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Por Harumi Visconti

592 quilômetros de congestionamento. Isso é São Paulo: 91 mil ruas e avenidas ocupadas por uma frota de mais de sete milhões de veículos. Em uma cidade que não pára e que movimenta 12,26% do PIB brasileiro, além de receber anualmente cerca de 11,7 milhões de visitantes atraídos pelo maior centro financeiro do País e pelos mais diversos eventos culturais, já beira o absurdo ter de enfrentar o trânsito sempre engarrafado. Esse é um dos maiores desafios que a administração municipal e a população encaram todos os dias.  Gastando em média 2 horas e meia em seus percursos pela cidade, 80% das pessoas reclamam do trânsito na metrópole, considerando-o ruim ou péssimo, segundo a Rede Nossa São Paulo, que reúne mais de 600 organizações civis dispostas a pensar e solucionar os grandes problemas da cidade. O excesso de veículos particulares, somado à escassez de linhas de metrô, à falta de praticidade, conforto e de corredores exclusivos para os ônibus, além das poucas ciclofaixas nas rodovias e o total descaso com os pedestres e cadeirantes, comprometem não só a saúde e sanidade mental da população, como também a produção em São Paulo. Afinal de contas, na lógica capitalista tempo é dinheiro e os constantes atrasos impactam diretamente nos números da economia paulistana.

Em outras cidades de mesma importância que São Paulo, tal como Nova Iorque, por exemplo, essa realidade é completamente diferente. O fotógrafo Bruno Boer Silva pôde comparar vários sistemas de transporte coletivo diferentes ao redor do mundo: Paris e Londres são conhecidas pela eficiência das linhas de metrô e trem e pela pontualidade deles, além da preferência dada aos ciclistas. O metrô de Nova Iorque, apesar de velho e sujo, é extremamente seguro e percorre toda a Big Apple. Luas, uma espécie de metrô em Dublin, tem tarifas acessíveis a todos. Em Roma utiliza-se muito trem e ônibus, já que as ruas da capital italiana são estreitas e as vagas de estacionamento, escassas.

Projetos de mobilidade urbana existem. A Rede Nossa São Paulo é um exemplo de que planos e ideias para resolver a questão do trânsito paulistano estão em discussão. Entretanto, as propostas raramente saem do papel. Numa cidade como São Paulo, faz-se necessário uma rede de transportes à altura de sua importância econômica, política e cultural, e que consiga locomover os quase 12 milhões de paulistanos, além daqueles que cruzam a cidade diariamente. Se São Paulo é a maior cidade brasileira e o Brasil está na mira dos grandes investidores, recursos aqui não faltam. Mas esse perfil ainda é incapaz de gerar um sistema eficiente de transporte público. Além disso, a força dos lobbies das indústrias automobilística e petrolífera acabam ajudando na manutenção do estresse dos paulistanos – o trânsito – com mais de mil carros licenciados diariamente na capital, segundo dados do Instituto Nacional de Análise Integrada do Risco Ambiental (Inaira) – um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) financiados pela FAPESP e pelo CNPq no Estado de São Paulo.

O ex-secretário de Transportes do Estado de São Paulo, Adriano Murgel Branco, confirma a pressão das montadoras. No seminário Transporte Coletivo: Sustentabilidade, Mobilidade e Saúde, que aconteceu em junho deste ano em São Bernardo do Campo, Murgel declarou que “o lobby a favor do carro é poderosíssimo, embora pouco visível”.

Thiago Guimarães, pesquisador e professor da Universidade Técnica de Hamburgo, na Alemanha, na área de mobilidade urbana, aponta ainda que a força do setor imobiliário é também responsável pela inoperância das prefeituras na questão do transporte coletivo. “Há uma inércia das prefeituras no Brasil. Nas cidades pequenas, além do salário pouco atrativo para profissionais da área, faltam também recursos financeiros e informacionais”.  Para ele, falta às autoridades locais mais informações e referências no assunto. Os interesses imobiliários exercem uma grande pressão em cima dos governos para que se flexibilize as leis de zoneamento e permita o agrupamento de pessoas e negócios em áreas que comprometem a eficiência e o planejamento do transporte coletivo. “Ao atuar com extrema parcialidade em prol desses poderosos lobbies e contra o interesse da coletividade, o poder público é, no Brasil, o principal responsável pelos problemas de mobilidade vivenciados cotidianamente pelos cidadãos.”, afirma Guimarães.

Já no âmbito federal, Guimarães afirma que a força do lobby da indústria automobilística somado às políticas públicas que se rendem a ela, tal como a redução do IPI, só pioram o cenário de (i)mobilidade no País. Além disso, a influência do setor petrolífero também influencia nessa questão, já que para esse setor o aumento da frota de carros e ônibus é extremamente favorável.

Carros, carros e mais carros

Alimentados pela falsa ideia de satisfação trazida pelo automóvel, propagada pelas campanhas publicitárias das empresas automobilísticas ao redor do mundo e pela indústria cultural – novelas, filmes, programas de entretenimento – muitos paulistanos não conseguem e nem querem abrir mão de seus carros particulares. “Vende-se uma cultura orientada pelo modo de vida de uma elite”, diz Guimarães.

Segundo a última pesquisa feita pelo Detran, em julho de 2012, a frota de carros particulares em São Paulo atingiu a marca de 5 milhões. As recentes medidas de incentivo para se aumentar o consumo no país, tal como a já citada diminuição do IPI, ajudaram para que se atingisse marca. Além disso, a ineficiência do transporte público na cidade – e no País – desestimulam o paulistano a deixar o carro em casa para aguentar horas em pé no ônibus, no metrô ou no trem, alternativas que atingiram seus limites operacionais apresentando falhas em seus fluxos que também contribuem com o caos urbano.

Mesmo assim, para o pesquisador Adalberto Maluf Filho, também presente no seminário sobre mobilidade urbana, “não existe solução urbana com o transporte individual, mas mesmo assim os governantes continuam a oferecer subsídios para os combustíveis”. Além da questão do congestionamento, a saúde dos paulistanos também é prejudicada pelo excesso de veículos que circulam pela cidade. A poluição emitida pelos carros é responsável pela má qualidade do ar em São Paulo, a principal causa de problemas respiratórios. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo, quatro mil mortes por ano são causadas pelas complicações trazidas pela poluição da fumaça dos automóveis.

Bogotá, capital da Colômbia, recebeu pesados investimentos na área de transporte público sob o governo de Enrique Peñalosa. Em visita ao Brasil, o ex-prefeito sugeriu várias propostas para melhorar o trânsito. Ao passar por São Paulo, Peñalosa disse que a cidade precisa tirar os carros das ruas para dar espaço a ciclovias e aos pedestres, seja com pedágio urbano ou gasolina mais cara, e vê a solução nos corredores de ônibus. Maluf Filho também apoia essa ideia. Para o pesquisador, o tempo de implantação é curto em comparação à do metrô. Para o colombiano, “cidade avançada não é aquela onde os pobres andam de carro, mas onde os ricos andam de transporte público”. No Brasil, e em especial em São Paulo, essa lógica é invertida. A charge abaixo mostra exatamente esse pensamento sustentado pelo fetiche por automóveis, tão disseminado pelos anúncios publicitários.

Enquanto não houver uma campanha de desincentivo do uso do automóvel e projetos eficientes na área de mobilidade urbana, São Paulo ainda vai viver estrangulada pelos congestionamentos. Para Thiago Guimarães, cabe ao Estado planejar e efetivar as políticas de mobilidade e não mais se dobrar aos interesses das indústrias automobilística e  petrolífera e do setor imobiliário. “O Estado não promove a cidadania. Os direitos de ir e vir do cidadão são literalmente jogados no lixo quando o poder público se rende a esses interesses. Além disso, as cidades precisam parar de serem projetadas somente para os carros. Já percebeu que aqueles que usam o transporte público vão ou por cima, por meio das passarelas e monotrilhos, ou embaixo, nos metrôs? A superfície é única e exclusiva para os veículos automotores”, afirma.

Enquanto o paulistano — enclausurado em seu veículo e imerso em sua zona de conforto  — não tiver contato e noção do que é o transporte coletivo em São Paulo,  e eleger aqueles que de fato levam a questão da mobilidade urbana a sério, o cenário caótico que a cidade enfrenta hoje custará a  melhorar. O problema do trânsito afeta a todos e prejudica a muitos, independentemente de classe social, e precisa urgentemente ser solucionado. E uma alternativa está na fala do ex-prefeito da capital colombiana: “cidade avançada não é aquela onde os pobres andam de carro, mas onde os ricos andam de transporte público”.

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