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Por Bruna Bravo e Natacha Mazzaro

Final do terceiro ano do ensino médio e os possíveis anos de cursinho seguintes podem enlouquecer qualquer um. Enfrentar o vestibular e escolher uma profissão são decisões que trilham parte da história da sua vida. Há os que querem fazer dois cursos, alguns não passam em nenhum, e existem ainda aqueles que desistem no meio do caminho. As dúvidas não acabam e a insegurança também não. A concorrência para entrar em um curso de ensino superior está cada vez maior, assim como a pressão pré-vestibular dos candidatos, que pode, inclusive, causar problemas à saúde. Mas a concorrência não para por aí. Após terminar o curso superior, iniciam-se outros desafios: entrar no mercado de trabalho. Hoje, a disputa por uma vaga em um emprego tornou-se uma maratona competitiva. A concorrência para a seleção envolve pessoas que têm mais de uma graduação no currículo, falam fluentemente quatro línguas, realizam diversos cursos técnicos, têm especializações, participam de projetos de responsabilidade social, ou ainda estrangeiros recém-formados que, sem perspectivas em seus países, decidem imigrar para exercer suas profissões. É essa condição de pressão antes e depois do vestibular que age sobre os estudantes do ensino médio, vestibulandos e recém-formados.

 Uni duni tê?

A primeira etapa é escolher a profissão e isso não é tarefa fácil para a maioria dos jovens que estão prestando vestibular. Ao iniciar o segundo semestre, grande parte dos alunos se inscrevem para o ENEM e os mais importantes vestibulares do Brasil, e é no momento de colocar a carreira desejada que a indecisão vêm à tona. A incerteza e o questionamento são naturais e saudáveis à escolha. O importante é se informar ao máximo sobre o curso em questão. Afinal, não deve ser algo que se decida de um dia para o outro.

Maria da Conceição Uvaldo é Mestre e doutora pela USP, psicóloga do Serviço de Orientação Profissional da USP, coordenadora do curso de especialização em Orientação Profissional e de carreira do Instituto Sedes Sapientae e do Laboratório de Pesquisas sobre o Trabalho e Orientação Profissional da USP e atual Presidente da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP). Ela acredita que “a questão da escolha profissional faz parte do próprio desenvolvimento de um indivíduo em nossa sociedade. Assim, se perguntarmos a uma criança de três anos o que ela vai ser quando crescer, sempre terá uma resposta: motorista de ônibus, jogador de futebol, entregador de gás, ajudante da mãe ou do pai… Desta forma, é muito simplório achar que a escolha deve ocorrer ao final do ensino médio”. Ou seja, é um processo que se dá ao longo da vida de todos, inconscientemente, durante a convivência com a sociedade, com influências culturais, familiares e circunstâncias educacionais, já que “o trabalho faz parte da vida, e da vida em todos os momentos”, completa.

Os estudantes das novas gerações sofrem ainda mais com a escolha da carreira e as dúvidas que surgem em seu entorno. Afinal, atualmente, são mais de 150 cursos disponíveis que se transformam e acompanham as mudanças da sociedade. Apesar de medicina, direito e engenharia continuarem sendo os mais tradicionais e os mais procurados, as “profissões do futuro” estão ganhando destaque. As principais são aquelas que lidam com tecnologias, com petróleo e indústrias, como, por exemplo, analistas de sistemas computacionais, engenheiro do petróleo e técnicos em manipulação farmacêutica. São cursos cada vez mais variados e específicos para as novas necessidades que vão surgindo na sociedade contemporânea. Por conta das adequações ao mundo atual, é sempre necessário buscar saber mais sobre os cursos, especialmente os que recém-criados, que ainda são desconhecidos pelos jovens. O que contribui para “uma postura ativa no processo de escolha”, que deve ser mantida pelo vestibulando de acordo com Conceição.

Escolher a profissão não é uma tarefa tão simples assim. O estudante precisa conhecer a si mesmo, sua personalidade, suas qualidades e defeitos e seus interesses. “O aluno em dúvida deve buscar utilizar todos os seus recursos para ter a maior quantidade de informações que puder sobre as áreas que forem parecendo interessantes. Sempre que necessário buscar discutir suas ideias e se não conseguir achar algo que realmente lhe faça sentido, procurar um orientador profissional”, diz Conceição. Para isso pode recorrer a pessoas mais próximas, como familiares e amigos. E depois é necessário procurar saber sobre as profissões, pesquisar, conversar com pessoas que trabalham na área, procurar saber como é o curso, a duração, quais são as disciplinas, conteúdos, práticas exigidas. Para isso o estudante pode assistir palestras e participar de “Feiras de Profissões”, que podem ser úteis para esclarecer algumas dúvidas. Além de buscar saber sobre o mercado de trabalho, o estado da profissão hoje, se é uma profissão estável ou se está se expandindo, salário médio, requisitos mínimos para conseguir um emprego e tirar quaisquer outras dúvidas. Só assim será possível ficar menos incerto e inseguro ao ter que confirmar a inscrição em um vestibular.

Ainda assim, tem também aqueles que optam por fazer dois cursos simultaneamente. Os motivos variam. Indecisão? Interesse em unir duas áreas? Demanda de mercado? A pergunta é se qualquer um desses motivos vale o esforço. Carolina Lima, formada em Relações Internacionais (RI) pela PUC-SP e estudante de letras na USP, já passou também pelo curso de Economia da USP enquanto fazia RI. “Eu resolvi fazer os dois cursos porque eu achava que faltavam coisas de um no outro e coisas do outro no um”, diz ela. Mas admite, “fazer dois cursos ao mesmo tempo é muito complicado; não dá para se dedicar inteiramente a nenhum dos dois e você acaba ficando com a sensação de que não tá aprendendo nada”. Por essa dificuldade de conciliar os cursos, Conceição diz que, em geral, um deles é abandonado, como foi o caso de Economia para Carolina.

A desistência também é algo comum nesse período de busca de identidade pessoal e profissional do jovem. Estudos apontam que mais de dois milhões ingressam no ensino superior por ano, porém menos da metade consegue concluir o curso. “As pesquisas sobre evasão apontam que a desistência ocorre por falta de reflexão sobre a escolha e, portanto desconhecimento do curso, da profissão, da faculdade”, diz Conceição, reafirmando a necessidade de se informar, tirar dúvidas e se interar sobre o curso escolhido. Assim como a escolha do curso, a decisão de largá-lo também deve ser tomada com cuidado. Demorou para Carolina perceber que não era Economia o que queria; “eu desisti quando percebi que não queria trabalhar com isso. Mas não foi uma decisão fácil, de um dia para o outro. Na minha cabeça, tinha jogado dois anos no lixo”, lamenta.

 Sob pressão

Selecionado o curso, é às vésperas dos vestibulares que os estudantes devem se atentar, principalmente, para o controle emocional. Sob pressão e estresse causados pela rotina de estudos e a ansiedade que antecipam as provas, é nesse momento que lidar com as emoções, e as capacidades de sentir, entender e controlar o emocional fica mais difícil para os vestibulandos. Caio Maia, estudante do cursinho Intergraus, quer prestar Medicina e estuda diariamente, mas respeitando seus limites. “A tal da “maratona de estudo” é bem variada para mim, depende muito do dia. Se estou mais cansado, dou preferência a matérias que eu tenho mais facilidade e faço umas revisões mais tranquilas, e quando eu estou mais centrado eu estudo as matérias mais complicadas”, diz. A falta de controle emocional e repeito ao ritmo individual pode prejudicar o rendimento dos estudos e o próprio momento da prova, já que o estresse significa um desequilíbrio no organismo, acarretando em imunidade baixa e abrindo as portas para doenças como ataques de alergia, resfriados ou até descontrole no batimento cardíaco e surgimento de síndromes.

Muitos alunos nessa fase deixam de fazer atividades físicas, alguns perdem o apetite, enquanto outros, ao contrário, passam a comer compulsivamente engordando muito em poucas semanas. Caio percebe nitidamente os resultados, “a principal consequência física que sinto é o meu sedentarismo, eu não tenho mais fôlego e meu joelho dói agora que eu não faço mais atividades físicas”. Os especialistas recomendam que, nessa fase, para controlar a tensão é preciso manter uma vida saudável, como: ter um planejamento de estudos, praticar exercícios físicos e técnicas de relaxamento e respiração, além de fazer refeições saudáveis, comendo alimentos mais leves. Também não deve abusar nas horas de estudos, reservando um pouco para a diversão e lazer. Esses últimos podem afetar muito mais que na saúde, mas principalmente mexer com o emocional dos candidatos. “Socialmente está sendo um ano bem complicado para mim; meus amigos reclamam muito que eu só fico estudando e não saio mais com eles, o que também influência o lado emocional, já que estar meio ausente dá certa sensação de que você nunca participa das histórias boas”, lembra.

Como se não bastasse a pressão natural que o vestibular impõem aos seus concorrentes, uma prática que se tornou comum entre os estudantes é “turbinar” os estudos com uso de remédios que são para tratar transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), como a Ritalina ou Concerta. Eles deveriam ser vendidos apenas com receita médica, mas passaram a ser usados por estudantes e candidatos de concursos públicos. Esses remédios agem diretamente no sistema nervoso e estimulam a produção de noradrenalina e dopamina, substâncias cerebrais que melhoram a concentração. Porém médicos advertem para os efeitos colaterais, como, por exemplo, dificuldade para respirar, confusão mental, espasmos musculares e até convulsões e taquicardia. É necessário, portanto, que o estudante reflita se vale mesmo a pena se submeter a esses riscos.

 Ser competitivo

Outro desafio para o estudante é o mercado de trabalho. Principalmente para os recém-formados devido à falta de experiência e à concorrência, seja ela com profissionais da mesma área ou com estrangeiros, já que hoje no Brasil a demanda de mão de obra qualificada de outros países teve um grande aumento. A exigência do mercado por jovens experientes faz com que o estudante comece a procurar emprego desde muito cedo. O objetivo é formar e contratar profissionais que já saibam lidar com as responsabilidades do trabalho, com a relação entre chefes e empregados, que saibam trabalhar em equipe, aguentar a pressão da concorrência, cumprir horários, prazos de entrega etc.. Para o aprendiz, atuar desde cedo em seu campo de trabalho serve também como garantia de que está certo daquilo que quer exercer.

A competição no mercado de trabalho faz com que o profissional busque cada vez mais “diferenciais”. Mas ressalta Conceição que o tal “mercado de trabalho é diferente para cada profissão, cidade, momento sócio-político-econômico”. Ou seja, “o mais importante é ser um profissional bastante “antenado” na realidade de sua profissão”, diz ela. Daí preocupações como falar fluente dois, três ou quatro idiomas é pertinente, já que muitas empresas têm sedes em outros países ou mantêm relações com companhias internacionais. Fazer outros cursos, principalmente técnicos, como, por exemplo, de informática, tornou-se fundamental. Também é comum estudantes conciliarem dois cursos superiores ao mesmo tempo, com o intuito de possuir duas graduações no currículo, e para isso os estudantes se submetem a uma rotina sobrecarregada e cansativa de fazer duas faculdades. Essa é uma questão que divide as opiniões de especialistas, já que uns defendem o desafio, por complementar a formação do universitário, enquanto outros afirmam que fazer dois cursos superiores ao mesmo tempo resulta em não fazer bem feito nenhum dos dois.

Quanto a esse assunto, Conceição defende o último argumento. “Do ponto de vista de mercado de trabalho, fazer dois cursos não agrega maior competitividade ao jovem profissional, muito pelo contrário, as empresas entendem que possivelmente não fez nenhum dos cursos bem. É sempre mais interessante fazer uma boa graduação e esses conhecimentos que poderiam advir de outro curso ser objeto de estudo em uma pós-graduação, especialização, MBA”, afirma. Para ela, para adquirir o diferencial de formação que fará o jovem se destacar na competição por um trabalho em um mercado cada vez mais exigente é “fazendo cursos de línguas, viajando, participando da vida universitária, enfim, desenvolvendo-se como pessoa”.  Afinal conclui que “boa parte de qualquer seleção é a avaliação de questões de ordem mais pessoal, de competências interpessoais, trabalho em grupo, entre outras, muito além dos conhecimentos teóricos”.

Diferenciais, interesse e preparo pode ajudar no momento de concorrer, por exemplo, com profissionais de outros países que vêm ganhando espaço no ambiente de trabalho. Segundo um balanço feito pela Coordenação Geral de Imigração (CGig), do Ministério do Trabalho e Emprego, mostra que no ano passado, o governo concedeu 70.524 autorizações para estrangeiros trabalharem aqui, 25% a mais do que em 2010. A previsão é de crescimento de emissões de vistos de trabalho para imigrantes em 2012, apontando para uma disputa mais acirrada no mercado brasileiro, fato que deve contribuir para aumentar as dúvidas sobre a escolha certa na hora de preencher a ficha do vestibular.

O estudante de colégio ou cursinho pensa em tudo isso. Escolher o curso, passar no vestibular e fazer uma boa faculdade já é meio caminho andado, mas não é tudo. “Empenho; acho que essa é a característica mais importante para o sucesso profissional”, acredita Caio. Para Conceição,o mesmo: a graduação é fundamental mas não basta. Ela diz que “para se destacar o mais importante é ser um aluno e posteriormente ser um profissional de futuro, ou seja, alguém bem informado não apenas tecnicamente, mas também interessado em saber o que se passa na sua profissão, na sua cidade, no seu país, no mundo”. A especialista deixa sua observação sobre os futuros profissionais e dá um conselho: “A geração atual tem muito acesso a informação, mas tem uma dificuldade enorme de utilizá-la, assim a dica é ser informado!”.

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