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Por Renata Baboni

A busca pelo corpo ideal é hoje um imperativo que afeta homens e mulheres. Não é raro que esse anseio do sujeito em se transformar em algo que não seja ele mesmo ultrapasse o limite do saudável e gere transtornos patológicos como a depressão, a síndrome do pânico e outras doenças psicossomáticas.

A mídia ocupa um papel importante nessa persuasão sobre a ditadura da beleza através da mediação de corpos esculturais padronizados, o que influencia grande parte das pessoas a desejá-los e a buscá-los. A antropóloga Mirela Berger evidenciou em sua tese que a comunicação é um dos pilares do atual culto ao corpo e é aliada à “utopia do corpo perfeito”. A grande mídia, de modo recorrente, explora um ideal de beleza que não corresponde à realidade da maioria do público que ela atinge. Assim, para conseguir um corpo que se adeque ao padrão social de beleza atual o sujeito é levado a consumir uma série de serviços e produtos. Essa condição caracteriza a chamada indústria da beleza. Nela, o próprio corpo torna-se objeto de consumo dentro de um processo de coisificação, ou seja, o corpo é tratado como uma coisa a ser moldada e transformada de modo a obedecer aos padrões estéticos da sociedade.

Esse estímulo de padrões estéticos estereotipados provocados pelos meios de comunicação leva os seus adeptos a constantemente aprimorarem suas aparências físicas a qualquer preço, tentando entrar nos moldes socialmente aceitos de beleza. Pessoas de diversas idades, em especial jovens e mulheres adultas, estão mais preocupadas em atingirem padrões de beleza do que em cuidar da própria saúde. Parece ser difícil compreender que o corpo ideal será sempre inalcançável, justamente por se tratar de uma imagem corporal ideal (utopia) e não necessariamente da real. Com isso a experiência sensível provocada pela mídia oferece ao mundo um corpo que não é o que siginificamos nesse mundo (bonito, saudável).

 É nesse contexto que a publicidade consolida uma lógica de mercado como transmissora desses corpos invejáveis e pouco representativos da realidade cultural brasileira, além de desconsiderar a humanidade do homem. Por outro lado, a mesma mídia que condena os corpos ao espírito capitalista e a um corpo anestesiado, mediado por tecnologias e que tenha o desejo de se anular diante do poder do outro, professa o surgimento de um novo corpus midiático baseado em novos padrões estéticos e de consumo, que cada vez mais abre espaço para os corpos e atitudes alternativas ao ideal de beleza vigente e dominante.

Mas algumas revistas, como a alemã Brigitte, já aboliram o uso do programa de tratamento e edição de imagens, Photoshop, justificando-se com a seguinte frase: “não à extrema magreza, sim aos corpos reais”. Muitos fotógrafos também se pautam nessa contra-hegemonia. É o caso do projeto nomeado ‘The Scar Project’, do fotógrafo David Jay, que promoveu um ensaio de mulheres sobreviventes ao câncer de mama, jamais repercutido tão abertamente no cenário midiático mundial. No cinema, por exemplo, alguns filmes retratam a instigante relação do indivíduo com o seu corpo real, dotado de limitações e desafios, como é o caso do documentário ‘Desenho do Corpo’, de Cristiane Arenas, que aborda a velhice de maneira surpreendente.

A mídia promove um espetáculo do culto ao corpo e, com isso, auxilia na imposição de um modelo de funcionamento do corpo que nos dita como deve ser o corpo saudável, belo, o exercício que devemos fazer e a comida que devemos comer. Há um esvaziamento diante daquilo que realmente se deve fazer para ser alguém que tenha um lugar de visibilidade na sociedade.

Para que a cobertura midiática seja saudável, antes de tudo, deve-se respeitar o corpo, nos dois sentidos do termo: o corpo simbólico-midiático e o corpo físico-real, além de seus limites e de suas multiplicidades. Há espaço na mídia para o corpo real, que é dotado de infinitas possibilidades e valorizado pelos seus próprios sentidos. O corpo não é uma máquina, ele é a nossa possibilidade de desenvolver a experiência humana. Não é preciso repetir modelos, se ajustar em um olhar, mas sim, constituir a nossa existência a partir do que nos realiza e intensifica, a fim de perceber e contrariar a disciplinaridade que nos é imposta. É necessário enxergar novos horizontes por meio de experiências sensíveis e buscar, preferencialmente, o cuidar de si.

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