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Por Nina Franco

“O livro e o jornalismo cultural estão doentes” – foi com essa afirmação que o escritor francês Frédéric Martel iniciou sua fala durante o 4º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, ocorrido no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA) em Maio deste ano. Declarações como a do escritor são cada vez mais presentes nos discursos dos críticos culturais. Para esses, os motivos de tal condição debruçam-se em um suposto descaso com os temas da cultura, decorrente da confusão estabelecida entre cultura e entretenimento e da visão capitalista de arte como objeto de consumo.

Neste contexto cabe aqui reavaliar o papel da imprensa na difusão da informação. Afinal, o que há hoje nas principais publicações do país pode ser entendido como reflexo de uma atividade fundamentalmente cultural ou apenas a reprodução de um ativo do mercado, que acaba modificando o conceito de cultura e o transporta para o mesmo plano do entretenimento.

O papel da publicidade na manutenção da estrutura de negócios da informação pode ser percebido nas páginas dos jornais diariamente. Os gigantescos anúncios não são exclusividades dos cadernos de cultura, porém parece ser neste que publicidade e notícia fundissem com maior clareza. O comentário do crítico vem logo ao lado da reprodução do cartaz de divulgação da peça/do filme. Por vezes a propaganda se estende e gera entrevista exclusiva com o ator principal de uma das estreias. O leitor ávido pela novidade não parece se preocupar se é ou não indiretamente induzido a consumir o novo produto da industria  e os profissionais da imprensa cada vez mais se veem obrigados a satisfazer esse prazer momentâneo de divulgar o novo hit da estação. Contribuindo para esse sistema entra o trabalho das acessórias de imprensa. As informações noticiadas pelos jornais, muitas vezes não nasceram na redação, mas sim dentro de uma empesa contratada para difundir um produto.

Para o jornalista Ivan Finotti, do jornal Folha de S. Paulo, “existe uma expectativa do leitor em conferir no jornal o que chamamos de “agenda” é o que ele espera depois de passar por outros cadernos cheios de noticias muito mais difíceis de serem diluídas”, afirma. Finotti não acredita existir um descaso com a cobertura de cultura, em sua opinião “O jornal precisa de cultura”. Porém assume a dificuldade em se publicar pautas as quais não se restrinjam em noticiar as grandes produções, “Em uma cidade com a agenda tão movimentada como São Paulo o espaço para se fazer coisas diferentes é menor. Para fugir das estreias você tem que brigar um pouco e tentar enfiar a matéria no espaço disponível no dia”,  explica. Ele também comenta que trazer matérias desfocadas dos grandes sucessos de público é uma maneira de trazer singularidade à publicação, “Se eu vou até a periferia e faço uma matéria com um grupo de hip-hop de uma comunidade “x”, passo um dia com eles e narro para o meu leitor como aquela manifestação interfere no cotidiano daquelas pessoas, essa é uma matéria que só o meu jornal vai ter. Não é a mesma coisa quando se faz uma resenha de filme”.

O critico assume não concordar inteiramente em como se desenvolve a cobertura de cultura nos jornais “Muitas vezes não é bem o tipo de jornal que queremos fazer. Mas se o Dan Brown lança um livro hoje, por mais que metade da redação tenha particularmente as suas críticas, é algo do qual temos a obrigação de cobrir, pois o leitor espera abrir o jornal e ler algo sobre. Se uma noticia desse tipo não sair em um jornal como a Folha, o leitor entenderá que nós falhamos”.

 Cultura dos códigos de barras

Em visita ao Brasil, Sophie Guignard, a editora da versão argentina da revista de origem francesa Les Inrocks afimou: “A revista é um dispositivo cultural para seus leitores” – porém alertou para dificuldade do jornalismo fazer um trabalho verdadeiramente abrangente, capaz de atingir as mais diversas necessidades culturais de um país e ao mesmo tempo fazer da arte não apenas um dispositivo cultural, mas também uma arma política. “Uma revista precisa garantir sua credibilidade e independência, sem amarrações econômicas que tosem a sua liberdade política”, acredita.

Fugir das amarrações econômicas parece ser um dos maiores desafios das publicações. Emaranhadas na demanda do mercado a cultura popular cedeu vez ao entretenimento a tal ponto de ser difícil reconhecer a autenticidade da representação da cultura de um povo. As pautas decorrentes no jornal estão atreladas apenas aos grandes sucessos de público “Eu cubro apenas o que tem código de barras” – esclareceu Jerônimo Teixeira, colunista da Revista Veja, também presente no Congresso no Tuca. “É hipocrisia dizer o contrário, se falo de Marx em um artigo é porque até ele tem código de barras”, defende.

Deste modo, a suposta crise cultural vivenciada, não isoladamente pelo Brasil, mas por inúmeros países se instala por apenas publicar aquilo que já conhecido pelos leitores, tirando do trabalho jornalístico a obrigação de noticiar as atividades menos populares. “Sou jornalista, não descobridor de talentos” – defendeu o editor da Ilustríssima Paulo Werneck.

A atividade jornalística dentros dos ambientes de cultura também inclui a busca pelo acontecimento que não está incluído na agenda das grandes corporações de mídia. Ainda que não seja papel do jornalismo “caçar” talentos, é incontestável  que muitos artistas, mesmo sem os holofotes da grande imprensa, estão em plena atividade e conquistando gradativamente simpatizantes pelos principais pólos culturais da cidade. “Casas de teatros praticamente esquecidas na Rua Augusta lotam todas as suas sessões, dificilmente sai no jornal” – declarou o diretor do grupo Vertigem de teatro, Antônio Araujo.

Considerando o depoimento do diretor, cabe ressaltar que diversas manifestações populares ocorrem paralelamente com as disseminadas pela impressa.  E muitas dessas levam muitos anos para serem reconhecidas.

A arte dividida

Os críticos defendem como fator principal para essa desvalorização da cultura popular a dicotomia “Alta e baixa cultura”. Essa polaridade é equivocada, reflexo de hierarquias culturais elitistas pré-determinadas sem nenhum fundamento realmente sólido. “Para essa elite a pior coisa seria misturar cultura ao divertimento” – declarou Frédéric Martel.

O escritor francês Frédéric Martel durante sua participação em congresso no Brasil.

Nas palavras do escritor de “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba” Paulo Lins “A arte só é entendida como tal a partir do momento em que as classes dominantes passam a reconhecer seu valor. Foi assim com o jazz e com o samba durante muito tempo excluídos do seu inquestionável status de música, por ser de origem negra e não elitista”.

Na opinião do professor, escritor e filósofo Vladimir Safatle “O povo não existe”, para os termos culturais atuais. A cultura dita popular é uma abstração e não perderíamos nada se abolíssemos tal conceito afinal “Julga-se o mais vendido, o mais comercializado como sendo o representante autêntico de uma cultura, porém a cultura é mais, é a origem, a autenticidade, a identidade de um povo e não um produto”. Safatle concorda que a crença da divisão entre cultura erudita e a popular é apenas consequência da divisão de classes.

A cultura na universidade

Para a estudante do curso de jornalismo da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), Carolina de Paula, 20, “Há uma grande deficiência no curso de Jornalismo, ele precisa urgentemente de uma reforma para atingir todas as áreas de conhecimento possíveis aos profissionais. Para nós que temos o interesse de cobrir cultura os cursos extracurriculares são indispensáveis e congressos extremamente uteis” – criticou a estudante do segundo ano.

Segundo a jornalista Isis Rangel, 20, também estudante da UNESP “A dificuldade em lidar com cultura começa muito antes da universidade. A cultura no geral não é acessível, a cobertura é rasa e na maioria de uma linguagem pouco familiar ao leitor”. A estudante Isabela Duarte, 19, da Faculdade Caspér Libero, apontou outro fator “O jornalismo cultural é menos valorizado na academia, a faculdade preza assuntos ditos “mais importantes” como economia, política, investigação e esquece que a cultura também é chave para as transformações sociais”.

Para estudante da PUC SP Amanda dos Anjos ” Falta abordagem de cultura no curso de jornalismo, parece que as pessoas não ligam para o tema, acredito que alguns acham o tema futil, menos importante”, opina. O jornalista Paulo Werneck alertou aos estudantes, durante palestra, as principais características do jornalista cultural. “Vocês precisam trabalhar com uma narrativa sedutora; o seu texto precisa ter densidade o que difere muito de tamanho; a linguagem precisa ser acessível, o jornalista escreve para todos”.

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