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Por José Renato Simão

Palcos modernos, cenários coloridos, programas de auditório. Se antes estes ambientes não condiziam com o trabalho de um jornalista, hoje, está se tornando cada vez mais comum encontrá-los neles, ainda que para esses profissionais esses formatos quase sempre comprometem a credibilidade jornalística junto ao público.

Fátima Bernardes, jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), é o mais recente exemplo dessa nova tendência. Fátima foi âncora do telejornal mais importante do País, o Jornal Nacional(JN) da Rede Globo, por quase 14 anos. Entretanto, em dezembro de 2011, anunciou que deixaria o telejornal para, segundo ela, realizar um sonho: ter um programa próprio. Entre outras coisas, Bernardes, na sua despedida do jornal, afirmou que esse projeto só era possível devido a sua credibilidade perante aos telespectadores: “Eu tenho certeza, eu tenho muita confiança de que esse projeto foi aprovado principalmente porque o telespectador tem um respeito muito grande pelo trabalho que eu venho desempenhando. Porque se não fosse isso, mesmo com o projeto maravilhoso, eu tenho certeza de que ele não seria aprovado”. Agora, em uma nova função, a ex-âncora do JN, é apresentadora do programa matinal “Encontro com Fátima Bernardes”, no qual, geralmente discute temas cotidianos com convidados e plateia, buscando misturar jornalismo com entretenimento.

Porém, é justamente essa confusão entre Jornalismo e entretenimento que pode se tornar problemática. Não raro, a atividade é considerada o quarto-poder da sociedade, juntamente com o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Isso ocorre pois muitas vezes o Jornalismo se comporta como os olhos da população demonstrando verdades ocultas, denunciando irregularidades, propondo mudanças. Em consequência disso,  espera-se dos jornalistas, um comportamento social, um compromisso com a verdade. Entretanto, quando um jornalista passa a exercer uma função externa ao campo de sua formação, não lhe podem ser cobrados esses comportamentos já que, o comprometimento com a verdade e a maneira como os temas são conduzidos nesses programas, não ocorrem de modo semelhante a um jornal. Portanto, quando uma rede utiliza um jornalista para transmitir credibilidade a um programa não jornalístico, além de estar misturar conceitos, ela está ludibriando o telespectador.

Bial como apresentador do Big Brother.

Pedro como repórter,

Um outro jornalista que ilustra essa mudança de área por parte dos profissionais da comunicação é Pedro Bial. Formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Bial foi correspondente internacional da Rede Globo de Televisão na década de 1990. Nesse período, cobriu diversos eventos importantes como a queda do muro de Berlim e a Guerra do Golfo.

Em 2002, entretanto, passou a apresentar o reality show “Big Brother Brasil”, o que faz até hoje. Além disso, recentemente, tornou-se apresentador do novo programa “Na Moral” da Globo. O formato do programa é bastante simples e de certa maneira semelhante ao de Fátima: discutir temas do cotidiano com convidados e com a plateia. Mas, diferentemente do que fazia quando jornalista, Bial não aprofunda a discussão dos temas, apenas aborda rasamente múltiplos assuntos em um curto tempo de 30 minutos. Esse tipo de comportamento denigre a imagem de Bial como jornalista, já que, alguém que desconheça seu passado pode classificá-lo, baseado em seu desempenho no programa, como medíocre. Além disso, mais uma vez, busca-se transparecer credibilidade ao telespectador por meio de uma figura respeitada, conhecida no jornalismo.

Citado, por Bial, Fausto Silva, apesar de formado em direito pela USP, é mais um que largou o Jornalismo para se tornar apresentador. Faustão, como é conhecido pelo público, foi durante muito tempo repórter, chegando inclusive a trabalhar para o jornal “O Estado de São Paulo” como repórter esportivo. Entretanto, com o passar do tempo, foi assumindo o papel de apresentador em diversos programas, entre eles, o sucesso, “Perdidos na Noite”. Porém, foi em março de 1989 que Fausto atingiu seu auge como apresentador ao estrear na Globo o programa de auditório que apresenta até hoje, o “Domingão do Faustão”.

Após quase 20 anos apresentando o mesmo programa, Faustão demonstra ter esquecido boa parte do seu passado como jornalista. Como não é a proposta do programa, O “Domingão”, pouco tem de informação jornalística relevante, e Fausto, evidentemente, se comporta mais como um “caçador de audiência”, animador de público do que como um jornalista. Um outro caso curioso é o de José Luiz Datena. Apesar de ser constantemente contestado, em consequência de seu comportamento sensacionalista, Datena, já ganhou dois prêmios Vladimir Herzog como jornalista. Um desses prêmios lhe foi dado graças a uma reportagem sobre um lixão de Ribeirão Preto, sua cidade natal, feita por ele para a TV Ribeirão, atual, EPTV, Ribeirão Preto.
Hoje, Datena comanda dois programas na Rede Bandeirantes de Televisão. O primeiro deles, e mais antigo, é o “Brasil Urgente”. Nele, o jornalista mostra para os telespectadores notícias e fatos relacionados ao mundo policial, à violência. Ainda que seja considerado por muitos, um jornalismo de baixa qualidade, sensacionalista, o programa apresenta alguns traços que podem o classificar como relacionado ao campo do jornalismo. Já, o segundo, o programa “Quem fica em pé?”, é um programa de puro entretenimento, “estilo Silvio Santos”. Nesse formato, os participantes, comandados por Datena, testam seus conhecimentos em busca de prêmios em dinheiro.

Baseado, nesse ultimo exemplo de Datena, pode-se retomar uma velha dificuldade do Jornalismo: até que ponto os patrocinadores, as empresas, influenciam na divulgação das notícias para o público? Assim como a maioria dos programas televisivos e dos jornais, o programa de entretenimento de Datena depende do patrocínio de empresas para sobreviver. Entretanto, como o jornalista comanda dois programas ao mesmo tempo, essa dificuldade é redobrada já que ele pode ter que conciliar o interesse de seus diferentes patrocinadores nos dois programas. Dessa maneira, muitas matérias do “Brasil Urgente” podem ir contra os interesses dos anunciantes do “Quem fica em pé?” . Nesse caso, existem duas soluções: privar o público do acesso a informação, cortando a matéria ou desagradar o anunciante e correr o risco de perder dinheiro. Portanto, se os anunciantes já eram, muitas vezes, um empecilho para o Jornalismo, o acúmulo de funções por parte do jornalista que trabalha em outros campos, pode agravar ainda mais esse problema.

Perda de Credibilidade

Outro problema que esse novo tipo de comportamento dos jornalistas pode acentuar é o da perda de credibilidade do Jornalismo. Escândalos relacionados a jornalistas, matérias posteriormente desmentidas, denúncias de reportagens pagas, contribuíram altamente para a perda de boa parte da credibilidade jornalística. Entretanto, esse fluxo de jornalistas para o campo do entretenimento pode piorar consideravelmente essa queda. De acordo com o Ibope Inteligência, a mídia foi a instituição brasileira que apresentou maior queda no Índice de Confiança Social (ICS). Dos 71% que tinha em 2009, restaram apenas 55% em 2011, uma queda de 16 pontos, ficando atrás somente do Sistema Público de Saúde e das escolas públicas.

Esses números porém, podem ficar mais críticos. Ao se relacionar Jornalismo com entretenimento, associa-se a figura do jornalista com a de apresentador, animador. Com isso, excluem-se os conceitos de comprometimento com a verdade, busca pela objetividade e função social. O jornalista passa a ser somente mais um artista da televisão. Em consequência disso, a credibilidade da informação transmitida pelos jornalistas decai frente ao público, levando a atividade profissional, como um todo, para o buraco do desprestígio. Deve-se, portanto, dissociar o jornalismo do entretenimento, o jornalista do apresentador, demonstrando que os jornalistas apresentadores, deixaram de ser jornalistas no momento em que mudaram de cargo e que portanto, suas atitudes não correspondem com a pratica jornalística.

Futuros Jornalistas

Essa migração dos jornalistas para o entretenimento tem alterado, inclusive, a busca pelos cursos de Jornalismo nas universidades. Nos últimos anos foi um dos cursos mais procurados nos vestibulares. Na Fuvest, por exemplo, foi o sexto colocado em 2011 e em 2012, apresentando um aumento no número de inscritos já que a concorrência passou de 34,62 candidatos por vaga de 2011 para 39,78 em 2012. Em consequência disso, não é raro encontrar estudantes que busquem exercer outras profissões que, não exatamente, a de jornalista. Aspirantes a atores e atrizes, futuros apresentadores de televisão são vistos em número cada vez maior no curso. Esse fator revela que a imagem do Jornalismo já pode estar afetada, pois, muitos, baseados nas experiências de outros jornalistas, o consideram porta de entrada para outras áreas, para o mundo da televisão. Com isso, a procura pelo curso se tornou maior por parte daqueles que sonham ter seus próprios programas e se tornarem famosos.

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