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Por João Monteiro

As artes marciais constam na história desde o começo da civilização e sua criação se confunde com o começo da propriedade e da agricultura, já que com a acumulação de capital surgiram também a cobiça, a inveja e a ganância, havendo assim a necessidade de técnicas de defesa pessoal e combate corpo-a-corpo. Hoje em dia, é o esporte que mais cresce no mundo, o que tem mais seguidores e o que arrecada mais dinheiro.

O nome do esporte é MMA, abreviatura de Mixed Martial Arts, ou artes marciais mistas, já que todos os estilos de lutas podem ser usados dentro de uma gaiola ou um ringue em um combate corporal, durante o tempo total da luta (que varia entre 15 e 20 minutos, dependendo da organização), ou até o oponente não conseguir se defender inteligentemente, ser nocauteado, ou ser finalizado através de golpes de submissão ou estrangulamento.

O Mixed Martial Arts nos últimos anos

O esporte passou por diversas mudanças em sua estrutura e em seu livro de regras até se tornar controlado e seguro para o bem-estar físico dos atletas, passando por uma tranformação de briga para luta. Alguns golpes foram banidos, como a cabeçada, a joelhada na cabeça em oponentes caídos, ou o perigosíssimo “tiro de meta”, onde o lutador simplesmente chutava a cabeça do oponente caído o mais forte possível. Mesmo assim, alguns golpes, como joelhadas e cotoveladas, ainda não são aceitos por grande parte das pessoas, tornando um esporte que, apesar da sua imensa popularidade, ainda é alvo de protestos, sendo muitas vezes considerado apenas violência.

Hoje o esporte é altamente regrado com um rigoroso processo de preparação por treinadores e médicos, que treinam seus lutadores duramente de 4 a 6 meses para uma luta, com dietas e fortes treinamentos técnicos, físicos e funcionais. Além da dieta, os lutadores passam por outro tipo de corte de peso para uma luta: a desidratação ou secamento, um corte duríssimo e que causa a divergência de especialistas do assunto sobre os riscos para o corpo de uma pessoa.

A desidratação consiste em um período que pode variar de sete a dez dias, onde o atleta abole o consumo de água ou qualquer bebida ou alimento que reponha os líquidos do corpo, “secando” o atleta. O lutador chega a perder de quatro a cinco quilos em três dias, e o processo é extremamente desgastante, como explica o mestre Wellington Guimarães, que luta Jiu-Jitsu há 18 anos: “Eu já presenciei meu mestre desidratar para uma luta de MMA, e o processo judia do corpo mesmo. Mas é controlado, ele chega na última semana antes da luta com um peso certo para desidratar até a hora da pesagem, então ele só perde água, não perde músculo, e como a pesagem oficial acontece 32 horas antes da luta, ele já sai da pesagem bebendo água e no outro dia ele já recuperou todo o peso perdido com a desidratação (sic) ”, diz. O lutador ainda completa: “Ele bebe o mínimo de água para o sistema continuar funcionando, é excruciante”. Ainda: ” o Anderson Silva (brasileiro campeão dos pesos-médios do UFC), por exemplo, se ele precisa pesar 83 quilos, e se, uma semana antes da luta ele está com 90 quilos, ele passa pelo processo de desidratação para perder esses 7 quilos”, conta.

A receita do sofrimento

A desidratação consiste, além da privação de água, um processo rigoroso de treinamentos que exigem muito do corpo, como corridas; horas de esteiras e bicicletas ergonômigas; sparring com saco de pancadas; entre outras; sendo tudo feito com uma roupa isolante que retém todo o calor, para o atleta suar litros de água. O tempo restante é gasto na sauna, cerca de seis a oito horas por dia, em um calor insuportável.

Muitos lutadores, principalmente amadores, que não estão acostumados a essa rotina, desistem no meio do processo, graças ao grande esforço físico e mental a que estão submetidos. É essencial a ajuda e o apoio moral de colegas e treinadores, que chegam a passar as horas na sauna junto com o lutador.

Após a pesagem, o lutador têm o “dia da princesa” (expressão utilizada pelo lutador Wanderlei Silva, durante uma entrevista). Este dia, entre a pesagem e o dia da luta, é o tempo em que o lutador está liberado para comer e repor toda a água do corpo, voltando quase ao seu peso original, com suas devidas precauções, como explica o faixa-preta: “Ele está sem líquido do corpo, portanto ele não pode comer churrasco. Ele vai comer uma salada, carne branca, alimentos ricos em proteína para repor o que perdeu durante a dieta e principalmente durante o secamento”.

Esse sistema começou a ser usado recentemente, já que é proveitoso para os atletas, que lutam com um peso realmente maior do que no dia da pesagem. “Sete, oito quilos de diferença entre lutadores dá uma grande vantagem pro lutador mais pesado, com certeza”, afirma Wellington. A prática se tornou obrigatória, já que praticamente todos os atletas hoje em dia utilizam desse método.

Um mal necessário

Vários especialistas divergem sobre os perigos dessa prática. Para o faixa-preta, se devidamente acompanhado por especialistas, o perigo é nulo. Todavia, a longo prazo pode trazer problemas para o corpo do atleta. “É claro que essa perda e ganho de peso é prejudicial à longo prazo, mas nenhum atleta em alto nível é saudável! O jogador de futebol machuca, o jogador de basquete, de vôlei, todos se machucam, isso é fato. Atleta de alto nível não é sinônimo de saudável. Todo mundo sabe disso, mais é muito mais vantajoso você chegar na luta pesando sete, oito quilos a mais”, diz.

O lutador Junior Assunção precisou de soro após a pesagem

Enquanto alguns fisiologistas dizem que o risco, se acompanhado, é muito pequeno. Alguns consideram danoso ao organismo, já que a grande perda de água leva a um grande estresse e o corpo começa a entrar em descompasso, podendo levar de falência renal à arritmia. O fisiologista e biólogo da USP, José Eduardo Bicudo, explica: “Uma perda acima de 3% da massa corpórea coloca em risco a vida de qualquer ser humano. Neste caso, o organismo lança mão de alguns mecanismos para preservar o volume celular o máximo possível. Há, por exemplo, uma redução drástica do volume urinário. No caso do atleta em questão, supondo que ele pese, digamos, 80-90 kg, uma perda de 10 kg em uma semana, significa uma perda muito acima dos 3%. Tal perda gera, entre outros problemas graves, um aumento significativo da viscosidade do sangue, sobrecarregando o trabalho do coração. Uma redução no volume do sangue (principalmente plasma) diminui o volume de fluido que é normalmente filtrado pelos rins. Um volume menor de água presente no sangue implica também em um aumento da concentração do fluido extracelular, cujo efeito é retirar água das células, com diminuição de seu volume, impedindo assim o seu pleno funcionamento. Tal condição a longo prazo, caso não haja ingestão de água, leva a um colapso geral do organismo”. O professor doutor ainda completa: “Nenhum profissional sério acompanharia tal regime, pois este coloca a pessoa em risco de vida”.

O videolog abaixo, gravado pelo presidente da maior organização de MMA do mundo (UFC), Dana White, mostra em um certo momento o lutador brasileiro Vitor Belfort visívelmente abalado e fraco durante seu corte de peso. No vídeo, o atleta mal consegue falar com o presidente, e morde avidamente um saco de gelo, para somente molhar a boca, sem ingerir nenhum líquido.

 Neste cenário de crescimento gigantesco de popularidade, críticos ainda debatem contra o MMA como esporte, apontando suas características brutais e violentas para descredenciá-lo, apontando seus instinstos mais primitivos do ser humano que são usados em uma grande estratégia de marketing. No entanto, poucos se atentam nessa prática extremamente rigorosa que exige grande esforço físico do atleta, além de prejudicar a integridade física e mental do lutador. A desidratação feita sem severo acompanhamento de fisiologistas, treinadores e preparadores físicos podem trazer sérias consequências ao atleta ao colocá-lo nos limites de suas capacidades. As artes marciais mistas não são para qualquer um, e a preparação que a antecede, menos ainda.

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