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Por Harumi Visconti

1979. Cai o último Xá do Irã. Mohammad Reza Pahlevi é derrubado pela Revolução Iraniana, liderada pelo líder islâmico xiita  aiatolá Ruhollah Khomeini, que pôs fim à monarquia autocrata iraniana e instaurou no país uma república islâmica. O projeto megalomaníaco de aiatolá Khomeini era expandir o Estado Islâmico por todo o mundo. Incentivando e convocando os milhões de islâmicos espalhados por várias regiões do globo, o líder xiita pretendia derrotar aquilo que ele chamava de Grande Satã: os Estados Unidos e a União Soviética, as duas potências da Guerra Fria.

No final da década de 70, com o aparecimento e fortalecimento do líder islâmico, o Irã, localizado em uma das regiões mais cobiçadas por conta do petróleo — o Oriente Médio – é um país que além do ouro negro, é dono de uma imensa força militar e pertence a uma tradição milenar, que teve início no Império Persa. Significava, dessa forma, uma grande ameaça para as duas potências mundiais da época.

José Arbex Jr., jornalista e historiador conhece como poucos o emaranhado político da história recente do Oriente Médio, afirma que além da força história, política e econômica do Irã, o fundamentalismo islâmico também teve importante influência na construção do país. “O fundamentalismo islâmico surgiu em 1929, mas não como uma organização violenta. Franceses e britânicos controlavam o Oriente Médio, em especial o Egito, devido ao Canal de Suez, rota do petróleo mundial. Havia muita miséria no país devido a essa exploração, e uma organização de médicos, engenheiros, intelectuais islâmicos chegaram à conclusão de que era necessário retirar aqueles estrangeiros e dar assistência à população pobre. Evidentemente, os franceses e ingleses não gostaram nada da iniciativa e começaram a persegui-los. Eles, então, se organizaram e concluíram que o maior erro dos países islâmicos em geral foi o abandono dos ensinamentos do Corão – livro sagrado do Islã — e a adoção de costumes ocidentais. Precisavam voltar aos fundamentos da religião”, explica.

Principalmente após a invasão soviética no Afeganistão, em 1979, e a resposta americana a esse ataque, o Irã começou a se armar com o lucro oriundo do petróleo. Sem ajuda de nenhuma outra potência, o país foi pouco a pouco se tornando um alvo da grande mídia por ser um país que foge às regras mercantis e políticas impostas pelos grandes impérios atuais. Desde então o Irã tem sido considerado o principal articulador contra a presença de Israel na região, fato que implica em sucessivos embargos econômicos, bélicos e políticos junto à ONU. Além disso tem sido alvo de ataques de hackers ocidentais por conta de seu polêmico programa de desenvolvimento de centrífugas capazes de enriquecer urânio para fabricação da bomba atômica.

A medida

A resposta aos ataques veio no dia 24 de setembro, quando o Irã bloqueou o acesso ao Gmail, correio eletrônico gratuito, e limitou algumas pesquisas na versão mais segura do Google e no Youtube afirmando que o país precisava de uma rede de intranet nacional, que independesse e funcionasse de modo diferente da rede mundial. A população só poderia acessar informações consideradas legais. A proposta é que se crie uma internet iraniana que substitua os provedores e buscadores de outros países, em especial o dos Estados Unidos.

Esses serviços já foram limitados no país em 2009, quando o Movimento Verde – nome dado às manifestações populares contra o resultado das eleições presidenciais daquele ano que teria sido supostamente fraudada – se espalhou pelo Irã por meio das redes sociais. Além disso, em 2010, um vírus de computador chamado Stuxnet, supostamente elaborado pelos EUA e Israel, atacou o programa nuclear do Irã. A partir deste episódio, idealizou-se uma nova internet, única e exclusiva para todo o território iraniano.

Juventude iraniana vai às ruas protestar contra o governo

O argumento do governo de Mahmoud Ahmadinejad para a implantação da nova rede nacional é de que os países ocidentais, principalmente os EUA, tentam estabelecer por meio da rede uma guerra não declarada ao regime iraniano com o objetivo de desestabilizá-lo, principalmente com o discurso de que de o Irã teria armas nucleares e que ameaçavam todo o Oriente Médio.

 Funcionamento da rede

Igor Minotto, estudante de Ciência da Computação no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) explica que as redes de computadores nada mais são do que o conjunto de fios e equipamentos que ligam todos os computadores ao redor do mundo. “Em cada país ou continente há um tipo de servidor raiz que liga os computadores daquela região com o resto do mundo e vice-versa. É muito fácil para a agência reguladora da internet naquele país aplicar esse tipo de filtro proposto pelo governo iraniano”.

 Com relação à hegemonia americana sobre a internet, o estudante afirma que dos 15 servidores raiz existentes no planeta, 10 pertencem aos Estados Unidos. “A internet foi criada pelos EUA durante as primeiras décadas da Guerra Fria como uma forma de proteger o Departamento de Defesa deles. Depois disso, foi desenvolvida por universidades e militares norte-americanos. Já era clara a supremacia deles nessa área”, afirma Minotto.

 Hegemonia americana

O discurso usado pelo Irã, portanto, é verdadeiro: de fato, os Estados Unidos controlam a maior parte do que circula na internet hoje. Além disso, um dos maiores problemas discutidos sobre domínio americano na rede é de que os provedores e sites de busca, tal como o Google, captam todas as informações e as registram num banco de dados. A cada clique que se é dado, em qualquer lugar no mundo com acesso à internet, registra-se o que foi visto, lido ou ouvido. Dessa forma, os buscadores americanos conseguiram formar um verdadeiro banco de dados mundial, com informações dos cidadãos dos quatro cantos do mundo.

Além disso, o jornalista Arbex citou um projeto denominado TIA (Total Information Awareness – Alerta Total de Informação), que se constituiu logo após o atentado do dia 11 de setembro. Esse projeto é um convênio do governo americano com as empresas de cartão de crédito, provedores, universidades, bibliotecas públicas, cujo objetivo é registrar e rastrear todas as informações e dados pessoais dos cidadãos e compartilhá-las com instâncias federais. Dessa forma, o governo americano sabe cada passo dado pela sua população sob o pretexto de estar evitando novos ataques terroristas.

Censura?

Medidas de controle de informação tal como a tomada pelo Irã sempre geram polêmica e opiniões divergentes sobre o assunto. Muitos afirmam que qualquer limitação imposta pelo Estado e que bloqueie o acesso dos cidadãos às informações é censura. Outros, porém, defendem a ideia de que o Estado deve instituir um limite de até onde informações e provedores estrangeiros podem chegar em seu país.

A internet é uma das mais eficientes ferramentas modernas que consegue conectar seus usuários ao resto do mundo. É um espaço de deliberação e troca de ideias, informações e de cultura. Além do intenso compartilhamento de dados, a rede tornou-se um espaço para a oposição. Regimes totalitários, violência governamental, abuso por parte de autoridades. Esses e muitos outros casos foram registrados, comentados e repercutidos por toda a internet, alcançando todos os cantos do planeta. Entretanto, tal como o filósofo da segunda geração a Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas, previu, a esfera pública, que na teoria poderia ser a internet, está contaminada por interesses privados, com a hegemonia de empresas tal como Microsoft, Yahoo e Google, que além de serem partidárias, espalham pela rede mundial informações e pontos de vista unilaterais e manipulados.

A proposta do Irã de criar uma intranet nacional ainda não está completamente implantada. O que acontecerá futuramente, como o próprio Arbex disse em entrevista, é incerto. Tanto pode se constituir como um bloqueio total de informações, quanto o governo volte atrás na questão.

 Independentemente disso, uma coisa é certa: os Estados Unidos controlam a rede e propagam por meio dela ideias e visões formadas por eles por todo o globo.  E o governo iraniano quer driblar – mais uma vez – a forma de dominação ocidental que ocorre sorrateiramente nos dias de hoje.

Um pensamento em “Drible iraniano

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