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  por Gabriella Justo e Thaís Folgosi  

“O capitalismo pode chegar a destruir a espécie humana”, disse certa vez, Santiago Carrillo, que se despede aos 97 anos. O líder comunista espanhol deixa na memória de gerações a imagem de um homem que foi capaz de abdicar de sua ideologia em busca de um país mais democrático. Mais de 20 mil pessoas, entre cidadãos e políticos, compareceram ao velório do revolucionário, mostrando que seus atos serviram para construir uma legião de admiradores. Carrillo morreu de causas naturais enquanto fazia sua siesta na terça-feira, 18 de setembro.

Santiago iniciou a carreira na militância política e no Jornalismo já em sua juventude, por influência do pai, Wenceslao Carrillo, também militante da esquerda e dirigente sindical da União Geral dos Trabalhadores e do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol). Logo aos 15 anos começou a escrever para o jornal El Socialista. No ano de 1934, após participar de uma tentativa de golpe de Estado, contra o governo de direita, foi preso pela primeira vez. A relação com o pai se desgastou quando Carrillo abandonou o PSOE para ingressar no PCE (Partido Comunista Espanhol). Porém, em 1939, ela foi rompida factualmente porque Wenceslao participou do golpe de Estado do coronel Casado ao governo de Negrín. Para Santiago, a traição do pai nunca seria compreendida.

Também em 1939, durante a Guerra Civil Espanhola, por ser um combatente ativo do franquismo, Carrillo encontrou o exílio, na França, que durou 38 anos. Desde Paris, vivendo sob falsa identidade, articulava maneiras de vencer a ditadura espanhola que enfrentava sucessivas crises.

Santiago Carrillo durante uma reunião na Praça dos Touros em Madri
Foto: Reprodução

O republicano, assim como outros militantes socialistas da época, sofreu forte influência do bolchevismo, e chegou a ser um stalinista convicto, num primeiro momento da fase aguda da guerra civil espanhola. Ele passou várias temporadas em Moscou, em busca de unificar a juventude socialista com a comunista, e em uma delas, em 1948, conheceu o próprio Stalin, que segundo Carrillo, foi responsável pelas recomendações de que o PCE tivesse paciência, que as guerrilhas acabassem e que o partido se infiltrasse nos sindicatos franquistas, para desestabilizá-los e consequentemente, mudar seus dirigentes.

Em 1955, Santiago passou por um momento de crise no PCE, no qual temeu ser expulso do partido, ao apoiar a entrada da Espanha franquista no Conselho da ONU, além de defender uma política de reconciliação nacional, declaração feita em artigo para a revista Nuestra Bandera. O partido era contra tais ideias e considerou a declaração uma traição. Entretanto, o conflito foi resolvido pois os dirigentes do PCE perceberam que os tempos haviam mudado e, desse modo, Carrillo se tornou Secretário Geral do partido.

Cúpula Eurocomunista celebrada em Madri. Da esquerda para a direita: Enrico Berlinguer, líder do Partido Comunista Italiano; Santiago Carrillo, secretario geral do Partido Comunista Espanhol; e Georges Marchais, líder do Partido Comunista Francês
Foto: Reprodução

Com a morte de Franco, Carrillo retorna clandestinamente à Madri em 1976, com o objetivo de legalizar seu partido. Em março de 1977, propõe o eurocomunismo, uma tentativa de adaptar o pensamento socialista à realidade da região, ao mesmo tempo que busca estabelecer uma alternativa viável dentro do pensamento praticado no campo socialista. No mês de abril desse mesmo ano, o PCE foi legalizado pelo candidato a primeiro ministro Adolfo Suarez, no que ficou conhecido como o Sábado Santo Rojo. Em favor da democracia e para colocar um ponto final no franquismo, Santiago apoiou o retorno da monarquia e a candidatura de Suarez. Mesmo com a legalização, o PCE sempre foi um fracasso nas urnas, tendo conseguindo apenas 10% dos votos.

Porém, a direita voltou a atacar em 1981, com o golpe que ficou conhecido por 23-F. Liderados pelo coronel Antonio Tejero, 200 militares invadiram o congresso e mantiveram sequestrados por 17 horas e meia todos que ali se encontravam. Carrillo, que havia sido eleito deputado pela segunda vez,  em conjunto com o presidente do governo, Adolfo Suárez, e o vicepresidente, o general Gutiérrez Mellado, foram os únicos que permaneceram sentados em suas cadeira como forma de protesto e desobedeceram todas as ordem dadas por Tejero.  Com o pronunciamento do rei Juan Carlos I, vestido com o uniforme de capitão, em tv aberta desautorizando o golpe e apoiando a ordem constitucional, o sequestro tem fim.

Além do fracasso nas eleições, o PCE também sofria de brigas internas. Por um lado estavam os “renovadores”, a favor do eurocomunismo, e do outro os prosoviéticos, a favor do seu abandono. Dessa forma o partido se afundou cada vez mais, fazendo com que Carrillo pedisse sua demissão ao partido que ele havia dedicado quase 50 anos de sua vida. Em 1985, ele funda o Partido dos Trabalhadores – Unidade Comunista, mas o partido jamais conseguiu uma cadeira no congresso. Seu cargo no PCE foi ocupado por Gerardo Iglesias, que em 1986 criaria o partido Esquerda Unida.

Foto: Reprodução

Santiago Carrillo deixou a atividade política, mas não o fazer político. Escreveu inúmeros livros, publicou diversos artigos em jornais espanhóis, participou de debates e conferências. Recebeu muitas homenagens devido a sua atuação durante a Transição. Em 2005, foi realizado um jantar em comemoração aos seus 90 anos e teve a presença de muitas personalidades, como o ex-presidente de governo, Rodrígues Zapatero. Foi nomeado Doctor Honoris Causa pela Universidade Autónoma de Madri e premiado pela Fundação Sabino Arana, devido a sua contribuição no reestabelecimento da democracia além de ganhar uma Medalha de Mérito ao Trabalho.

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