletivo, ocorre o mesmo, precisamos manter nossa memória coletiva viva, ou perderemos nossa identidade” acrescenta López.

A obra panorêmica recria o Muro de Berlim
Foto: Foto: Markus Schreiber/AP

Esse ano, o artista alemão Yadegar Asisi criou um projeto que resgata a memória do Muro de Berlim. A obra tem 60 metros de comprimento, 15 de altura e representa o bairro Kreuzberg onde o autor da obra viveu nos anos 80. Através da instalação panorâmica de 360°, Asisi tenta recriar o cotidiano da Alemanha dividida, refletindo sobre como os berlinenses conviviam com algo tão terrível.

O muro que separa Israel e Palestina também é tela em branco para artistas de todo mundo. Em 2007, a exposição “Santa’s Ghetto”, que é anualmente organizada por artistas londrinos para protestar contra o consumismo de Natal, foi levada a Israel. O grafiteiro britânico Banksy, famoso por realizar críticas sociais em suas obras e por esconder sua identidade, representou no muro uma pomba da paz com colete à prova de balas, uma garotinha carregando balões, além de um soldado israelense pedindo identificação documentos de identificação para um burro. “Obviamente não é a função de um grupo esparso de idiotas que rabiscam dizer o que é certo ou errado nesta situação. A exposição apenas estende uma mão suja de tinta para ajudar pessoas comuns em uma situação incomum” diz o artista em seu site. Os atristas tinham o objetivo, não só realizar um protesto contra o consumismo, mas também chamar atenção e interesse para o que acontece por trás da barreira.

A arte de Banksy no muro que separa Israel e Palestina
Foto: Reprodução

A arte de resistência na Palestina e Israel também é realizada pela população local. As manifestações nas paredes da barreira que separa os territórios abordam os mais diversos temas: pluralismo, justiça econômica e o próprio conflito entre judeus e árabes que deu origem ao muro. Além de realizar protestos, a arte urbana do Oriente Médio dá visibilidade para os diversos idiomas falados na região e explicita aspectos culturais de cada povo.

Um ensaio fotográfico realizado pelo brasileiro, Marcos Muniz como parte do projeto Nova Fotografia do MIS (Museu da Imagem e Som), mostra as barreiras físicas e psicológicas criadas pelo conflito. A arte de rua recebe destaque: o fotógrafo registrou grafites, lambe-lambes e desenhos feitos no muro da Cisjordânia. Um retrato do líder palestino Yasser Arafat e mensagens de protesto como “Destruam o muro!” são alguns exemplos de manifestações artísticas.

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