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 por: Júlia Paolieri

R.F. começava a perceber que estava se tornando um prisioneiro de si mesmo em sua própria casa: os sapatos que usava na rua não podiam adentrar no ambiente doméstico, e o mesmo para as canetas, cadernos e mochila da faculdade; depois de lavar as mãos sabia que não poderia mais tocar em nada e se quisesse beber água teria que pedir a alguém da casa que lhe trouxesse o copo com um canudo, pois não tocava na louça.

Este quadro de sintomas é comum em pessoas que sofrem do Transtorno Obsessivo Compulsivo, ou TOC, como é mais conhecido. Pensamentos obsessivos e rituais de verificação são alguns dos sintomas iniciais do transtorno e que se continuarem e piorarem podem agravar a situação da pessoa.

No entanto, é muito difícil para uma pessoa que sofre com o TOC admitir a doença para si e para os outros, mesmo percebendo o impacto desta no seu dia a dia. Normalmente esse reconhecimento e a procura de tratamento só acontecem quando os sintomas acabam por limitar a vida de tal forma que o paciente não consegue mais trabalhar, ou ainda, sair de casa.

Segundo a psicóloga Deise Maria Basso, com formação pela Associação Brasileira de Psicanálise de São Paulo, “o Transtorno Obsessivo Compulsivo é uma forma de defesa de outras angústias, onde a pessoa começa a desenvolver estes sintomas pra dar conta desta defesa”. Para ela, as formas de tratamento desta doença podem ser inicialmente por remédios e posteriormente com uma terapia.

Ao contrário do que se imagina, conforme explica Deise, o tratamento não depende da próprio paciente em se policiar quando for executar as atividades repetitivas e de verificação. Na verdade, essas ações são completamente involuntárias, ou seja, fogem ao controle. Não é nada como uma fobia, quando se alguém tem medo de dirigir, o fato de evitar se sentar ao volante ou se locomover apenas por caronas e transportes públicos faz com que ela esteja segura.

Lavar as mãos e se encontrar sempre pensando na higiene e limpeza dos locais, por exemplo, é um dos tipos mais comuns do transtorno. Não são poucas as pessoas que embora não tenham um quadro clínico de TOC afirmam que tem essa neurose por manter sempre as mãos e os locais em perfeita limpeza.

O ator norte-americano Leonardo DiCaprio sofria de TOC quando era pequeno: não podia pisar em fendas ou bordas que aparecessem pelo caminho. Ele se recuperou deste transtorno, mas adquiriu outro durante as filmagens do filme “O Aviador”, quando chegava constantemente atrasado às gravações, pois precisava caminhar até o set de uma forma específica e se houvesse algum erro, voltava e começava de novo.

Também a atriz Luciana Vendramini teve seus sintomas. Ela só podia ir dormir depois que visse um táxi amarelo. Em seguida só se deitava se visse dois táxis amarelos, um atrás do doutro. E depois, os táxis e uma pessoa andando na direção contrária. Justamente pelo fato de o TOC não ser como uma fobia, situação na qual o medo pode ser evitado, as pessoas que sofrem do transtorno encontram inúmeros obstáculos no seu dia a dia que não é simples, mas cheio de desafios.

Como nos exemplos acima, essas pessoas costumam gastar até horas de seus dias para que consigam executar com perfeição algum pensamento ou atividade, e muitos, presos em seus transtornos, acaba por abandonar seus trabalhos e saem de casa ou de um único cômodo somente em casos de extrema importância e necessidade.

Caio Wilmers Manço, 34, que auxilia um dos grupos de apoio da Associação Brasileira de Síndrome de Tourrete, Tiques e Transtorno Obsessivo Compulsivo (ASTOC), conseguiu superar seu transtorno. Segundo ele, “todo mundo tem suas manias. A grande diferença para quem tem TOC é que as manias atrapalham, incomodam e ocupam um espaço muito grande da vida da pessoa”. Ele mesmo conta que já chegou a demorar cerca de uma hora em um trajeto de carro que duraria cerca de quinze minutos.

A ASTOC não se compromete em pagar remédios e tratamentos, seu benefício é levar para a sociedade o conhecimento do que é o TOC, e mostrar para as pessoas que sofrem com o transtorno que elas não estão sozinhas, há outras que também sofrem. A Associação oferece às vítimas do TOC grupos de apoio para jovens, adolescentes e adultos, e nessas reuniões que acontecem uma vez por mês as pessoas dividem suas ansiedades, manias e hábitos.

Um dos grandes problemas para quem já tem um quadro de Transtorno Obsessivo Compulsivo desenvolvido é o agravamento de tais sintomas, de modo que as pessoas começam a desenvolver depressão, síndrome do pânico, entre outras complicações. O TOC é um tema abordado por muitas novelas, livros e peças, mas na maioria das vezes é banalizado, não sendo tratado com a importância que exige. Para quem sofre do transtorno, conviver com as manias é difícil, mas tentar se curar delas é algo que muitas evitam. O TOC, muitos acreditam, não é uma doença curável, ele deixa sequelas que podem ser revividas a qualquer momento ou situação que relembre às do tempo de compulsão e obsessão.

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