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Por Flávia Kassinoff e Luciene Sudré

Se as mulheres votam e podem trabalhar como os homens, então, já existe igualdade. Essa é uma típica afirmação de uma sociedade desigual e dominante, que é reproduzida com muita naturalidade e sem reflexão analítica pela grande maioria da população brasileira. A reprodução de uma afirmação que multiplica a cada dia uma posição machista impressa em todos os setores sociais. As mulheres ainda lutam e batalham pela igualdade, pela liberdade, pois o machismo cultural construído desde os tempos mais primórdios não permite que as mulheres sejam iguais aos homens. A igualdade e o direito dessas são atropelados por um trator chamado preconceito. A igualdade, ser um ser humano como os outros, vai muito além do voto ou de um trabalho mal remunerado.

 Historicamente, o Movimento Feminista no Brasil passou por três grandes momentos: No fim do século XVI, a movimentação das mulheres reivindicava direitos democráticos como direito ao voto e ao trabalho. Na década de 1960, as mulheres lutaram pela liberação sexual e igualdade de gênero, impulsionadas pelo aumento dos contraceptivos, de forma a combater o tradicionalismo das famílias brasileiras. Em um terceiro momento, no fim dos anos 70, as mulheres se organizaram e juntaram-se a luta de caráter sindical. Acontece que as reinvindicações feministas e a luta pela igualdade de gênero não podem ser definidas apenas por momentos na história de qualquer país, porque ela ainda continua. Resquícios de uma sociedade patriarcal ainda perpetuam o preconceito, a discriminação e limitações para as mulheres de todas as idades. Em busca de liberdade e autonomia, as mulheres passam por um momento preciso de auto-organização, contra uma sociedade arbitrária que em diversos âmbitos reforça a desigualdade entre os gêneros.

As causas são as mesmas. As mulheres se organizam para criticar e fazer oposição às diversas engrenagens que reforçam o machismo e tantas outras mazelas sociais que continuamente apresentam-se de forma naturalizada. O cenário machista está aí e facilmente pode ser localizado. A mulher que realiza o trabalho extra-domiciliar recebe muito menos apesar de fazer o mesmo trabalho que o homem. Um reflexo histórico da mulher vista como incapaz, que deve cuidar da casa e da criação de seus filhos obrigatoriamente. As que agem em contraposição a isso, sofrem julgamentos de todos os lados, pois precisa ser “de família”, e se não é, se torna incoerente com que lhe é estabelecido por convenção machista. Sim, é estabelecida uma posição para as mulheres em todos os espaços, assim como é estabelecido o comportamento dos indivíduos em uma ditatura. Se ela não as cumpre, usufruindo de sua autonomia, passa a sofrer preconceitos.

Entretanto, diferentemente da ditatura, o machismo ocorre em um sistema democrático, onde falsamente, existe igualdade entre os gêneros. Expressões como: “futebol é coisa de menino”, “azul é cor de menino”, “menino não chora” enfatizam um postura moral masculina desde a infância, e é possível exemplificar papéis sociais pré-estabelecidos e níveis de restrição às mulheres. Destrinchando essa posição, é desta forma que o homem pode usar qualquer tipo de roupa e não ser julgado por isso. É desta forma que o homem tem liberdade sexual para relacionar-se com diversas mulheres, enquanto a mulher que o faz ‘não presta’ e, muitas vezes ainda é considerada culpada quando é vítima de estupro. Assim, é desta forma que a mulher tem de ser a responsável pelo trabalho doméstico e não o seu marido. A mulher ‘boa’ é a mulher casada, e que é mãe, e não pode decidir sobre sua própria vida sem ser atingida por nenhuma retaliação. Um preconceito que retira dela a decisão se serão mães ou não. Outro sintoma do preconceito machista são as mulheres homossexuais que têm de aturar olhares e xingamentos pelas ruas. Exemplos desse comportamento podem ser encontrados também na idéia de que, ao tomar cerveja ou fumar a mulher está fazendo algo ‘errado’, porque isso é ‘coisa pra homem’. O que fica patente é o argumento sem sentido de que os homens podem, por serem homens. As mulheres não, e só porque são mulheres.

Privada de liberdade, a mulher ainda é tratada como um objeto que deve estar a serviço do homem de todos os modos, inclusive sexualmente. A mesma voz que determina o que as mulheres devem fazer é a voz que as alicia. A mídia contribui de modo compulsório com o jogo machista, ao retratar a mulher como símbolo sexual, que usa seu corpo em troca de favores ou vem acompanhada com um copo de cerveja. A mulher é obrigada a cumprir uma dupla jornada, e em muitos casos, as políticas públicas em favor das mulheres são quase inexistentes. A lei “Maria da Penha”, que pune as agressões contra a mulher é um avanço, mas não é suficiente. Há escassez de delegacias especializadas no combate da violência contra as mulheres, falta apoio psicológico e assistência como casas-abrigo, falta prevenção e conscientização de toda população, e enquanto isso, o machismo continua matando todos os dias.

Igualdade de gênero desigual.

Porém, não é verdadeiro afirmar que apenas os homens praticam o machismo. Comportamentos machistas são reproduzidos até mesmo pelas próprias mulheres que, por estarem na engrenagem do sistema patriarcal sexista, acabam por propagar as mesmas condutas morais que as prejudicam. O ato de julgar outra mulher pela sua roupa, ou condenar a promiscuidade feminina e relevar a masculina, encarando como símbolo de virilidade, por exemplo, são pequenas atitudes que, em um contexto mais amplo, perpetuam o machismo.

Em um país que carrega em sua história quase quatrocentos anos de escravidão, o que representa quatro quintos do período da história oficial da nação, outro ponto importante do debate é a situação da mulher negra no Brasil. Os resquícios do sistema colonial estão nas entranhas da sociedade, fazendo com que se privilegie o homem branco, de olhos azuis, heterossexual e burguês. Sendo assim, a mulher negra está em uma condição de maior inferioridade na hierarquia social, herdada desta época.  Essas mulheres precisam lidar com o duplo preconceito, o racial e o de sexo.

A Frente Feminista da PUC-SP é composta pelo Coletivo Feminista Yabá (alunas de direito), Coletivo Feminista 3 Rosas (alunas de jornalismo), Coletivo Feminista Lindonéia (alunas de História e Geografia), e também por autônomas, abrange outros pontos mais sensíveis como a relação do feminismo com a religião, tema do primeiro jornal organizado por esta e lançado no mês de setembro. Paula Nunes, do Coletivo Feminista Yabá, diz que o jornal trás a influência da religião e todas as formas que interfere no feminismo, as formas negativas, principalmente as religiões católica e evangélica, que vem tentando podar as feministas, como por exemplo, com a criminalização do aborto. Mas também ressalta que o jornal apresenta o quanto não é impossível ter algum tipo de religião e ser feminista.

Jornal da Frente Feminista da PUC-SP

Mariah Silva Vieira, também do Coletivo Feminista Yabá, diz que na Igreja Católica não existem mulheres com poder de decisão. Isso porque elas executam o que é ordenado pelos homens, pelos padres. Na roda de conversa sobre o assunto, no dia do lançamento da primeira edição do jornal, Mariah disse que nos EUA, um país onde o catolicismo é menor, não é maioria como aqui no Brasil, nas escolas católicas com freiras, existem os padres, mas as mulheres tem uma voz maior, formam uma rede de freiras nacional e várias delas já foram excomungadas, porque “quando você junta várias mulheres em um lugar onde sempre recebem ordens, elas vão começar a se questionar o porquê recebem essas ordens”, entende. A feminista defende a ideia de que as religiões funcionam como uma sociedade, em que existe uma corrente hegemônica que vai ditar as regras da instituição. E também, onde existem algumas forças contra hegemônicas, como a Teologia da Libertação, a Teologia Feminista e a Teologia Pró-sexo, no catolicismo. Sendo essas, correntes que o Vaticano sempre tenta silenciar.

O Estado laico, assim como a Educação laica é algo pautado majoritariamente também pelas feministas. Camila dos Reis, estudante de Geografia, do Coletivo Feminista Lindonéia diz que hoje, a educação no país como um todo está atrelada a religiosidade, sendo que temos a garantia de um Estado laico e isso perpassa, obviamente, por uma educação laica e não é o que acontece na realidade. Ou seja, “se formos pensar primeiramente em educação básica, as escolas públicas têm aula de ensino religioso, mas não é uma aula que debate e apresenta as diferentes crenças e mitos. Ensinam-se os preceitos da Igreja católica. Isso é cair em uma ditadura do que você pode ou não ensinar e aprender na universidade”, conclui.

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