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por Gabriella Justo e Thaís Folgosi

        A troca de olhares, o coração que dispara e parece que vai sair pela boca, as mãos ficam geladas, as pernas tremem… Esses são os sinais de que o cupido acertou sua flecha e o amor tomou conta da pessoa. Até Platão, em sua obra o “Banquete”,  tentou chegar a uma conclusão a respeito desse sentimento, mas nada concluiu. O que se sabe é que ele é almejado pela grande maioria das pessoas e está sempre presente. Encontra-se no beijo entre pais e filhos, no abraço entre amigos, no cafuné no animal doméstico e em um casal de namorados. Porém, até o amor tem restrições impostas pela sociedade, esse casal quando formado por homossexuais não é visto como o amor entre duas pessoas, mas sim um pecado.

Numa sociedade com perfil conservador como a brasileira esse tipo de preconceito não é novidade. Crimes homofóbicos estão cada vez mais nas manchetes de jornais e a intolerância e a ignorância de boa parte da população contribuem para isso.  E por esse motivo, a mídia brasileira, principalmente a TV, vem colocando esse debate em pauta, muitas vezes de maneira distorcida. Desde 1970,  com o personagem Gugu, interpretado por Ary Fontoura, na novela “Assim na Terra como no Céu”, os homossexuais tem entrado na casa das pessoas e de uma forma ou de outra, tentado ajudar a mudar essa mentalidade. “Não acho que ajude, exatamente por se tratar de um estereótipo perpetrado pela mídia. Mas reconheço a importância da presença de tais personagens, pelo menos o assunto não está ‘escondido’”, disse o estudante de 18 anos, que preferiu não ser identificado.

 As telenovelas brasileiras, na grande maioria, apresentam esses personagens de uma forma caricata, onde o homem gay é afeminado e a mulher lésbica, masculinizada. Por mais que existam pessoas assim na vida real, eles não são os únicos. E isso é prejudicial, pois a imagem que se consolida é a do homossexual escandaloso, fofoqueiro, fútil etc. Ela não é nem um pouco positiva no combate ao preconceito e a intolerância homofóbica. “É a imagem que eles acabam vendendo pra sociedade.[…] Para classe C e D, que é a maioria da população brasileira que assiste a esses programas, é a imagem que fica. Então você tem um filho que o pai é peão de obra e a mãe é faxineira de uma empresa e o menino se assume gay. O pai não sabe do que se trata, a mãe acha que é coisa do demônio e a única referência que ele tem é o que ele vê na televisão. Então ele acha que vai ser mais gay se ele colocar uma saia. É a imagem que o adolescente cria para a homossexualidade dele, que é o esteriótipo e a imagem que a família dele vai ter de que é errado, feio, é vulgar.”, segundo o estudante, de 19 anos, Vinicius Pessoa.

  Exemplo da caricatura homossexual, Crô, personagem do ator Marcelo Serrado, na última novela das 21h00min, “Fina Estampa”, conquistou grande parcela do público com seus trejeitos afetados e o estilo extravagante. Outra amostra da representação duvidosa do tema: o relacionamento do casal, Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), na novela “Mulheres Apaixonadas”, de 2003, que foi retratado de forma artificial. As duas pareciam serem mais amigas do que namoradas, propriamente. “Muitos [personagens] me marcaram negativamente, principalmente durante minha pré-adolescência, por mostrarem apenas tipos exageradamente caricatos, dificultando qualquer identificação e me gerando uma sensação de completo isolamento da ‘comunidade gay’” confirma o estudante de 18 anos.

 Entretanto, contrariando tais personagens caricatos, no ano de 2011, a telenovela do SBT, “Amor e Revolução”, encenou, com dignidade, o primeiro beijo lésbico na televisão aberta e durante o horário nobre. Ao retratar o episódio com naturalidade e o talento das atrizes, Luciana Vendramini e Giselle Tigre, mostrou ser possível uma encenação que condiz com a realidade. Ademais, a telenovela ao transmitir a cena, retratou bem à época da ditadura (os anos 60), que também ficou marcada pela libertação sexual, tanto das mulheres quanto dos homens. Mas, como dito por Vinicius, “Tá na Globo aconteceu, não tá na Globo não aconteceu”. Por mais que este beijo de fato tenha acontecido, poucas pessoas o viram. E além do SBT, nenhuma outra emissora deu um passo maior. “O brasileiro não está pronto para assistir esta cena. Essa é a realidade. O beijo realmente tem que acontecer, mas aos poucos. Começar por um carinho, mãos dadas…” conclui Vinicius.

Quando filmes retratam homossexuais se verificam dois aspectos distintos. As películas de produção independente ou de orçamento pequeno têm maior liberdade para discutir e abordar o assunto da homossexualidade, e com uma visão mais realista. Portanto, filmes como “Meninos Não Choram” (1999), dirigido por Kimberly Peirce, ou “Do Começo Ao Fim” (2009), do brasileiro Aluizio Abranches, destacam-se ao abordar a temática e por tratarem o tema com normalidade.

Já os filmes de apelo comercial tendem a mostrar os homossexuais dentro de um estereótipo, quer dizer, de forma negativa, em que eles são melhores amigos de mulheres, apreciam a moda, têm paixão por atividades pouco viris e são afeminados, isso no caso dos homens, e já no das mulheres, são, na maioria das vezes, masculinizadas. Não é que não existam gays como os retratados, mas é um equívoco apenas retratá-los dessa maneira, e é assim que se criam os estereótipos. Pois, o público alienado por uma Indústria Cultural, não tem acesso e, portanto, cria-se uma imagem do homossexual como àquela que é veiculada. O que mostra a influência da mídia na visão da sociedade.

 Retrato diverso

O grupo responsável por monitorar como os homossexuais são retratados na mídia estadunidense,  GLAAD (traduzido como Aliança Gay & Lésbica contra Difamação), vê uma melhora na caracterização deles. Apesar de os canais privados, como a MTV, o Warner Chanel, a FOX e a ABC, serem os responsáveis pela mudança no retrato dos gays. Personagens gays de grande apelo como, Kurt Hummel (Chris Colfer) e Santana Lopez (Naya Rivera), na série musical, Glee (FOX), mostra efeitos positivos. Além de estarem entre os personagens principais, são adolescentes homossexuais que enfrentam todos os tipos de humilhação e intolerância por sua opção sexual, no colégio, assim como os problemas da aceitação da família e outros comuns a qualquer heterossexual. Outros seriados também apresentam personagens gays, como Pretty Little Liars, Modern Family, Skins, etc. Ademais, nos últimos 8 anos, houve um crescimento de personagens com tal orientação sexual no horário nobre da televisão norte-americana, devido a muitos produtores e criadores serem gays e pelo grande número de redes de televisão, o que possibilita uma liberdade em agradar ou não a massa.

Um dos programas estritamente centrado em personagens homossexuais, a série estadunidense que durou 5 anos, “The L Word”, tornou-se pioneira ao tratar do lesbianismo e da bissexualidade. Apesar das cenas eróticas excessivas que comprometeram sua seriedade por transmitir uma imagem de promiscuidade às personagens, a trama é centrada em um grupo de amigas com opções sexuais já citadas. Enfim, os Estados Unidos parecem tratar, hoje, tais personagens sem estereotipá-los. Diferente do que ocorre, na maioria dos casos, na televisão no Brasil.

Um casal homossexual é igual a qualquer casal heterossexual. O modo como lidam com os problemas amorosos, a vida conjugal, os sentimentos são os mesmos. A única diferença é o modo como são tratados.

A censura

A censura de cenas em programas com conteúdo homossexual se tornou habitual. Às vezes, é justificada por questões morais, outras tantas, por medo do impacto que poderá causar.

A Ucrânia, a exemplo disto, apesar de figurar entre os países com excelentes indicadores sociais, mostra estar atrasada em outros aspectos. Neste ano, a Comissão Nacional em Defesa da Moral do país busca proibir certos desenhos animados, como o de público infantil, Bob Esponja, alegando que os trejeitos homossexuais do protagonista (e que leva o nome da série), seu estilo de vida e as relações com os demais personagens influenciam as crianças, que tendem a imitá-lo. Também critica o programa infantil, “Teletubbies”, por um de seus integrantes, Tinky Winky, segurar uma bolsa vermelha de mulher, sendo ele um menino e outros como “Pokémon”, além dos seriados adultos, “Futurama” e “Família da Pesada”. Além disso, no país, a exibição do filme “Bruno”, de Sacha Bohan Carter, foi vetada.

No caso do Brasil, a Rede Globo, em 2011, censurou uma cena do seriado norte-americano, “Os Simpsons”, em que Homer (personagem principal) beija o garçom, Moe. A cena era importante para a conclusão do episódio, e a emissora se justificou alegando que teve de censurar devido ao horário de exibição, considerado de classificação indicativa livre.

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