Home

Por Marcela Millan e Patricia S. Zylberman

Descontentes com o fim de uma série que os acompanhou por muito tempo, rendendo discussões e paixões intensas, fãs de muitos livros, animes, mangás, games – entre outros – passaram a criar um novo universo digital para ocupar esse vazio, valendo-se das chamadas Fanfics (ficção de fãs). Auxiliadas pela Internet, essas pessoas passaram a dedicar um tempo para reviver os antigos personagens de suas histórias, explorando cenários e tramas que, por vezes, não foram tão abordadas pelo autor do texto original.

Antigamente restritos ao papel de consumidor, o público se via de forma passiva frente uma história de ficção. Com a Internet, porém, e com o surgimento das fanfics, ele passou a exercer um papel de produtor, criando histórias alternativas que, às vezes, atraem mais atenção do que a original. Esse parece ser  o caso do sucesso da atual trilogia “50 tons de cinza”, de E. L. James, baseada na série de livros de Stephenie Meyer.

A trama de James pouco condiz com a de Stephenie Meyer –  apenas o perfil da protagonista é mantido. Ainda assim, esse parece ser um dos atrativos de uma fanfic. Para Priscilla Braga, 18 anos, escritora de várias fanfics conhecidas na Internet, a fanfiction, como o nome já diz, é uma ficção feita por fãs. Não precisa estar necessariamente de acordo com a história original. “Eu, por exemplo, adoro criar casais diferentes. Temos mesmo é que dar asas à imaginação”, comenta. 

Há, porém, uma certa divergência de opiniões sobre esse assunto. Alguns leitores sentem-se incomodados quando as fanfics fogem muito da trama original, deixando até mesmo de lê-las por esse motivo. “Não gosto muito quando uma fanfic monta um casal diferente, acho bem estranho. Prefiro os casais normais. A não ser, é claro, quando a fanfic é sobre personagens que são da próxima geração dos personagens atuais, como em Harry Potter  – há algumas fanfics sobre seus filhos”, afirma Veronica Gonzalez, 19 anos, leitora voraz desse meio. “Acho fundamental que uma fanfic siga a personalidade original dos personagens. É por isso que nós lemos. Ou, ao menos, por isso que eu leio… para vê-los em outras situações”, continua.

Questionada sobre o porquê  de escrever fanfics ao invés de histórias originais, Priscilla afirma: “Para uma história com personagens originais, acredito que se precise de muita experiência. Sou uma pessoa muito crítica, não apenas com o trabalho de outras pessoas, como principalmente com tudo que eu escrevo. Tenho mais facilidade e aconchego com as fanfics porque mal ou bem, nós já temos nossa imagem daquele personagem”. Veronica, por sua vez, conta que até já pensou em começar a escrever uma, mas, para que isso acontecesse, precisaria empregar muito tempo e criatividade no projeto – algo que ela não sabia se tinha condições de fazer.

Priscilla Braga comenta que desde sempre foi fascinada por leituras e que isso foi essencial para que ela despertasse seu lado de escritora. Seu primeiro contato com o gênero foi através de um fandom de Harry Potter, que uma amiga indicou. “Foi amor à primeira vista”, assume. “Eu fiquei encantada com a ideia de poder manipular personagens que eu adorava e ter o poder de mudar o fim e até criar casais que não existiriam na história original”. Yuu Grantaine, nome que Camila de Nadai usa para assinar suas fanfics, parece concordar com isso. “Acho que comecei a escrever pela possibilidade de poder criar situações que não existem na história original. Na verdade, comecei a me interessar por isso até sem querer, quando achei algumas fanfics de Yuyu Hakusho enquanto pesquisava informações sobre o anime”, comenta. “A partir daí, comecei a procurar outras para ler e só depois tomei coragem para postar algo que tinha escrito. As pessoas que leram deram sua opinião e até dicas através dos reviews, daí me senti motivada a continuar e não parei mais.”

Um dos principais alvos, tanto dos escritores quanto dos leitores de fanfics, é a série Harry Potter, de J.K Rowling. Os livros acompanharam o crescimento da maioria dos escritores de fanfic atuais e, talvez por isso, a paixão por essa série se mostre tão aparente.  Uma única fanfic, “Harry Potter e a Reconquista da Magia Antiga”, atraiu mais de 12 mil leitores e não parece estar próxima do final; somente no site fanfiction.com.br, o tema traz mais de 300 resultados – e isso tudo não é sem motivo. J. K. Rowling não só apoia esse tipo de expressão como também as alimenta, proporcionando livros e materiais auxiliaries, como o site pottermore, ou os livros “Quadribol através dos Séculos” e “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, além dos sete volumes originais de sua obra.

Diferentemente dela, alguns autores condenam esse tipo de escrita. Anne Rice, autora de Entrevista com o Vampiro e outros livros, proíbe a prática de fanfics com suas obras. Assim como Rice, George R. R. Martin, escritor da série Crônicas de Gelo e Fogo, afirma que “todo escritor precisa aprender a criar seus próprios personagens, mundos e cenários. Usar o universo de outros é uma saída preguiçosa.” Ele ainda se justifica dizendo que seus personagens são como filhos e que, por isso, não gosta de ver ninguém se aproveitando deles. Em suas próprias palavras, só ele pode “abusar das pessoas de Westeros (um dos reinos da trama).”

Apesar de bem aceitas, as fanfics acabam gerando polêmicas, uma vez que usam como base um cenário e roteiro preexistentes. Com isso, a discussão sobre os direitos autorais torna-se quase inseparável do assunto. Segundo a Lei 9.610/98, a tradução e a adaptação são consideradas formas de transformações da obra originária e para tal a mesma Lei prescreve: “(…) depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, por quaisquer modalidades (…)”. Por não ter fins lucrativos, as fanfics não constituem uma violação da propriedade intelectual, entretanto, existem autores que não as aceitam.

Max Welcman, editor da Brasiliense, acredita que as fanfics enriquecem e multiplicam as possibilidades de sentido e interpretação das obras de ficção. “Elas estimulam e muito a imaginação dos leitores, além de serem uma forma de democratizar o acesso às obras e seu significado; cada leitor-escritor passa a ser um recriador, portanto um multiplicador de diferentes visões e aspectos de um mesmo objeto/ponto de partida”, comenta. “O fenômeno também ajuda na ampla divulgação das obras sem a necessidade de intermediários, mas é preciso que autores e leitores estejam atentos no sentido de respeitar o modo como cada editora enxerga o fenômeno, de acordo com suas próprias políticas editoriais”, conclui.

Se sempre for levada em consideração a opinião do autor, os “ficwriters” têm um universo de possibilidades a seu alcance. Imaginativos, eles têm o poder de imortalizar uma obra. “Fico feliz por ter escrito minhas fanfics. Tenho um imenso carinho por todas elas”, conta Priscilla. “Não é porque o livro acaba que a história termina”.

 

Um pensamento em “Ctrl+C e invente uma trama

  1. Pingback: “Pornô” para mamães (e filhas) « Desalienando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s