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Por Lucas Turco e Murilo Cepellos

Onde há fumaça há fogo, e, junto com ele, um nevoeiro de suspeitas. Nos últimos meses, diversos incêndios vêm devastando um grande número de favelas na capital de São Paulo. O forte calor e a ausência de chuva que a cidade conviveu recentemente, acompanhados de um labirinto de barracos construídos com papelão e outros materiais inflamáveis são, à primeira vista, as razões mais plausíveis para o início do fogo. Mas uma série de coincidências colocam em dúvida essas hipóteses naturais, e despertam na discussão a possibilidade do envolvimento de interesses particulares pelas tragédias.

Apenas este ano, 69 favelas paulistanas foram devastadas pelo fogo.  Entre 2005 e 2011, o número atinge as incríveis 840 ocorrências. Uma pesquisa sobre as queimadas nas favelas nos últimos sete anos aponta um decréscimo no número de casos. No entanto, uma simples contagem dos episódios pode esconder a verdadeira dimensão do problema. É necessário mostrar que os incêndios mais recentes foram muito mais trágicos e devastadores. Entre todos esses casos, aqueles que chamam mais a atenção e colocam em xeque o teor de fatalidade, são os incêndios dos últimos meses, presenciados em dez favelas de São Paulo: São Miguel, Alba, Buraco Quente, Piolho, Paraisópolis, Vila Prudente, Humaitá, Areão, Presidente Wilson e Moinho.

Esses desastres são comoventes, pois acontecem com famílias humildes, que constroem suas moradias em comunidades carentes e, em questão de segundos, perdem tudo o que possuem pela ação do fogo, sendo obrigadas a começar uma nova vida em outro lugar, ou, infelizmente, desistir dela. Além das próprias pessoas que vivem na favela atingida, todos os arredores do local sofrem com o desastre.

O incêndio do dia 17 de setembro na favela do Moinho, comunidade que fica no centro da cidade e que já sofreu com outro grave incêndio em dezembro de 2011, paralisou duas linhas da CPTM, interditou o viaduto engenheiro Orlando Murgel e causou caos no trânsito de São Paulo, congestionado por toda a manhã. O desastre na favela terminou com a morte de um homem e 80 barracos destruídos. A polícia atribui a origem do fogo a uma briga passional entre um casal homossexual. Fidélis Melo de Jesus, 37, com um botijão de gás e um maçarico, ateou fogo no namorado, Damião de Melo, 38, depois de uma discussão. Consta no boletim de ocorrência que ambos eram usuários de crack. No entanto, a justificativa amorosa não convenceu os moradores da comunidade, que afirmaram para os bombeiros que havia outros três pontos de incêndio, distantes 50 metros do local da briga. “A origem desses incêndios é muito subjetiva, dificilmente conseguimos definir a causa de toda a destruição, ainda mais quando os responsáveis por essa investigação não tem interesse nenhum pelo desdobramento do assunto”, comentou Juliane Freitas, aluna de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica que está elaborando um Trabalho de Conclusão de Curso sobre especulação imobiliária e incêndios em favelas de São Paulo.

É curioso notar que todas as favelas incendiadas ficam próximas de bairros de alto valor, que sofrem grande especulação mobiliária, ou estão fisicamente atrapalhando algum projeto da prefeitura. São locais que o governo tem interesse em desabitar para implantar projetos particulares, que sejam mais lucrativos. “É consenso entre os acadêmicos que a especulação imobiliária é, sim, um fator que impede que a moradia popular seja colocada em primeiro plano em São Paulo. Todos esses incêndios acontecendo em um intervalo tão pequeno de tempo dão pano para que a discussão sobre possíveis interesses de particulares seja colocada em pauta”, explicou Juliane Freitas.

Os moradores da favela do Moinho, por exemplo, sofrem com a pressão do governo, que deseja o local livre desde 2006, e precisam lutar diariamente para se manterem em suas casas. De acordo com dados do IBGE, lá vivem cerca de 532 famílias, que juntas totalizam 1.656 residentes. Para que os habitantes deixem suas casas, a Prefeitura insiste em oferecer indenizações insignificantes e prometer apartamentos em outros lugares distantes de onde as pessoas construíram suas vidas. “Acontecerá um debate interessante com a Sehab e com os movimentos de moradia, que acusam a prefeitura de beneficiar as construtoras no novo Plano Municipal de Habitação, que foi aprovado na câmara, mas está passando por ajustes com a participação popular. Dessa assembléia poderá sair alguma novidade interessante, já que os moradores poderão expressar opiniões”, comentou Juliane.

A maioria das favelas incendiadas sofreram grande valorização imobiliária nos últimos anos. Segundo dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a favela do Piolho (Campo Belo) valorizou 113%, a Vila Prudente (Sacomã), 149%, e Presidente Wilson (Cambuci), 117%.

O uso das terras incendiadas para fins particulares já começou. Uma semana após a tragédia na favela do Moinho, uma área incendiada de 10 mil metros quadrados, que pertence à Ceagesp, chamada pelos moradores de “bosquinho” pela grande quantidade de árvores que havia no espaço, foi cedida ao setor privado. Havia um projeto desde 2004 para que a região abrigasse o Parque do Moinho, no entanto, após o incêndio, o plano foi ignorado e hoje o local está em obras para a inauguração de um estacionamento para caminhões.

Em setembro, foi aberta uma CPI para investigar o número elevado de casos de incêndio. Francisco Miranda, líder comunitário do Moinho, esteve na Câmara Municipal. No entanto, pelo fato de a investigação ser apurada em ano eleitoral, pouco foi feito para descobrir se houve atuação criminosa nas tragédias. “Estão tentando adiar ao máximo essa CPI. Os envolvidos não querem que estoure um escândalo deste em pleno ano eleitoral, pois muita falcatrua seria descoberta e haveria muito político sujando seu nome. Como existe uma cadeia de amizades por necessidade na política, e uma burocracia irritante na justiça, essas acusações ainda vão levar muito tempo para serem analisadas efetivamente”, avaliou a jornalista.

O blog http://fogonobarraco.laboratorio.us/ apresentou um estudo sobre os incêndios nas favelas de São Paulo entre 2005 e 2012. Os dados mostram os pontos de queimada e a valorização imobiliária dos locais.

Focos de incêndio na região metropolitana

Favelas incendiadas nos últimos anos

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