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Por Rodolfo Almeida e Marcelo Teixeira

Na última década a região do Oriente Médio tem sido, mais do que nunca, um dos maiores focos da mídia e da imprensa internacional. Desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e as consequentes políticas ocidentais de Guerra ao Terror até a chamada Primavera Árabe que se iniciou em diversos países da região, a imprensa tem tratado dos acontecimentos orientais com um afinco curioso – e com evidente despreparo, como veremos.

Desde antes do início dos conflitos políticos e econômicos entre países orientais e ocidentais (principalmente entre Estados Unidos da América e Iraque), instaurou-se uma tensão aparentemente inquebrantável e de enorme complexidade, que perpassa diferentes visões religiosas e espirituais, ideológicas, sociais, históricas, econômicas e humanísticas – discrepâncias entre os dois hemisférios do planeta que evidenciam o enorme abismo de ignorância, desconhecimento e preconceito existente entre o mundo ocidental e oriental.

Incêndio e protestos em Peshawar, no Paquistão – Foto: Arshad Arbab/Ese

Quando se pensava que o ano de 2012 já havia sido por demais conturbado nos países muçulmanos do Oriente Médio – a partir da continuidade de um intenso processo de suposta redemocratização, derrubada de ditaduras e lideres políticos despóticos, processo em si que possui certas observações –, um novo elemento surgiu para intensificar as disputas. Trata-se de The Innocence of Muslims (A Inocência dos Muçulmanos, em tradução literal), um suposto longa-metragem amador de origem americana que teria incitado uma onda de revolta e protestos “anti-ocidente” nos países muçulmanos e acarretado violentas consequências no plano político e social, entre elas o incendeio de bancos, cinemas e redes de fast-food americanas, protestos internacionais, centenas de feridos em meio a manifestações, o fechamento de diversas embaixadas de países ocidentais no oriente (inclusa a embaixada brasileira no Paquistão), e a morte de Chris Stevens, embaixador americano na Líbia.

O filme se tornou alvo de protestos por conter cenas desrespeitosas aos preceitos da religião islâmica, ridicularizando o profeta Maomé – figura basilar para a organização da religião – e o representando como um homem pedófilo, assassino e sedento por poder. Estas provocações tornam-se ainda mais graves tendo em vista que, de acordo com os princípios do Alcorão, livro sagrado do islamismo, qualquer representação imagética do profeta é um pecado irreparável.

O longa teve um trailer de cerca de quinze minutos publicado na internet e atingiu as mídias sociais no início de setembro deste ano, ao ser disseminado online por um blogueiro egípcio chamado Morris Sadek. O alcance ao público muçulmano, porém, se fez a partir da divulgação feita em 8 de setembro pelo apresentador de TV egípcio Sheikh Khaled Abdullah em seu programa.

Qualquer espectador desavisado se surpreenderia ao descobrir que um vídeo aparentemente tão tolo e de tão mau gosto – com baixíssima qualidade técnica, péssima atuação e direção digna de qualquer besteirol Hollwoodiano – foi responsável por uma infindável onda de protestos e ofensivas, e este questionamento tem sua razão. Resta uma questão sobre se terá sido um vídeo claramente infantil o responsável, de fato, por mortes, incêndios e conturbações políticas de alto escalão, como as observadas recentemente.

Representação do profeta Maomé no filme Inocência dos Muçulmanos – Foto: divulgação

 Todos os fatos e agentes que circundam estes delicados conflitos são passíveis de uma pulga atrás da orelha, uma desconfiança acerca da veracidade e dos reais interesses dos envolvidos na questão – da cobertura da imprensa internacional aos questionamentos dos manifestantes.

Inicialmente, a cobertura da imprensa

Como mais um claro exemplo da imensa disparidade entre as particularidades da realidade e a surrealidade exposta midiaticamente como fatos, a imprensa internacional (em sua imensa maioria ocidental), ignora a existência de protestos pacíficos em meio às articulações políticas nos países do oriente médio, expondo exclusivamente os conflitos agressivos e declarando sumariamente que a violência parte da grande maioria da população – em uma homogeneização ofensiva e leviana de um povo de enorme complexidade histórica e cultural – quando, na verdade, as estimativas iniciais apontam que entre 0,001% e 0,007% do 1.5 bilhão de pessoas que integram a população muçulmana mundial participou dos protestos. E não apenas isto. Líderes muçulmanos de diversas origens condenaram o filme e, mais importante ainda, todo e qualquer tipo de violência que pudesse provenir de sua repercussão.

Entre estes, líderes do Hezbollah – facção libanesa de atuação política e paramilitar de preceitos fundamentalistas, islãs e xiitas -, que clamaram, em público por maior tolerância religiosa. A base desta generalização ocidental tem em seu princípio o mesmo mecanismo perverso que gerou a ojeriza do povo muçulmano em relação ao vídeo. Tal qual as cores berrantes com as quais o filme pinta a fé islâmica, como tola e violenta, esta afirmação sumária apenas acirra as tensões dos agentes deste contexto.

Sátira feita pelo portal Gawker da capa alarmista da revista norteamericana Newsweek – Foto: Gawker


Das filmagens as manifestações 

O próprio filme em si também é alvo de questionamentos. Segundo afirmações do elenco, os atores envolvidos nas gravações foram, na verdade, enganados com relação a qual filme estaria sendo gravado. Segundo o elenco, o consenso geral durante as filmagens era de que se estaria gravando cenas para um longa chamado Desert Warriors (Guerreiros do Deserto, em tradução literal), e por conta desta possível enganação, uma das atrizes participantes abriu um processo na justiça contra o diretor do filme. As falas ofensivas à fé islâmica e de desrespeito aos preceitos do alcorão teriam sido, mais tarde, adicionadas pela edição, sobrepondo as falas originais – conforme é aparente no vídeo, devido à má qualidade da dublagem. O perfil do diretor em si também merece suas observações. De início, o vídeo havia sido originalmente postado por um usuário do YouTube que se teria identificado como Sam Bacile – nome de origem norteamericana. Entretanto, descobriu-se, mais tarde, que o verdadeiro escritor, diretor e produtor do filme seria Nakoula Basseley, um cidadão egípcio da ordem cristã dos copta – uma das mais antigas vertentes egípcias da Igreja Cristã, não reconhecida pelas Igrejas Católica e Ortodoxa – que produziu o filme em sua própria casa e com seus próprios recursos financeiros, com apoio da ONG Media for Christ (Mídia para Cristo).

Não é descartável, portanto, a constatação de que exista uma gama de motivações escusas e interesses diversos na confecção deste filme que se mostra, mais e mais, não apenas uma criação inocente pautada pelo humor da mais baixa qualidade mas sim um estopim provocado, um gatilho premeditado e preparado para ser puxado no momento certo, com certos agentes em jogo; uma possível cortina de fumaça para encobrir motivos de ordem mais grave e estrutural no cenário político do oriente médio.

Tal hipótese aparentemente alarmista parece, como nos mais macabros e complexos enredos de ficção conspiratória, se confirmar a partir da análise do perfil pessoal e político de Khaled Abdullah, apresentador de TV que transmitiu o trailer a população muçulmana. Abdullah é, conhecida e abertamente, um simpatizante da ideologia da extrema-direita do salafismo – um movimento reformista islâmico que congrega desde progressistas militando a fim da flexibilização da rigidez religiosa até ultra-fundamentalistas e nacionalistas ferrenhos, como Khaled. É compreensível portanto, que existam motivações escusas por trás da divulgação e transmissão em rede nacional de um vídeo que, conhecidamente, tem causado distúrbios e reações negativas por parte da comunidade muçulmana.

Protestos na embaixada americana em Sanaa, no Iêmen – Foto: Khaled Abdullah/Reuters

Imperialismo e ódio

Esta mesma imprensa generalizante e cega insiste na ideia – replicada até mesmo nas manchetes brasileiras acerca dos conflitos e suas consequências – de que fora este vídeo o causador de toda a revolta. O vídeo em si, inegavelmente, apresenta ofensas gravíssimas que extrapolam o limite do direito de expressão que – não entendamos como censura mas sim como falta de conduta moral – não é absoluto, e deve ser regido por preceitos éticos de comportamento, convivência e respeito. Entretanto e definitivamente não é, isoladamente, como a mídia se mantém a afirmar, este vídeo o principal causador de todas as revoltas.

Não é, e se o é, não deveria ser – de muita complexidade a compreensão de que não é uma simples produção audiovisual de péssimo senso humorístico o motivo por trás destas manifestações e sim o valor simbólico deste vídeo: uma gota de desrespeito derramada sobre uma onda de violência e opressão de um projeto neocolonialista empreendido pela América do Norte – projeto este que se arrasta por décadas, reprimindo apelos humanísticos, pilhando, saqueando e estirpando povos inteiros de seus direitos mais fundamentais enquanto cultura autônoma e soberana e moldando a partir de uma empreitada imperialista o cenário conhecido hoje pelo intermédio deturpado da grande mídia, que institui e depõe ditaduras à bel prazer, promove guerras civis e instaura fronteiras reais, fictícias e culturais inquebrantáveis, cicatrizes a se estender sobre o tecido social e histórico destes povos por séculos à vir.

O vídeo em si, neste contexto pouco ignorável, passa a adotar uma imagem metonímica de todo o conjunto de políticas exteriores adotadas pelos EUA – que, desde a doutrina Bush e a chamada Guerra ao Terror, tem oprimido e definitivamente aterrorizado a região do Oriente Médio. Não se trata, portanto, da tolice leviana de um filme ofensivo mal produzido e sim da pesada carga de completo desrespeito, opressão e violência que este carrega consigo.

De fato, se trata de um vídeo de péssima qualidade feito por um indivíduo engajado e comprometido com o ódio, a ofensa e o desrespeito. Mas é, também, mais importante e além disso, mais um agente e personagem de uma guerra suja e sangrenta, que oprime, assassina, reduz e evidencia um projeto político perverso e perigoso, algo como o roteiro de um filme em que ninguém possa ser chamado de “inocente”.

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