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Por Mariel Rechulski

   Elas estão em baladas, universidades, restaurantes e eventos fechados, mas o que você não imagina é que algumas dessas mulheres bonitas e bem vestidas estão na verdade sendo pagas para acompanhar os homens com quem circulam. As chamadas acompanhantes de luxo são garotas de programa que chegam a cobrar em torno de R$ 400,00 reais por uma hora e meia, e até R$10 mil para ir em eventos e passar a noite com o cliente. Porém, mais do que a necessidade de estarem bonitas, elas precisam ser educadas e simpáticas. Na maioria das vezes não podem usar roupas vulgares, pois os clientes não querem que fique evidente a contratação. Elas não são pagas somente para fazer sexo, e sim para, como o nome já evidencia, fazer também companhia.

  Jéssica tem 22 anos, e atua há dois no ramo. Ela conta que entrou por meio de uma amiga que agenciava programas, e arranjou alguns encontros para ela. “No começo eu fazia faculdade de manhã, e achei que seria uma boa oportunidade de ganhar um dinheiro extra pra ajudar a pagar a mensalidade, mas quando vi estava tão sem tempo e envolvida com os programas e a renda alta que obtive que larguei a faculdade para me dedicar exclusivamente a eles. É um mercado extremamente lucrativo.” conta.  Desde então, Jéssica vem atendendo em um flat que alugou em uma área nobre de São Paulo e mantém exclusivamente para isso. Além dos cuidados básicos que ela precisa disponibilizar, como preservativos, lençóis e toalhas limpas, ela ainda deixa à disposição um frigobar com bebidas e um quarto com ar condicionado e som ambiente. A profissão também exige cuidados pessoais: Jéssica conta que vai três vezes por semana à academia e precisa manter uma alimentação saudável, além de frequentar o cabeleireiro a cada quinze dias. Além dos gastos pessoais com a aparência, ela precisa sempre comprar roupas novas para os eventos que frequenta. O dinheiro acumulado foi investido principalmente no corpo: há um ano, gastou R$ 8 mil em uma cirurgia para implante de silicone, e diz que quando tiver um tempo extra, pretende fazer outras plásticas. De tempos em tempos ela também investe em drenagem linfática, bronzeamento artificial e clareamento dental. “Essa profissão requer muitos cuidados, mas eu estou muito satisfeita com o que faço, é bom se sentir desejada, unir o útil ao agradável. Além disso, eu posso marcar meus próprios horários e organizar a agenda da forma que quero. Mas não é uma profissão que levarei por muito tempo, tudo tem início, meio e fim. Assim que alcançar alguns objetivos, tiro meu time de campo, ainda pretendo terminar a minha faculdade e atuar em outra área.” diz.

    A prostituição é o terceiro comércio mais rentável do mundo, atrás apenas do de armas e narcotráfico. De acordo com a legislação brasileira, a prostituição não é crime, mas induzir, atrair, facilitar ou manter alguém nesta condição, ou seja, o favorecimento à prostituição e utilizar esse expediente para obter lucro é um ato criminoso. Em abril desse ano, a Comissão do Senado propôs uma reforma no Código Penal para colocar fim às punições aos donos de prostíbulos e regulamentar as casas de prostituição no País. A proposta, elaborada por especialistas em direito, quer acabar com o chamado “cinismo” moral da atual legislação, já que a proibição só estaria servindo para que policiais possam extorquir donos desse tipo de estabelecimento. Pela proposta, para trabalharem deverão ter mais de 18 anos e estar no prostíbulo por vontade própria.

  Pela legislação em vigor, quem mantém casas de prostituição está sujeito a pena de reclusão de 2 a 5 anos e multas. A mudança serviria para abrir caminho à regulamentação da profissão. Isso porque seria possível estabelecer vínculos trabalhistas, como já ocorre em países como Alemanha e Holanda. “É uma reinvindicação histórica do movimento de prostitutas”, afirmou Roberto Domingues, presidente da ONG Davida e assessor jurídico da Rede Brasileira de Prostitutas.

  Isso também seria útil para tentar diminuir e penalizar os casos de prostituição jovem. Hoje, segundo o relator da comissão, praticamente não existe punição para quem faz sexo com uma prostituta adolescente com mais de 14 anos. A nova proposta contempla penas mais duras para quem explorar a prostituição de crianças e ou de adolescentes, estabelecendo de 4 para 10 anos de reclusão. A pena atinge quem praticar o ato e ao dono do estabelecimento.

  Mas a prostituição não é só praticada por mulheres, ao contrário, o número de garotos de programa vem aumentando a cada ano. Os chamados gigolôs ou michês, decidem permanecer nesse setor por dinheiro. Segundo pesquisas, ao contrário das mulheres, que muitas vezes entram nesse ramo enganadas ou pressionadas por máfias, os homens sabem o que estão fazendo e exercem por vontade própria.

  Porém, o homem tem mais dificuldade do que a mulher para a venda do sexo, pois, para conseguir manter uma relação onde funcione como penetrante, tem obrigatoriamente que estar e manter um certo grau de excitação para conseguir obter ou manter uma ereção..

 Quando ouvimos falar de homens profissionais do sexo, podemos até pensar que as mulheres estão ousando mais e copiando o modelo masculino de explorar a sexualidade fora do contexto doméstico, mas essa ideia não representa a realidade atual. É conhecido o fato de que a clientela desses garotos de programa é quase que em sua maioria de homens, homo ou bissexuais, que buscam prazer e diversão com o sexo pago. Sabemos também que a sociedade tem um comportamento muitas vezes cruel, repleto de preconceito e discriminação com relação às pessoas com orientação homossexual ou com pessoas que manifestem sua bissexualidade, então muitas eles buscam ter com esses profissionais alguém para realizar a oportunidade de extravasar desejos e fantasias.

 Há também na prostituição masculina, o travestismo, que na linguagem usual dos estudiosos do comportamento humano, é um desvio sexual que consiste na obtenção de prazer pelo uso de vestimentas características do outro sexo. Mas ao contrário do que muitos acham, esse comportamento não é praticado somente por homossexuais, podendo incidir também entre heterossexuais que, diferenciando-se da média da população masculina, se excitam em vestir sutiãs e calcinhas. O mesmo também pode ocorrer com mulheres portadoras de travestismo, que podem ser heterossexuais, mas se excitam em vestir cuecas, chapéus ou paletós .

  Acima de tudo, é preciso tomar cuidado com as DSTs. No caso do vírus do HIV, a taxa de contágio é 25 vezes maior entre homens. A prostituição masculina é definida pelas autoridades como “invisível” porque usa métodos mais discretos se comparados com os das mulheres. Somente 1% coloca anúncios nos jornais e 9% estão nas ruas. A maioria busca clientes de outras formas, como por meio da internet e trabalhando em prostíbulos.

  Diferentemente dos clientes que pagam por um programa mais barato, os clientes de luxo têm um perfil diferente. Gostam de ser discretos, tem boa formação cultural e fazem viagens a negócios com frequência. Jaqueline divulga seu trabalho e fotos em um blog na Internet e cobra R$400,00 a hora. Quando questionada sobre os clientes, ela diz: “Os meus em geral são pessoas simpáticas, alegres, educadas e até muito carinhosos, alguns sempre ao me visitar trazem presentes e mimos. Geralmente eles são casados, mas estão cansados do cotidiano com a esposa, e se sentem bem saindo com uma mulher bonita, mesmo que estejam pagando pra isso. Ela conta que já atendeu em diversos locais como no ambiente de trabalho de um cliente, e teve de ser muito discreta para que não percebessem que ela era uma acompanhante. Ela diz que nem tudo se resume a sexo, que já saiu com clientes para fazer compras ou apenas jantar, e conta o caso de um que já pagou diversas vezes um programa com ela apenas para conversar e desabafar.  Quando questionada sobre o que ela acha que os clientes procuram em uma acompanhante, ela diz:  “tem alguns que são inexperientes e se sentem à vontade comigo, não sentem a mesma pressão que fazer sexo com uma mulher com quem estão saindo, por exemplo. Mas 99,9% dos que atendo são casados”, conta. Muitas esposas depois de entrar na rotina, deixam de ter relações com seus parceiros ou fazendo sempre as mesmas coisas. Os homens, “além de me procurar para uma relação mais envolvente, gostam de realizar fantasias das quais se sentem inibidos de praticar com suas mulheres. Eles gostam de um sexo mais liberal, sem responsabilidade ou a necessidade de agradar”, afirma. Além disso, os motivos também envolvem questões estéticas. “As esposas deixam de se cuidar, relaxam na alimentação e não se importam com o corpo, muitas não vão ao salão se tratar, deixam de usar uma lingerie mais provocante, e assim acabam entrando na mesmice e assim eles vem me procurar”, diz.

  A prostituição se apresenta ainda hoje, como uma alternativa momentânea à quebra da disciplina. É o território do prazer ilegítimo na vida cotidiana, onde muitos podem revelar seus anseios e fantasias sexuais sem que corram o risco de terem as identidades sociais comprometidas, retornando “íntegros” ao lar, à família, e ao trabalho.

  Hoje em dia, há uma variedade muito grande de material adulto à disposição na Internet, além dos diversos sites com vídeos e conteúdo pornográfico que circulam pela rede, é um meio muito fácil de encontrar e contratar uma acompanhante. Alguns sites mostram uma quantidade imensa de fotos de mulheres à disposição como se fossem produtos, com os temas: sugestões, destaques da semana, entre outros termos machistas. Para se destacarem, elas precisam colocar fotos chamativas em que aparecem semi ou completamente nuas e mostrar possuir mais do que um físico atraente. Algumas postam em seus blogs, além de fotos, detalhes dos programas que fazem com seus clientes diariamente, além de contarem sobre o seu dia-a-dia. “Como a quantidade de mulheres de programa à disposição na web é grande, é preciso se destacar mostrando ser simpática, inteligente e ter conteúdo”, aponta Jéssica.

O mercado em ascensão do prazer virtual

  Mas por trás de tudo isso, há um lado muito negativo e perigoso. Os riscos que elas correm diariamente e a chance de contraírem uma doença ou engravidar é muito grande, por mais que se protejam. Jaqueline conta que já passou por diversas situações de perigo. “No começo eu marcava programa com os clientes pelo telefone, mas não selecionava nem tinha como identificá-los na porta. Uma vez, veio um homem que disse se chamar Paulo, e apesar de eu deixar claro no meu site que não fazia sexo sem camisinha, ele me forçou, e quando eu neguei, ele me bateu e estuprou. No final, ele fugiu sem pagar, e o único dado dele que eu possuía era o telefone, que só dava caixa postal, e um endereço, que mais tarde descobri ser falso. Demorei muitos meses pra superar e poder falar disso, e parei por um tempo de fazer programas, mas foi temporário, nem por isso desisti. Preciso me sustentar e esse é o único modo que sei. Agora pego o dinheiro na entrada e peço para eles pedirem o RG e os dados do cliente na portaria.”

  Quando questionada sobre as doenças sexualmente transmissíveis, Jaqueline conta:  “Tenho amigas que já pegaram DSTs e AIDS, algumas pelo sexo oral sem preservativo. Lembro de um caso de uma menina que pegou sífilis na garganta e depois de fazer sexo oral no cliente sem camisinha, passou para ele, que depois passou para a esposa. Ele queria processá-la, mas já não tinha mais o que fazer. Acontece com frequência de alguma conhecida pegar doenças, mas na maioria dos casos são coisas que possuem tratamento. O certo na nossa profissão é fazer exames periodicamente, e ela vacilou.” Apesar de tudo isso, Jaqueline diz que continua fazendo sexo oral sem preservativo. “É o que os clientes gostam, se não fizer assim eles reclamam, perco dinheiro. E dinheiro nessa profissão é tudo.” acrescenta.

  Independentemente dos motivos que levam alguém a exercer essa profissão ou dos homens que buscam seus serviços, é necessário questionar-se até onde vão os limites e o respeito à mulher em uma sociedade que valoriza cada vez mais o capital, lucro e o consumo, que apesar de lutar diariamente pelos direitos igualitários femininos, se mantém impassível diante da exposição de mulheres nuas como produtos em vitrines e que dá cada vez mais prioridade ao prazer e menos à saúde. Enfim, é necessário questionar os valores vigentes, pois como cita Roberto Shinyashiki, “o questionamento é o primeiro passo para nos abrirmos para o novo”.

Um pensamento em “Garotas (d)e programas

  1. Essa matéria aborda um assunto muito atual e está muito bem escrita com uma pesquisa exemplar! Parabéns Mari

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