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por Flávia Kassinoff e Luciene Sudré

“Vocês não estão entendendo nada!”, gritava Caetano Veloso, enquanto uma plateia furiosa vaiava a apresentação de “É proibido proibir”, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, naquele domingo, 15 de setembro de 1968. “Eu digo sim, eu digo não ao não, é proibido proibir… Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês tem coragem de aplaudir esse ano um tipo de música que vocês não aplaudiriam no ano passado? É a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada absolutamente nada!” E os gritos e vaias abafaram a pergunta final: “Que juventude é essa?”.

            

A juventude era a de 68, que lutava contra a repressão do governo, porém censurava uma  apresentação como a de Caetano. Aquela geração vivia um claro paradoxo. Se no contexto internacional, o movimento da contracultura tomava conta de grande parte dos jovens, a liberdade de pensamento, a busca pela liberdade sexual, pela paz, aqui no Brasil vivíamos uma ditadura. Os artistas brasileiros de esquerda se utilizavam da arte como meio de propagação do seu discurso político. Nesse contexto surge a Tropicália, até hoje a última vanguarda brasileira, que subverteu esse quadro propondo a internacionalização da cultura e uma nova estética sem se restringir apenas a política. Sendo assim, no campo musical, eles tentaram revitalizar a música popular brasileira, acrescentando elementos da cultura jovem mundial, como a guitarra elétrica e o rock.

Caetano Veloso: “É probido proibir”!

Esse movimento cultural, muito se assemelha com outra vanguarda que surgiu no Brasil, onde algumas décadas antes, em São Paulo, a arte estava à solta. Marcando o início do Modernismo, um evento que tornou-se referência cultural no século XX foi a “Semana da Arte Moderna”, também conhecida como “Semana de 22”, que na verdade, durou 3 dias, e em cada um deles foi trabalhado e exposto um aspecto cultural, como música, literatura, pintura , escultura e poesia, como uma explosão de arte libertada, uma ebulição de novas ideias, pautando a livre expressão e um sentimento nacionalista. O Teatro Municipal de São Paulo, no ano de 1922, entre os dias 13 a 17 de fevereiro, foi palco de um acontecimento que impactou a história da Arte ideologicamente, com uma identidade própria, consolidando veementemente a vanguarda brasileira modernista. A exposição pontuou o início de um processo que demonstrava a necessidade de renovação na arte brasileira, chamando atenção de muito jovens para a arte e cultura em geral.

A arte como protesto, assim como na Tropicália: Satira aos grandes nomes intelectuais da época.

A partir da Semana de 22, o cenário cultural e artístico do País foi restaurado. O mesmo gosto de renovação que embalava os jovens do movimento de 22, contemplava e era o desejo dos jovens que mais tarde, seriam o polo cultural em 1967 e 1968, principalmente. Mais do que renovar a arte, esses buscavam fazer a arte e a liberdade.

Como disse Tom Zé sobre os anos de chumbo até “pensar, na ditatura, era crime”. Se pensar era um crime, muitos de nossos artistas consagrados são criminosos de primeira linha. Pensava-se, e pensava-se muito, de forma que eram repreendidos por isso. Por pensar em liberdade, em igualdade. A opressão que esses sofriam aumentava a cada obra artística e cultural que realizam e lutavam, sendo até mesmo torturados, para que tais obras moldadas por ideologias fortes fossem enxergadas pela sociedade brasileira, em um dos momentos mais obscuros de toda sua história.

Esse contexto deu espaço pra última vanguarda cultural brasileira deixar sua marca: O Tropicalismo, ou o Movimento Tropicalista constituído por inovações um tanto quanto radicais pra época, sendo esse o fator que faz do Tropicalismo um movimento tão único. Influenciado pela cultura pop estrangeira e pela vanguarda, contribuiu para as mais diversas e importantes manifestações tradicionais da cultura brasileira somadas a inovações estéticas, com objetivos completamente comportamentais que se imprimiram nesse contexto de opressão que a Ditadura Militar compunha, principalmente nos jovens.

      

Álbum Tropicália ou panis et circencis.

O Tropicalismo, a última e mais forte vanguarda brasileira, fez também oposição aos tradicionais costumes sociais da época. Oposição ao comportamento imposto pelo conservadorismo, um papel que até hoje, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé representam através de suas músicas, e que também está presente nas artes plásticas com Hélio Orticica, no Cinema, contribuindo pro Cinema Novo de Glauber Rocha e nas inúmeras peças de teatro tropicalistas.

Com cenas que nos fazem relembrar esse comportamento libertário e não padronizado, Marcelo Machado lançou o documentário “Tropicália” nesse mês, analisando esse movimento homônimo tão impactante, resgatando uma fase onde surgiam novos artistas e intelectuais a cada segundo, impulsionado pela cultura pop externa e enfrentando processos como o exílio, e que até hoje representam a luta da juventude.

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