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Por Amanda dos Anjos

Na cadeia a mãe questiona o filho, “Quero que você me diga o porquê”, e Kevin responde,  “Eu achava que sabia, mas agora não tenho tanta certeza…”. Assim termina o filme da diretora Lynne Ramsay, baseado no livro de Lionel Shriver. Poucos filmes são tão perturbadores como este, “Precisamos falar sobre Kevin” é um drama que relata a convivência de uma mãe e seu filho psicopata, que desde a infância demonstrava sinais de agressividade, especialmente com a mãe. Com um desfecho trágico, Kevin assassina o pai e a irmã mais nova e comete uma chacina na escola, o filme deixa no ar o motivo pelo qual Kevin fez tudo aquilo.

“Precisamos falar sobre Kevin” mostra como o psicopata pode dar sinais desde a infância (Foto: Reprodução)

 Segundo a psicóloga Renata Udler Cromberg, a psicopatia é sobretudo um estado mental caracterizado por desvios de caráter que acarretam comportamentos anti-sociais. Popularmente costuma-se associar a psicopatia à violência, ao comportamento extremamente agressivo, mas nem sempre é o que acontece. Existe também a psicopatia de tipo não agressivo, no qual a característica marcante não seria a agressividade, mas um comportamento chamado cronicamente parasítico ou espoliativo.

 O psicopata caracteriza-se por ser extremamente encantador e dissimulado, mente com facilidade e nas circunstâncias certas, consegue manipular as pessoas ao seu redor, e não sente carinho ou apego por ninguém, este indivíduo simplesmente não desenvolve sentimentos de afeto pelas pessoas com que convive. “São incapazes de fidelidade significativa com pessoas, grupos ou valores sociais. Excessivamente egoístas, insensíveis, irresponsáveis, impulsivos e incapazes de sentir culpa ou aprender com a experiência e punição, sua tolerância à frustração é baixa”, diz Cromberg.

 Uma confusão que comumente é feita pelas pessoas é entre psicopatia e psicose, o psicótico sofre de delírios e alucinações, e muitas vezes não tem consciência do que está fazendo, ao contrário disso, o psicopata é um ser completamente racional, que sabe o que está fazendo, mas não sente a menor emoção por qualquer que seja seu ato, ele é incapaz de se colocar no lugar do outro. A psicóloga diz que o psicopata conhece as consequências de seu comportamento anti-social, mas ele dá a impressão de que tem muito pouco reconhecimento real de sentimentos dos quais verbaliza tão racionalmente. Ele sabe se expressar em termos de respostas afetivas esperadas, mas demonstra uma total falta de consideração e uma indiferença em relação aos outros.

 Quem mais sofre com o psicopata são as pessoas que convivem com ele, “não é ele que vai procurar ajuda, mas aqueles que sofrem com as consequências de suas ações”. No filme, Kevin desde muito pequeno já demonstra ser uma criança diferente, mas os médicos nunca encontraram nada de errado com o garoto. O diagnóstico “oficial” de psicopatia só pode ser feito em alguém que tenha, no mínimo, 18 anos. Segundo Renata os critérios para se diagnosticar a psicopatia são um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, e deve responder a pelo menos 3 dos seguintes quesitos:

  • Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção;
  • Propensão a enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer;
  • Impulsividade ou fracassos de fazer planos para o futuro;
  • Irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas, por exemplo, espancamento de cônjuge ou filho;
  • Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia, por exemplo, direção perigosa, comportamento de risco com sexo e drogas, e negligência de filhos;
  • Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras;
  • Ausência de remorso, indicada por indiferença e racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa;

Para Renata a psicopatia tem a ver com o contexto familiar e social na infância e com possíveis patologias mentais e traumas, uma criança não pode ser um psicopata. Pesquisas norte-americanas indicam que cerca de 4 a cada 100 pessoas são psicopatas, e curiosamente, não se sabe o motivo, essa patologia atinge mais homens do que mulheres.

Chacina nas escolas

Eric Harris e Dylan Klebold, responsáveis pelo Massacre de Columbine (Foto: Reprodução)

O filme mostra o ataque de um psicopata a uma escola, provocando um verdadeiro massacre. Os serial killers são os casos extremos de psicopatia, e em geral todos os serial killers são psicopatas mas nem todos os psicopatas são serial killers. Saindo da ficção também conhecemos episódios em que serial killers atacaram escolas e deixaram dezenas de mortos e feridos. Um dos casos mais conhecidos é o Massacre de Columbine, ocorrido no Colorado, Estados Unidos, no dia 20 de abril de 1999, quando os estudantes Eric Harris (na época 18) e Dylan Klebold (na época 17) entraram na escola onde estudavam, o Instituto Columbine, e atiraram em vários estudantes e professores, matando 13 pessoas, depois se mataram. Uma nota escrita pelos dois foi encontrada perto dos corpos, e dizia “Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir”. Ao contrário do que foi muito divulgado pela mídia, os dois garotos não eram adolescentes tímidos e introspectivos, que planejaram um ato de vingança porque sofriam bullying na escola. A ação dos dois estudantes foi calculada e cuidadosamente planejada durante um ano, eles próprios fizeram diversas bombas caseiras e reuniram armas, pretendendo explodir toda a escola. O caso teve tamanha repercussão que foi transformado em documentário, intitulado Tiros em Columbine, dirigido por Michael Moore, e serviu de base para o filme Elephantde Gus Van Sant.

Cho-Seung-Hui, autor do Massacre de Virginia Tech (Foto: Reprodução)

Um outro caso bastante marcante nos Estados Unidos foi o Massacre de Virginia Tech, quando, no dia 16 de abril de 2007, o sul-coreano Cho-Seung-Hui  entrou armado no Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia e matou 32 pessoas, em seguida suicidou-se. Desde criança o estudante mostrava sinais de depressão e sofria rejeição na escola. Este foi o ataque, deste tipo, que deixou mais mortos numa universidade nos Estados Unidos.

Recentemente no Brasil, a história se repetiu com o trágico Massacre de Realengo, ocorrido no Rio de Janeiro. No dia 7 de abril de 2011. Wellington Menezes de Oliveira invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira com dois revólveres e matou 12 adolescentes, dos quais 10 eram meninas. Aqueles que estavam presentes no momento disseram que Wellington perguntava às meninas se elas eram virgens, e referia-se à elas como seres impuros. Ele tinha 23 anos, e quando mais novo havia estudado naquela mesma escola. Familiares declararam que o rapaz sempre foi muito tímido e introspectivo, e mostraram-se surpresos com o crime. O próprio Wellington relata em uma carta o bullying quando pequeno.

 Atualmente fala-se muito do bullying nas escolas, e sobre quais conseqüências essa atitude pode acarretar na vida adulta. O bullying caracteriza-se por ser um gesto ou palavra que agride outra pessoa. “É um exercício de violência através de uma prática de desigualdade onde alguém se considera superior a outro que é considerado inferior. (…) Uma agressão gera sempre agressão (…). A pessoa que sofre a agressão pode se identificar com o agressor e passar a achar que é mesmo tudo o que ele está dizendo e aí sentir dor, culpa e sofrer calado, apresentando muitos sintomas de quem sofre um trauma constante: dor psíquica intensa, tristeza, choro, isolamento. Mas tendo sua imagem narcísica tão abalada, e sem poder reagir com agressividade ao outro seja porque ele é mais forte, ou se pensa assim, seja porque esta agressão do outro já encontra um eu fragilizado por outros motivos anteriores, pode acumular a esperada agressividade em relação ao outro agressor e alimentar pensamentos agressivos de vingança”, diz Renata.

Nos 3 casos citados, o atirador depois de fazer dezenas de vítimas, suicidou-se. Essa atitude nos faz pensar que o psicopata não tem nenhum apreço pela vida, nem a dele mesmo. A psicóloga opina, e diz que o suicídio pode ser devido, tanto a um lado que sabe que o que fez será punido, ou porque o assassinato retaliativo tornou-se sua razão de ser, e uma vez realizado não há mais razão para viver, ou ainda por um sentimento de culpa inconsciente ou uma necessidade de se castigar.

A psicopatia atinge 4 a cada 100 pessoas, e mais homens do que mulheres (Foto: Reprodução)

Cresce no Brasil e no mundo, praticamente todos os dias, casos de crimes executados com requintes de crueldade. A cada dia a mídia veicula um novo caso bizarro, torturas, esquartejamentos, massacres, enfim, assassinatos perversos. Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado diz que “o psicopata não é aquele que simplesmente comete um crime, mas aquele que comete um crime com requintes de perversidade”. São casos que nos chocam, e faz com que nos questionemos o que está acontecendo com a raça humana. Para Renata Cromberg é com um ambiente em que possa haver sempre a expressão e discussão dos conflitos e desavenças e a tolerância com as diferenças, “é o antídoto que conhecemos para prevenção de atos de violência que acabam em tragédias humanas”, completa.

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