Home

Por Renata Baboni

Abram-se as tampinhas, o espetáculo vai começar! O palco é o bar; o figurino, um avental repleto de broches; a plateia é a mais heterogênea possível e o roteiro é escrito pelo próprio autor, que também atua, dirige e edita as cenas. Com o cenário montado, a celebridade conclama a pinta de artista nato por meio da sua breve auto-apresentação: “Como eu respondo muito esse tipo de pergunta, já fiz um pequeno histórico, que é mais ou menos assim: eu me chamo Osmar Afrísio dos Santos, tenho 50 anos de vida, 37 de Rei das Batidas, três livros escritos, 8.200 cópias vendidas, sem lançamento, sem Jô, sem Hebe, sem a Folha de S. Paulo, sem o Globo e sem a Internet. Tenho curso de Pedagogia, de inglês, de francês, curso mediúnico, 1,77 metros de altura e 93,5kg, com 12kg acima do normal. Sou ex-remador, ex-corredor e ex-goleiro. Aí eu falo assim: não bebo, não fumo, não jogo, faço pouco uso de mulheres, não falo palavrão, não utilizo celular e Internet, quase não compro CD pirata, tenho abertas mais ou menos dois milhões e trinta mil tampinhas de garrafas, sendo 125 ao dia, descontando os dias de folga”.

Dono de um linguajar peculiar, Osmar se comunica nas mesas do bar por meio de palavras pomposas, trocadilhos, pinceladas de frases rápidas que sabe em diversas línguas e poemas autorais que saltam instantaneamente de sua mente. Em contrapartida a essa rapidez de pensamento, o comprometimento da fala devido à gagueira destaca-se em meio à vontade de ser compreendido, aguçando ainda mais o encantamento do ouvinte. Sabiamente, o artifício de distração usado por ele frente a essa adversidade é a gesticulação excessiva das mãos e a simpatia, que conquistam qualquer plateia.

Apelidado de Osmarnegro por estudantes de Geografia, Osmarxista por estudantes de Ciências Sociais e Osmarfrodita por estudantes de Biologia, todos da Universidade de São Paulo (USP), Osmar, como é normalmente tratado pela maioria do público que o prestigia, é o garçom mais antigo do bar e boteco Rei das Batidas, localizado no bairro Butantã, em São Paulo, a três quadras da USP, motivo pelo qual a assídua plateia é majoritariamente formada por estudantes e professores.

O contato com tais pessoas lhe rendeu um invejável currículo e despertou a busca por conhecimento nos mais variados assuntos. Por meio do bar, seu talento culminou em mudanças de hábitos, tornando-o um exímio leitor de livros e frequentador semanal de cinema. Fez cursos diversos – inglês, francês, curso religioso mediúnico. Participou de um filme, treinou corrida e remo por 17 anos na raia olímpica da USP, graduou-se em Pedagogia nas Faculdades Integradas Hebraico-Brasileira Renascença, escreveu livros e  recebeu patrocínio do bairro e até mesmo do São Paulo Futebol Clube.

Foi nomeado representante do bairro, passando a dar mais importância à vida das pessoas e a guardar objetos que transmitem boas recordações, tornando-se um legítimo colecionador de presentes recebidos no bar. Totalizou 1.500 livros, uma bagagem cultural, amigos, conflitos, uma religião, um trabalho, uma formação acadêmica e familiar, um sentido para a vida. No bar, já presenciou tiros, realizou sonhos, já pensou em suicídio e serviu personalidades.

“Já servi Zeca Baleiro, Leci Brandão, Orlando Silva, Marta, Genuino, Casagrande e outros. De autoridade, os mais importantes foram o Mussum, em 1977 – uma batida de maracujá, uma Brahma, uma dose de solar e uma porção de fritas. Outro foi o Slash, do Guns N’ Roses, em 1995, que eu fiquei sabendo que o cara era muito mais importante do que eu imaginava; o Raul Seixas, em agosto de 1989, servi uma coca e um whisky e a esposa dele tomou uma batida de morango. Mas a pessoa mais importante que já servi no bar foi a Clarice, filha do meu patrão. A importância dela na minha formação religiosa, espiritual, moral foi marcante.”

Osmar passou por três momentos traumáticos em sua vida. A primeira crise se deu na adolescência devido à morte dos pais. Osmar nasceu no interior de São Paulo, é o terceiro mais novo de oito filhos, órfão de mãe aos sete anos e de pai aos nove, fato que desencadeou uma gagueira considerável e intimidante na infância, a ponto de acarretar prejuízos escolares.

Após a morte dos pais, morou com o tio que era garçom do Rei das Batidas e intermediou o seu contato com o bar. Nessa época, um dos donos, Manoel, sensibilizado pela história de vida sofrida do garoto, convidou-o para morar com sua família e, posteriormente, o contratou como garçom. A adoção vigorou por 18 anos. Depois disso, comprou um terreno na Granja Viana, onde mora até hoje sozinho. O tempo amenizou suas dores e trouxe a amizade da filha do patrão, Clarice, o grande amor de sua vida. Por ser psicóloga, entendia suas dificuldades e o ajudava.

A segunda e mais impactante crise foi gerada pela morte do pai postiço. O terceiro conflito se deu pela insegurança em relação ao seu futuro pessoal e profissional. A carência afetiva e a exacerbada gagueira foram sanadas pela busca de ajuda espiritual, profissional e nas relações interpessoais no bar.

Em 1989, ingressou num curso religioso, sobre o qual relata ter sido preponderante na recomposição da sua identidade e melhora da fala. Posteriormente, foi amparado por fonoaudiólogas da USP, que frequentavam o bar e davam a ele dicas sobre técnicas de relaxamento muscular para o controle da gagueira. A partir daí, Osmar se redescobriu e aprendeu a usar o seu raciocínio rápido para procurar palavras similares e mais fáceis de serem ditas em um tempo menor.

Outra forma que encontrou de expressar o seu raciocínio inquietante, e por vezes interrompido pela dificuldade de falar, foi escrever. Em 1994, escreveu o seu primeiro livro, intitulado Sem rei nem bar, somente Osmar, expressando seu descontentamento por sofrer certos preconceitos. O livro foi um sucesso de vendas, totalizando 7 mil cópias vendidas. “Eu não queria mesmo ficar em bar e achava que o mundo tinha que ter algum rei e que tinha que ser eu. Foi a época da minha vaidade e das minhas pretensões. O livro foi um despejo amorfo de ideias e pensamentos”.

O segundo livro, Copos na mão e ideias em vão, lançado em 2007, vendeu 1.000 exemplares em menos de um ano e está esgotado. “Esse livro remete à brincadeira de espírito dos copos. Foi uma tentativa de ser escritor, mas me dei mal. Mas agora estou sendo original nas dedicatórias e no estilo de escrever, é um estilo próprio de fazer literatura de bar”.

Já em 2010, lançou o terceiro livro, Batidas, nossas vidas, o melhor, na visão do autor. “Esse livro tem uma mãozinha dos meus amigos do invisível, com certeza. Foram pedidos 750 exemplares. O Batidas, nossas vidas é um duplo sentido: o meu trabalho que é [servir] batidas e os problemas que batemos diariamente. No terceiro livro, parei de imitar autores e parece que a turma gostou.”

O poeta desenvolveu um método atrativo para as suas dedicatórias, que resume na seguinte cena dedicada ao comprador: “Este livro pode ser adquirido a um preço simbólico de 20 reais, junto com uma dedicatória romântica, religiosa ou social e acompanha um pacotinho de amendoim e uma latinha de cerveja. Se for homem, leva um abraço e para mulher, um beijo no rosto”. 

 Identidade cultural

A apreensão cultural do indivíduo corresponde a uma formação transmitida para toda a vida e depende de fatores como a família, a escola, os grupos sociais frequentados, entre outros.

É preciso entender que a formação educacional de Osmar não é a mesma do público que frequenta o bar, mas ele absorve aquele ambiente como pode e isso resulta em uma apreensão cultural até mesmo um tanto caricata. Sua vontade de pertencer àquele universo intelectual fizeram com que buscasse conhecimento onde lhe era possível: no caso, o bar e nos contatos lá estabelecidos, que o presentearam com cursos de línguas, aulas, etc. Isso, ao invés de lhe proporcionar o mesmo saber dos clientes, lhe trouxe uma nova forma de educação, de fazer poesia e de explorar o sensível. Se, por um lado, Osmar chega a ser engraçado tentando imitar poetas, por outro, ele é expressão fiel de uma cultura popular que muitos ainda têm dificuldade em reconhecer como legítima. Pela proeza do show desfrutado, tomo a liberdade de criar uma batida com o nome do garçom, levantando um brinde ao artista ali cultivado. Enciclopédia humana, mito. Osmar, a lenda viva do Butantã. No bar é ele o rei.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s