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Por Juliana do Prado e Rosa Donnangelo

Em 25 de Setembro de 2012, comemorou-se os 90 anos do Rádio no Brasil, e ao longo destas décadas, o veículo passou por transformações e desafios decisivos, que sempre ultrapassou com desempenho adaptando-se às novas plataformas que surgem constantemente. Além disso, problemas como o déficit nas receitas publicitárias, desinteresse e desconhecimento do jovem e estudante por essa mídia, remuneração insatisfatória para os profissionais e legislações ultrapassadas que regem a radiodifusão, acentuam um estado de alerta que envolvem tanto a AM quanto a FM. Mesmo com todos esses desafios, o rádio sempre terá um diferencial: somente com ele, é possível ter agilidade e rapidez que aguçam e constroem todos os sentidos e emoções,  fatores que nenhuma outra nova mídia pode proporcionar já que o rádio é único.

Histórico de uma Era  

O rádio é o meio que mais consegue se integrar as tecnologias que surgiram ao longo do tempo. (Foto: Rosa Donnangelo)

Dia 7 de setembro de 1922 surgia um mito, uma magia. A data ficou marcada pela primeira transmissão radiofônica no Brasil e esse fato só foi possível graças aos técnicos e engenheiros da empresa Westinghouse: foram eles que conseguiram concretizar o modelo de radiodifusão que se tem conhecimento atualmente, além de reformular o bocal do telefone, transformando-o no em microfone. O padre gaúcho Roberto Landell de Moura, também teve um papel decisivo na implantação do veículo no país e é considerado o “Patrono dos Radioamadores do Brasil”. Como resultado disto, em pouco tempo, entrou em curso a “Era de Ouro do Rádio”.

O período em que o rádio brasileiro obteve mais prestígio e difusão foi na década de 1930, devido à obrigatoriedade dos informes publicitários decretada em lei. O rádio, portanto, alterou o seu objetivo principal e a mercantilização se tornou inevitável. Ao atingir a massa, esse meio de comunicação ganhou audiência e cada vez mais, novos ouvintes. A radionovela, de origem cubana, e os programas de auditório adquiriram espaço e viraram febre, assim como as novelas televisionadas de hoje. A primeira radionovela brasileira foi escrita por Leandro Blanco e a adaptação era de Gilberto Martins. Ela foi difundida pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro e recebeu o nome de “Em busca da felicidade” . O grande atrativo sempre foi a sonoplastia, que transmitiam desde o barulho do telefone, até os passos das personagens, e com isto garantiram o auge e a fama das radionovelas.

O sucesso dos programas de auditório foi uma consequência positiva das radionovelas. O público queria estar perto e fazer parte das apresentações radiofônicas, os grandes artistas eram a atração, havia até posto de rainha do rádio, criando a rivalidade entre as cantoras Marlene e Emilinha Borba. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, faziam parte do “Trio de Ouro”, porém, mais tarde se tornaram um casal de relacionamento bastante conturbado, mas que marcaram época. O rompimento da relação foi o ápice para que belas músicas fossem criadas, o público se tornou fã. Herivelto, ao lado de David Nasser, começou o duelo musical com o samba “Cabelos Brancos” e Dalva, acompanhada e amparada por compositores de elevada categoria, respondeu com o “ Tudo Acabado” de J.Piedade e Osvaldo Martins. Iniciava-se assim um período rico em música, mas que acabaria com a morte de Dalva em 1972 e ficaria registrado na canção e memória brasileiras.Outro programa histórico, foi o “Repórter Esso”, que marcou o noticiário do radiojornalismo no país, pois recebia as informações de agências internacionais e que tinha como slogan as seguintes frases: “O Primeiro a Dar as Últimas” e “Testemunha Ocular da História.”.

Por mais que tenha sido o queridinho nacional por algumas décadas, o rádio perdeu espaço para a televisão nas décadas de 50 e 60 e foi esse fato que encerrou a “Era de Ouro”. Os programas de auditório deixaram de ser moda e os grandes nomes, incluindo anunciantes e vozes como Silvio Santos, Hebe Camargo e Lima Duarte, migraram para a TV. Vale ressaltar que as principais rádios brasileiras, mesmo algumas da “Era de Ouro”, continuam no mercado até hoje, embora com menos influência: Bandeirantes, Jovem Pan, Transamérica, Capital, Globo, Tupi, Record além de recentes fusões corporativas como a Estadão-ESPN etc.

Alguns nomes marcaram o rádio brasileiro e são referências quando o assunto é voz e história. O glorioso Osmar Santos, foi locutor esportivo e seu grito de gol é memorável, faz qualquer ouvinte comemorar, gritar e vibrar com um gol, principalmente os da Copa do Mundo de 1986 . José Paulo de Andrade é outro exemplo de renome: jornalista e radialista consagrado apresenta o programa “O Pulo do Gato”, na Rádio Bandeirantes, há 39 anos, a voz é inconfundível e o sucesso do programa ao seu comando é evidente. Quem escuta o refrão da música “Amanhecendo” de Billy Blanco: “Vamo bora, vamo bora, olha a hora, vamo bora vamo bora”, é inevitável associar com a voz inconfundível de Franco Neto, que “repete” as horas todos os dias no tradicional “Jornal da Manhã” na Rádio Jovem Pan. Eli Corrêa, apelidado de “ O sorriso do rádio” com o seu famoso “Oooie gennnte!”  e Zé Béttio são sinônimos de vozes populares, com os seus bordões que marcaram época. Essas são algumas das melhores vozes que o rádio brasileiro guarda como parte da sua saudosa história.

 Vinhetas Nostálgicas:

Principais vinhetas das emissoras de rádio a partir da década de 70 á 90.

Aberturas de programas da Rádio Bandeirantes. 

Jornal da Manhã – Rádio Jovem Pan – Narração: Franco Neto.

Novos Tipos de Rádio

A rádio comunitária surgiu como uma forma alternativa de expressar uma própria linguagem através da comunicação, e que tem como principal objetivo exercer o poder da cidadania. Além disso, possibilita aos ouvintes uma recepção de informações através de uma visão independente, crítica e coerente referente aos fatos locais.

A Rádio Cantareira lutou durante 15 anos para receber a autorização do sinal concedida pelo Ministério das Comunicações. Fato que demonstra o sistema burocrático praticado pela Anatel no país. (Foto: Reprodução)

Para o radialista e militante da Rádio Cantareira, Adão Alves dos Santos, 59 anos, a idéia de criar uma rádio surgiu após o jornal impresso se tornar uma alternativa inviável, além de fornecer a  integração com outros públicos, que não só se restringem aos da comunidade e a utilidade que o rádio proporciona :“O jornal teve uma importância muito grande, agora, o rádio vai mais longe. Com o jornal, a gente tinha o retorno de uma ou outra pessoa que de vez em quando mandava um e-mail. Hoje a gente tem uma rede de retorno no rádio que é algo inesperado. Liga, por exemplo, uma pessoa de Florianópolis, Belém e do Maranhão. É outra dimensão, ou seja, você consegue interagir com as pessoas. No rádio, você tem a pessoa ao vivo, na hora ela te liga.”

Entretanto, os principais problemas enfrentados por estas rádios é a falta de autorização, já que há uma incompreensão sobre este meio de comunicação alternativa, pois muitos acreditam que ameaçam as rádios comerciais. Além do sistema burocrático existente que dificulta a legalização das “rádios livres”. Outro fator preocupante é que rádios geralmente com interesses religiosos, políticos e comerciais não utilizam a rádio para fins comunitários, mas mesmo assim, insistem em apropriar deste direito, tirando assim, a concessão de grupos que realmente precisam.

Quadro geral das concessões das rádios comunitárias no Brasil:

– Existem  4.448 Rádios Comunitárias no País;

– Minas Gerais é o Estado que mais possui rádios, no total de 722;

– No Estado de São Paulo há 575 Rádios Comunitárias, porém, 35 são provisórias;

– 11 mil estão com o processo negado no Ministério da Comunicação;

– Atualmente, 3.000 municípios no país não possuem uma rádio comunitária.

Rádios Jornalísticas Segmentadas  

O conceito de rádio segmentada surgiu com o desdobramento do modelo de comunicação no qual jornais, TV, cinema e internet seguem este mesmo modismo. Emissoras como Estadão/ESPN, SulAmérica Trânsito e Bradesco Esportes, apostam nesta novo segmento jornalístico, já que são grandes estratégias mercadológicas. Como resultado, estão atraindo um grande público que busca informação personalizada e que se satisfazem conforme os seus próprios interesses.

Dificuldades

Atualmente a radiodifusão passa por dificuldades, políticas, burocráticas e culturais, como a falta de criatividade no rádio. Pouca novidade é criada, e a “renovação” veio em quantidade e não em qualidade. Nas FM musicais, por exemplo, o conteúdo foi deixado de lado, dando lugar a uma simples playlist que dura até seis horas, não havendo uma integração de música + conteúdo. Muitos profissionais esquecem que o rádio é muito mais do que um dial, o “lead” que é executado com um intuito da objetividade está distanciando o rádio da sua essência. Além disso, o faturamento comercial é de apenas 3,97%, no qual atrapalha no desenvolvimento do veículo em si e do profissional que trabalha na área. Outra discussão é o futuro incerto da AM, que sofre com a alta concorrência e baixa audiência, devido ao sinal digital. Outro sintoma evidente é o desaparecimento do espectro de AM em favor, num primeiro momento. de iinstituições religiosas, e depois, de empresas que compram a banda para transmissão de sinal de Internet.

Para o professor de rádio jornalismo da PUC-SP e diretor de jornalismo da rádio Capital, Luiz Carlos Ramos, um dos principais problemas atualmente é a insuficiente receita publicitária que é designada para as rádios, que gera uma desestruturação profissional e funcional de uma rádio: “Você têm esses 3,97% e então divide por todas aquelas emissoras de rádio brasileiras. O que acaba acontecendo? Resta pouco dinheiro para manter as emissoras. Dentro desse raciocínio, significa que as equipes ficam enxutas e os salários ficam baixos. Para ter uma ideia, as emissoras de rádio, pagam para os repórteres o piso salarial, de R$1.700 (…). Não há saída, o rádio continuará sendo o ‘primo pobre’, continuará tendo pouco dinheiro”, explica. A partir disso, não consegue investir muito em qualidade em determinadas atrações. Significa que apesar dessa evolução tecnológica, que garante ao rádio a possibilidade de ser ouvido no mundo inteiro, o jovem vai continuar distante e a tendência é aumentar essa distância, não que o rádio vá se extinguir”. Para Ramos, outra questão preocupante é a legislação de concessões de rádios no país, que está monopolizada e que não legitimam a liberdade de expressão da população: “Houve um período no Brasil em que essas concessões de rádio, principalmente na época da ditadura e no período do Sarney, ficaram nas mãos de políticos ou para pessoas protegidas, resultando em um poder da elite que controlam essas rádios (…)”, conta.

Novas Tecnologias

Há algum tempo, a voz deixou de ser a marca do rádio. O advento da tecnologia e o próprio progresso do rádio, culminando na imagem e na tão influente televisão fizeram com que o reconhecimento de um locutor ou um comentarista não se desse mais pela voz. Essa deixou de compor a magia do rádio e o delicioso ato de parar e prestar atenção no discurso de radialistas, já não é visto de maneira agradável, não é mais o objetivo. Atualmente, vive-se a era da imagem, da Internet e a instantaneidade e até mesmo a forma espontânea do rádio está, aos poucos, se transformando.

A sociedade e mais especificamente o jovem da atualidade, não se dão conta da importância que já teve o rádio. Muitos desconhecem a sua história, contribuindo para que a perda de influência desse veículo da mídia se torne ainda maior. O jovem de hoje é dinâmico e as exigências que eles acabam por impor aos meios de

Eduardo de Meneses, jornalista multiplataforma, atuou nas rádios Globo/CBN, Record, Transamérica e atualmente trabalha na Rádio Estadão/ESPN. (Foto:Reprodução)

comunicação são, cada vez mais, voltadas para a interatividade. Em entrevista ao Protottipo, Eduardo de Meneses, 31, apresentador do programa Gira Brasil na rádio Estadão ESPN, comentou sobre a perda de influência do rádio, a relação do jovem com o veículo e colocou em questão a interação com o ouvinte na atualidade, através das redes sociais: “O grande segredo do rádio, na minha opinião, é ele se atualizar, não só o rádio, o jornalismo como um todo. Você precisa começar a cativar o ouvinte de outras maneiras, que é através de uma linguagem diferente, mais jovem, para atraí-lo de novo.O lado bom é que as redes sociais ajudam muito a chamar para o programa. Elas conseguem chamar a audiência. (…)O rádio está completando 90 anos, eu acho que não acaba. Mas ele tem que se transformar todo dia. Eu acho que não cabe mais apresentador que senta, faz o programa pra ele. Ele tem que se preocupar com o que tem do outro lado: será que o cara gostou da entrevista? Eu fiz a experiência de entrevistar uma pessoa aqui e fiz duas perguntas para a pessoa e deixei os ouvintes participarem pelo torpedo, pelas redes sociais. Eram eles que mandavam as perguntas, eles faziam parte do programa. O rádio passa muita emoção, coisa que a TV não passa, a internet não passa. E você tem que aproveitar essa emoção. O jovem é o ouvinte de amanhã. Tem que fazer programa pra todo mundo. (…) Você tem que se transformar pra não perder audiência nem espaço.”

Já Franco Neto, apresentador do programa Jornal da Manhã na rádio Jovem Pan, opinou sobre a falta de influência da radiodifusão na atualidade, além disso, abordou a questão tecnológica como um dos principais motivos pelo qual o jovem deixa de se interessar pelo rádio. Em entrevista ao Protottipo, o apresentador acredita que, “não se tem mais um rádio produzido”:

Entrevista Jornal Protottipo – Radialista Franco Neto 

Debate em Evento

Evento realizado no Teatro Cásper Libero, reuniu especialistas para discutir temas que preocupam o cotidiano do rádio.(Foto: Rosa Donnangelo)

Em comemoração aos 90 anos, a Faculdade Cásper Líbero no último sábado, 22, realizou o “Seminário Rádio no Brasil, 90 anos de história – A trajetória e as perspectivas para a radiodifusão brasileira”. O evento realizou três mesas de debates com a participação de  convidados como: Filomena Salemme (editora-chefe da Rádio Estadão/ESPN), Paulo  Rodolfo de Lima (Chefe de reportagem da CBN), André Russo (coordenador da Central de Atendimento ao Ouvinte da Rádio Bandeirantes), Fernando Alves (locutor da Rádio Gazeta FM), Profa. Ms. Lenize Vilaça (professora de radiojornalismo do Mackenzie), Luis Fernando Malhoca (professor da Faap), Ronan Junqueira (locutor da Rádio Bandeirantes), dentre outros. E teve como tema central das discussões o atual panorama, o ensino nos cursos, legislações, problemas políticos, e as tendências para a radiodifusão brasileira.

Sobre o atual panorama, Luis Malhoca opina que o rádio jamais vai morrer, pois a palavra, ainda é a força da comunicação, e complementa: “ Enquanto existir um ouvinte carente, vai existir o rádio”.

A situação encontrada pela professora Lenize Vilaca nos cursos em que ela ministra, demonstra que há uma falta de estrutura para o aluno vivenciar a experiência do rádio ao vivo. Para ela, esse é um dos principais motivos que justifica que aluno não se interessa por este veículo, e sim por outras mídias: “O jovem tem a atenção de 15 minutos, é muito disperso. O jovem a priori não consome esta mídia”.

Ronan Junqueira abordou em seu discurso os atuais problemas políticos enfrentados pelas empresas. Para ele, os profissionais estão atrasados tanto nos sindicatos, ações governamentais e comerciais. A atual legislação que rege os interesses das rádios, obedecem a Constituição Cidadã de 1988: “Toda a legislação é feita para a TV e não para o Rádio”, reforça.

Outra questão relevante questionada durante o evento foi a proposta do rádio voltar as suas origens. Ou seja, voltar a ser local, oferecendo serviços informativos para a população como o anúncio de carros roubados, pessoas desaparecidas e etc. Entretanto, Filomena Salemme relembrou o motivo pelo qual as rádios não seguem mais este modelo: “Este tipo de serviço precisa de espaço, pessoas, há uma falta de estrutura. A demanda de pedidos é grande. Por este motivo, este nicho se tornou um serviço ineficiente para o ouvinte, e a melhor alternativa é extinguir.”

Homenagens

O evento realizou uma cerimônia de homenagens aos principais ícones da história do rádio, e estavam presentes no teatro: Inezita Barroso, Vida Alves, Dalmácio Jordão, Salomão Ésper, Reynaldo Tavares, Regiane Ribeiro, entre outros, que receberam e entregaram os prêmios para os convidados.

Inezita Barroso, 59 anos de carreira e  com 80 discos lançados, é apresentadora há 32 anos do programa “Viola, Minha Viola” exibido pela TV Cultura (Foto:Juliana do Prado)

Dalmácio Jordão, á direita, foi locutor durante 18 anos do programa “Repórter Esso” (Foto: Juliana Prado)

Salomão Ésper, apresentador do “Jornal da Gente” da Rádio Bandeirantes, é um dos nomes mais representativos do radiojornalismo brasileiro. (Foto:Juliana do Prado)

Solução?

Os principais desafios para os próximos anos, para tentar abordar e solucionar todos os problemas que está deixando a radiodifusão em alerta, são o incentivo para o profissional em desenvolver reportagens criativas, que instigam e prendem o ouvinte, já que o olhar do repórter é um diferencial; resgatar traços essenciais das suas origens; capacitar o mercado publicitário e incentivar os jovens alunos a participarem de projetos que insiram  o estudante na rádio como “Na onda do Rádio” ou até de rádios como a CBN, por exemplo.Para assim, sempre resgatar a “Magia do Rádio” que é encantadora e envolvente.

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