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Por Bianca Benfatti e Vanessa Ramos
 

“Estudo desde os 5 anos, mas sou vagabundo;

  Não tenho sequer uma passagem pela polícia, mas sou marginal;.

Conheço algumas leis, mas não tenho direitos,

Tenho voz para protestar mas não posso usá-la;

Nunca fiquei de recuperação, mas não tenho cultura;

Meu passatempo é a leitura, mas sou analfabeto

Sou o que sou, mas me julgam pelo que não sou.

Sou um torcedor organizado.

Sou Caio, 14 anos, e sou associado a Remoçada.

E não aguento mais o preconceito contra as

Torcidas Organizadas.”

 

 
 

O assunto divide opiniões. Muitos consideram que elas são parte fundamental nas arquibancadas, tantos outros a marginalizam. Infelizmente a maioria desses que se posicionam contra as torcidas organizadas, são influenciados pela mídia e pelos chamados ”formadores de opinião”. A cada clássico, onde geralmente há conflitos ou entre torcidas rivais ou entre torcedores e policiais e até mesmo dentro das próprias organizadas, jornais estampam os saldos desses confrontos: atos de vandalismo e violência. Estes acontecimentos isolados se naturalizam à medida que as organizadas são expostas na mídia apenas sob este viés.

Como bem exemplifica o presidente da torcida organizada Dragões da Real (SPFC), André Azevedo:  “Muitos são-paulinos odeiam a organizada do próprio clube, muitas vezes com razão e às vezes por motivos como esses que a imprensa divulga. O torcedor não gosta (das organizadas) sem conhecer: não gosta pelo que ele ouve e pelo o que dizem.” E acrescenta, “Você (torcedor) não vai fazer parte da organizada pra fazer parte de uma ‘bandidagem’, como vendem. Talvez se os trabalhos sociais fossem mais divulgados…Por exemplo: as torcidas que são atreladas a escolas de samba, como hoje a Mancha, a Gaviões e a Dragões que estão no grupo especial do carnaval de São Paulo, acabam conquistando um novo tipo de torcedor também porque estes  acabam conhecendo a torcida através do samba, e isso mostra outro lado das organizadas. Por isso eu digo: se tivesse uma inversão de valores e mostrassem as torcidas como mostram o carnaval (de maneira positiva e festiva) nós teríamos muitos mais sócios”.

  • PROJETOS SOCIAIS

A mídia quase sempre noticia fatos violentos ocorridos com as torcidas organizadas, porém existe um lado que não é explorado. A maioria das organizadas possui um trabalho de cunho social. Um exemplo é a Gaviões da Fiel, que leva adiante projetos desse gênero em várias áreas, como explica Igor, integrante da torcida do Corinthians. No esporte há aulas de futebol para as crianças e de artes marciais (muay thai), para qualquer um interessado tanto homens quanto mulheres. “Curiosamente, quando essas aulas começaram, chegaram a divulgar que a torcida estava montando um “exército” para as brigas, o que é uma imensa bobagem. O Muay Thai se mostrou um sucesso e já aconteceram 4 torneios realizados na sede da torcida, com dezenas de academias”, conta. Na música há uma oficina de cavaquinistas e também de violão; ainda há o projeto de inclusão digital, da qual Igor ajudou a fundar, responsável por formar centenas de pessoas nos cursos de introdução à informática, Word, Windows, Excel e Internet; programa ler é gol, que construiu uma biblioteca na quadra para as crianças; e o da escolinha de xadrez, que oferece aulas para os jovens aprenderem o jogo. Além disso tudo, há também os eventos pontuais em dias especiais como páscoa, dia das crianças, dia dos pais e das mães, natal; e o auxílio às vítimas de enchente, como relata Igor sobre uma tragédia ocorrida no ano de 2010  “Fomos para São Luíz do Paraitinga ajudar na reconstrução da cidade: levamos 3 ônibus cheios de mantimentos e cerca de 150 pessoas para a cidade, e também em Atibaia (no ano de 2011), onde 150 famílias viviam desabrigadas e fomos levar alimentos, água e prestar solidariedade”. É claro que a mídia não inventa dados, nem notícias, o que significa que todas as tragédias divulgadas por esta, são realmente frutos de confrontos. Esta realidade violenta e alarmante mobilizou autoridades do estado de São Paulo que realizarem um projeto junto às organizadas. Reuniões com o Batalhão de choque entre os líderes das organizadas e as autoridades para discutir estratégias de organização do evento (o jogo), planejamento de locomoção junto aos representantes da CET, etc. Tudo pra fazer do jogo, em si, a manchete principal dos jornais pela manhã.

 

Um pedido de paz

Esta porém é uma medida que não acontece a âmbito nacional, é comum por exemplo coletar depoimentos como o de Daiane, 19 anos e torcedora do Grêmio: “A ação da polícia muitas vezes é necessária. Entretanto, muitos policiais se acham superiores a qualquer torcedor e acham que tem o direito de fazer o que bem entendem. Obviamente que as coisas não funcionam assim. Cabe a polícia saber administrar o seu trabalho, e não sair ‘batendo’ em quem eles acham que tem cara de ‘maloqueiro’. A policia julga muito o torcedor, e nunca se vê no real lado da torcida.”

As reações dos policiais são quase sempre desproporcionais aos acontecimentos, e mesmo assim a mídia trata isso com heroísmo.E assim, através da mídia, a opinião pública estabelece seus vilões e mocinhos. Os torcedores, todos vândalos, as torcidas organizadas facções criminosas, e a polícia a entidade que reage com violência e se justifica em nome da “ordem”. Essas manchetes que espetacularizam os confrontos não só, ajudam a disseminar uma opinião preconceituosa, mas também afastam os torcedores “comuns” e as famílias dos estádios.

  • COMO SE ORGANIZAM AS ORGANIZADAS

A maioria das torcidas organizadas se mantém sem o apoio dos clubes, algumas redes, no entanto, veiculam que estas recebem ingressos dos clubes: no caso da Dragões da Real, isso já foi especulado, e o presidente nega que haja tal ação. Sendo assim, algumas organizadas podem até mesmo receber algum incentivo dos clubes, mas dificilmente uma estrutura se mantém sem suas campanhas de vendas de material, arrecadação de renda em eventos, cobrança de mensalidade entre os sócios etc. Assim,a única maneira que o clube acaba ajudando é por meio das vitórias, as quais aumentam o número de sócios e de vendas dos materiais.

  • RIVALIDADE

Muitos podem defender a tese de que diante esses conflitos entre as torcidas, uma solução viável seria o chamado “clássico de uma torcida”, onde as torcidas rivais − assim como acontece com o mandato do campo − revezam sua presença na casa. Assim, teríamos em cada jogo apenas uma torcida representada no estádio. A maioria dos amantes do futebol repudia essa medida, isso porque estariam então distorcendo a essência do jogo, como explica Daiane: “Acho que clássico sem a torcida adversária, não é um ‘clássico’. O jogo se torna divertido a partir do momento em que ambas as torcidas ficam fazendo piadinhas entre si. Mas piadas saudáveis. Cabe a cada torcedor ter a cabeça no lugar, e tornar o clássico o mais bonito possível! ”Conhecendo um pouco os bastidores do futebol podemos entender que não se tratam de torcidas inimigas e sim, rivais. Grande parte das diretorias das organizadas conversam entre si e revolvem seus problemas através do diálogo. A diversidade das torcidas organizada é algo relativamente bom, à medida que cada torcedor deve se identificar com uma determinada postura de sua torcida e assim, deve buscar uma torcida a qual melhor se encaixe.

 Há então um paradoxo que envolve o futebol, ao reunir milhares de pessoas com realidades diametralmente distintas, em prol de um objetivo comum, os estádios podem ser classificados como um santuário de união das diferenças. Entretanto, não é possível negar que cada indivíduo responde às arbitrariedades da vida de uma forma diferente. E isso pode explicar o ambiente explosivo dos estádios, pois reunimos milhares de dificuldades díspares enfrentadas por cada torcedor, são problemas com o chefe, com drogas, com a família…

O presidente da Dragões, conclui: “faço reuniões com outras torcidas organizadas e eu sempre digo para falarem o seguinte para as autoridades: Não prometa o que você não pode cumprir, nós não vamos acabar com a violência, porque a violência é um problema social − e torcida organizada não vai ‘andar na linha’ nunca. Ela paga uma conta que não é dela, por exemplo, jogam tudo na conta da torcida. Mas sempre haverá problemas, sempre, porque isso é do ser humano, isso é da pessoa. E você responder pelo outro é muito difícil. Eles nunca individualizam: “… o João fez, não, a torcida fez”; quem paga é o todo até quem não fez.”

Não se trata, portanto, de estigmatizar as ações das torcidas organizadas. Se por um lado a mídia condena, por outro não se pode julgar a participação de milhares de torcedores que as compõem. A ideia que se vende na mídia entre certo e errado, bom ou mau, “protagonistas” ou “vilãs” são rótulos não excludentes. Essa dicotomia não pode definir entidades tão complexas como as organizadas.

“Os outros torcedores ajudam a criar o clima do estádio, mas é na Torcida Organizada que a festa acontece.”- Igor, integrante da Gaviões da Fiel.
(foto:Gabriel Uchida)

 

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