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Por Bruna Mello e Júlia Paolieri

Não foi do dia para a noite que as mulheres conseguiram um espaço mais amplo no rock; foi um longo processo que começou durante o século XIX e início do século XX com intensas atividades feministas nos Estados Unidos e Inglaterra. Desde sua criação nos anos 50, o rock veio passando por diversas mudanças, e na década de 70, em resposta a todas as bandas com uma exuberância e melodia mais trabalhada, é que surgiu o punk, com um som mais escrachado, seguindo o lema do “do it yourself”, e com ele, a primeira banda formada apenas por garotas, as Runaways – ideia da guitarrista e vocalista Joan Jett – precursora para que as mulheres conquistassem algum espaço, mesmo que mínimo na música, uma vez que sempre foram vistas voltadas para o lado pop, diva, mostrando o corpo, um estereótipo comum da sociedade machista.

Cena do filme “The Runaways – as garotas do rock” / Foto: reprodução

Anos 90. Década nova, outros ares, o grunge ganha mais espaço com o Nirvana e Pearl Jam, o punk-rock californiano ganha mais autonomia com Green Day, Offspring, e é claro que as meninas não deixaram escapar essa oportunidade: o movimento musical “Riot Grrrl” informou a todas as mulheres de seus direitos, além de mostrar que elas tanto podem como deveriam montar bandas femininas.

Além do punk e hardcore influenciarem o “Riot Grrrl”, o intuito desse movimento era pontuar também que uma menina pode muito bem tocar um instrumento e não estar apenas nos vocais de uma banda; que não é só um rostinho bonito, mas tem conteúdo, atitude, e muito talento. O movimento surgiu nos Estados Unidos e as pioneiras foram as mulheres da banda Bikini Kill, e logo depois, bandas como L7 – que tiveram um espaço maior na mídia, como a MTV –  Hole, da viúva de Kurt Cobain, Courtney Love, Le Tigre, The Donnas, entre outras.

Se o rock nacional já sofre as consequências devido às músicas comerciais de outros gêneros, não é diferente para as roqueiras. O baixista Leon Sérvulo da banda Hateen acredita que “não é difícil uma banda feminina se firmar no cenário. “Noventa por cento das bandas femininas querem ser lindas, ter um belo corpo, mas esquecem da música. Um diferencial disso tudo é a banda Vanilla Ninja, sendo que elas têm uma perfeição musical e uma postura de calar a boca de qualquer marmanjo metaleiro.”

As meninas da banda Girlie Hell de Goiânia mostram que a cena do Riot Grrrl está viva

Para Carol Pasquali, baterista da Girlie Hell, banda de Goiânia, “o tipo de preconceito que, infelizmente, mulheres sofrem em qualquer trabalho. E sentimos que isso é um preconceito por que, mesmo quando a banda prova que é competente, não encontra espaço ou apoio. Quando produtores se deixam tomar por esse preconceito, fica difícil se firmar no cenário. Mas cada dia mais vemos os produtores e agentes abrindo a cabeça, dando uma chance para as bandas femininas mostrarem seu trabalho e até apostando nessas bandas.”

Rebeca Domiciano, vocalista da banda Anti-Corpos, conta que ter uma banda com formação totalmente feminina e feminista aqui no Brasil, às vezes pode ser um pouco ousado. “Eu percebi que anda existindo uma boa aceitação das pessoas (com a Anti-Corpos), o que prova que a carência é tão grande de bandas como a nossa hoje em dia que os meninos e as meninas ficam meio espantadas quando nos ouvem pela primeira vez num show. A melhor coisa que se pode ter na vida é ter banda”, diz.  “Ainda existe muito preconceito não só por homens como por mulheres também, principalmente se são bandas femininas”.

Para Rebecca o que falta para que bandas femininas se firmem e deslanchem no Brasil é “a vontade de fazer. Mulher que gosta de hardcore, de punk, e convive em ambientes dessa cena, devem se unir e formar bandas, fazer aula de instrumentos, montar grupos autogestionados de aulas de instrumentos, de estudos feministas. Saber se virar é o que há. E quem tem o que falar, tem o que escrever, tem música pra fazer, tem texto pra redigir”. Além disso, festivais como o Girls Just Wanna Have Fun, realizado em São Paulo, Girls on X, realizado em agosto desse ano em três capitais nordestinas vem promovendo e dando espaço para as bandas femininas undergrounds.

“A melhor coisa que se pode ter na vida é ter banda” afirma a vocalista da banda Anti-corpos, Rebeca Domiciano

Mesmo não sendo uma banda formada apenas por mulheres, a Pitty conseguiu se firmar na cena e foi premiada diversas vezes como no VMB (Vídeo Music Brasil), Prêmio Multishow, Prêmio Dynamite de Música Independente, e até no Grammy Latino de 2008. Outras bandas com garotas no vocal também tem chamado atenção como CW7, Izi e Fake Number..

Em fevereiro deste ano, a banda russa feminista Pussy Riot teve uma grande repercussão na mídia devido a uma confusão quando cinco de suas integrantes entraram encapuzadas em uma área restrita do altar da catedral de Cristo Redentor em Moscou, o principal templo ortodoxo do país, se despiram e cantaram músicas contra o presidente Vladimir Puttin.  Três das cinco integrantes foram condenadas em agosto por vandalismo motivado por ódio religioso com uma pena de dois anos.

O caso desta banda feminista chamou atenção do mundo todo, e não são poucas as personalidades femininas da área musical que veem o acontecido como uma forma de atrair mais mulheres para o feminismo, ou ainda mais, como um marco para o feminismo mundial.

As bandas femininas nacionais e internacionais têm algo a mais a dizer e a mostrar além de suas belas vozes, roupas e estilos. Elas apoiam causas e seguem ideologias às quais muitas pessoas não tem disposição de compreender. Tudo que elas precisam é de espaço e um pouco de abertura por parte da sociedade para mostrarem que não estão para brincadeira e que ser uma banda só de mulheres também é coisa séria.

Pussy Riot protestando na catedral da Igreja Ortodoxa na Rússia / Foto: reprodução

Cena brasileira

No final dos anos 70, início dos 80, Rita Lee já estava iniciando sua carreira solo sem os Mutantes e sim com a banda Tutti Frutti. E, como os anos 80 foram um marco para a música nacional com o rock de Brasília provindo de bandas como Legião Urbana, Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha com Paula Toller nos vocais, entre outras, as mulheres começaram a se infiltrar mais no cenário musical do rock brasileiro, mas o ápice ainda estava por vir.

No Brasil esse movimento “Riot Grrrl” teve repercussão com as bandas femininas Bulimia, Toxoplasmose, Pulso, Dominatrix, e outras mais recentes como Lipstick, Agnela, Girlie Hell, Anti-Corpos. Muitos grupos desse cenário que começaram o movimento já não estão mais na ativa, mas há uma reciclagem das mesmas para que a cena permaneça viva. Uma parte das mulheres do underground acredita que os produtores têm um papel essencial para fortalecer a cena e incentivar as garotas a fazerem suas próprias músicas.

 

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