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Por Amanda dos Anjos e Julia Teixeira

O ano de 2012 vem sendo marcado por grandes paralisações de trabalhadores e a greve dos professores e funcionários das universidades federais serve como exemplo. O movimento já é considerado o maior já ocorrido no País. Desde o dia 17 de maio deste ano, 95% das universidades se encontravam, até segunda-feira, dia 17 de setembro, com seu cronograma de aulas paralisado. Além dos professores, estudantes também se juntaram ao protesto, que possuia como pauta de reinvindicações a reestruturação da carreira dos docentes e o reajuste salarial, ambas inseridas na precária situação da Educação no País. Esta última, inclusive, talvez seja a mais importante. Em um comunicado oficial representando o governo, o então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, considerou a greve precipitada, já que as medidas do acordo realizado entre o governo e o Sindicato Nacional dos Docentes de Instituições do Ensino Superior só poderão entrar em vigor no início de 2013, como já havia sido combinado.

 Apesar de serem reconhecidos pelo Brasil inteiro, os participantes do movimento grevista não puderam, pelo menos no começo, contar com o apoio da grande mídia. Canais expressivos de televisão, como a Rede Globo, por exemplo, o assunto não foi tratado como notícia nos informativos de sua grade horária. Os veículos impressos também não foram instrumentos de apoio ao manifesto, salvo algumas exceções, como a revista Piauí, que utilizou a greve para criticar políticos e partidos. Com a paralisação alcançando maiores proporções, entretanto, esses veículos começaram a perceber que era necessário uma cobertura jornalística. Canais midiáticos como a revista Veja viram que as greves passaram a ser assunto tanto em outras instituições de ensino quanto em conversas informais até, passando a pensar a abordagem do tema inclusive como uma estratégia de marketing, para melhorar as vendas por exemplo. Segundo Andrew Costa, observador da Universidade Federal Fluminense no Comando Nacional de Greve Estudantil, um dos problemas da mídia brasileira é a concentração desta nas mãos de poucos, ou seja, o interesse privado prevalece, muitas vezes facilmente negociados com o governo, não valorizando os movimentos sociais. “Além de não cobrir o movimento grevista que atingiu 95% das nossas universidades federais, os principais meios de comunicação do país faziam questão de estampar manchetes com a saída de uma ou outra universidade da greve, mesmo que estas, às vezes, tenham se dado por meio de listas de presença com número superior de votantes ou em assembleias esvaziadíssimas.”, diz Andrew.

Cartaz no departamento de enfermagem do campus Vila Mariana da Unifesp mostra descaso da mídia na cobertura da greve

O movimento grevista uniu estudantes, professores e funcionários de instituições federais de ensino, além de técnicos. A relação entre os grevistas e o governo, aliás, mostrou-se bastante difícil e, em muitos momentos, tensa. O Estado relutantou em negociar demorando em receber os professores e não ligando para os estudantes. O ministério da Educação, inclusive, recebeu os universitários, mas o representante saiu antes mesmo do término da reunião, como relata Andrew.

 E o tempo perdido?

  Depois de mais de 100 dias de greve, as universidades começam a planejar a reposição das aulas, mas os alunos estão confusos quanto a isso, pois alguns chegaram a perder um período inteiro do curso. “(…)Ainda não sabemos ao certo como vai ser a reposição, mas o que estava programado era que se a greve terminasse no início de Setembro, nós iríamos retomar nossas atividades a partir dessa data e então não teríamos férias de Dezembro e Janeiro. O reitor e os professores já haviam programado o novo calendário do segundo semestre e não haveria grandes perdas em termos de conteúdo devido à paralisação, porém como ainda não terminou, não sabemos como vai ser, há muitos alunos e professores dizendo que é provável que iremos perder o semestre.”, é o que diz a aluna Gabrielle Leonardo Pereira, que cursa o 3º semestre de Enfermagem na UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo). Há ainda estudantes em situações mais peculiares, como é o caso de Bruno Morado Rodrigues, que ingressou este ano na UFABC (Universidade Federal do ABC) e simplesmente não iniciou o curso efetivamente devido à greve, “Pela UFABC usar do método de quadrimestres e não de semestres ou anual como a maioria das universidades, perdi um quadrimestre inteiro, o que seria, cerca de 3 meses. Ainda não temos ao certo se o quadrimestre perdido será reposto ou cancelado, o que incidiria em fazermos um quadrimestre além do tempo previsto do curso.”

Apesar de toda essa paralisação no ensino, o período perdido e mesmo não sabendo ao certo como será daqui para frente com a reposição das aulas, grande parte dos alunos apoiou o movimento grevista. Segundo eles, essa é uma das únicas formas, hoje, do governo olhar para a situação educacional no Brasil. “Claro que a paralisação atrapalha nossos planos pessoais e profissionais, mas não apoiar o movimento significa não se importar com a própria educação.”, diz o estudante Victor Silva Giglio, que cursa o 2º ano de Administração na UNIFESP.

Os estudantes fazem reclamações relacionadas à estrutura da universidade, como é o caso de Victor, “Ainda não estou satisfeito com minha universidade. É o segundo ano de funcionamento do campus, (…) e este que estamos utilizando é temporário, o definitivo ainda não começou a ser construído. As estruturas como estacionamento, auditório, bandejão e quadra poliesportiva não vão atender a demanda quando o corpo discente chegar à capacidade máxima, sem falar que as opções de extensão, intercâmbio e palestras, são bem escassas , comparadas com universidades mais tradicionais.”. A aluna Gabrielle diz que a reivindicações dos alunos partem exatamente desta premissa: “Basicamente nossas reivindicações foram a respeito da própria estrutura da universidade (…). Na minha concepção, o que eu sinto muita falta é da parte laboratorial, temos muita teoria, mas acredito que tínhamos que ver a prática de matérias teóricas como Histologia, Bioquímica e entre outras, acrescentaria muito mais no nosso aprendizado.”

Mesmo apoiando e participando ativamente da greve, quando questionados sobre a qualidade do ensino nas Universidades Federais os estudantes mostraram-se satisfeitos. “Acho que o ensino, pelo menos da graduação de Enfermagem que é a qual eu presencio, tem uma qualidade excelente, temos temas de matérias bem completos, nossa carga horária é superior a qualquer outra faculdade de enfermagem e professores renomados e influentes em hospitais de qualidade em São Paulo, e com linhas de pesquisa.”, declarou Gabrielle. O estudante Bruno também considera a UFABC um exemplo a ser seguido, “Considero a estrutura da UFABC eximia! Desconheço as estruturas de universidades mais antigas, mas garanto, se tiverem no mesmo patamar nossas universidades federais são um exemplo para o Brasil, não posso dizer um exemplo mundial, mas seguramente mesmo algumas das melhores instituições privadas do nosso país deixam muitíssimo a desejar frente à UFABC.

Estudantes também aderem ao movimento grevista e esvaziam a Universidade Federal de São Paulo

Cartaz colado em um dos Centros Acadêmicos do campus Vila Mariana da Unifesp justifica a ausência dos alunos na universidade

Quadro atual

A maioria das universidades que estavam paralisadas desde maio de 2012 retomou suas atividades neste mês de setembro, enquanto o resto já está com o retorno de suas atividades marcado. Mesmo assim, o ano letivo dessas instituições só deve se encerrar em janeiro/fevereiro do próximo ano, prejudicando os planos de muitos dos estudantes, professores e funcionários.

Das 57 universidades federais que participaram do movimento grevista, 20 ainda não possuem data definida para normalizar suas atividades curriculares. Na semana do dia 03 de setembro, o governo conseguiu assinar um acordo com a Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior (Proifes), mas outras duas entidades docentes que participaram ativamente do início da greve, o Andes (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino) e o Sinasefe (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Tecnológica), não aceitaram a proposta.

Grande parte dos estudantes encontra-se em situação como a de Ana Paula Moreira, que deveria estar cursando o 4º período de Fisioterapia na Universidade Federal de Alfenas – MG, mas devido à greve ainda está no 3º. A estudante voltou a ter aulas agora em setembro, com alguns professores temporários ainda e não sabe como vai ser a reposição de aulas na sua universidade.

Um pensamento em “E o tempo perdido?

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