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Por Heloisa Ramos

Falar sobre solidão não é algo difícil quando se trata de uma cidade como São Paulo. Ainda que seja um assunto complexo, a realidade torna a questão mais visível. Como já dizia Clarice Lispector, “Minha força está na solidão”, e olhando por esse lado, para muitos, a solidão é algo essencial, pode ser uma escolha de vida. Mas para outros, ela é uma consequência.

Em meio a carros, correria, trânsito, stress, tecnologia, shoppings, lazer, falta de tempo, cultura e tudo o que uma metrópole pode oferecer, muitos paulistanos encontram-se sozinhos. A forma de vida acelerada que a maioria da população leva, altera as relações sociais tornando-as superficiais e líquidas. São cenas que podem ser porta de entrada à solidão mesmo diante de uma metrópole com milhões de habitantes.

Enorme, movimentada, solitária e desigual, em São Paulo estão espalhados moradores de rua que lidam com a solidão, enfrentam preconceitos, perigos e dificuldades. E, além disso, convivem com esquecimento de uma sociedade. Isso porque muitas pessoas não se dão conta de que nas ruas existe “gente como a gente” passando fome e frio; são pessoas que não se dão conta de que por trás dessa condição de vida existem histórias e causas que justificam o fato de alguém estar na rua.

Em geral, como apontam as pesquisas, a maioria chega às ruas por problemas de drogas e bebidas. Por questões de desemprego e até mesmo por desavenças e questões familiares. Segundo o sargento M – como ele mesmo se referiu – do Batalhão de Polícia do bairro da Aclimação, muitos dos moradores de rua fazem parte de um grupo que vem para São Paulo para buscar melhores condições de vida. O encantamento que a metrópole proporciona se esvanece com o alto com o padrão de vida exigido para viver com alguma dignidade. Aluguéis são muito caros e a concorrência por emprego é alta. A conseqüência disso é levar a vida na rua na expectativa de que isso mude até chegar em decadência total. O sargento afirma que ao chegar nesse nível, se torna mais difícil de haver mudança pelo fato de que ninguém quer dar emprego a eles. Os moradores de rua são vistos de forma muito negativa pela sociedade, não somente por não terem oportunidades, mas também pelo fato que eles se tornam uma ameaça a vizinhança em que se hospedam. Sargento M diz que a maioria dos serviços que a policia presta é para atender a pedidos sociais, ocorrências de “bairros“ como por exemplo atender ao chamado das pessoas por medo e incômodo com a presença dos moradores de rua.

“Em 90% dos casos nada esta acontecendo de fato. Vivemos numa sociedade em que tudo dá medo; qualquer pessoa que passe um tempo próximo a residências pode representar uma ameaça. Com os mendigos não é diferente. Famílias em geral, além de se sentirem assim, não querem que algum deles fique parado na frente de suas casas”.

A situação se agrava por, geralmente, haver drogas e bebidas com os moradores de rua. O sargento afirma que “o que aparecer” para eles, é possível de ser usado.

Nessa busca pelas razões de alguém viver na rua, fora entrevistado um morador – que preferiu não se identificar – expulso de um hospital. Assim como seu nome, a razão para isso ter acontecido também não foi falada. Mas por conta disso, hoje ele tornou-se um morador de rua, sem vínculos, sem contato com outras pessoas. O senhor que tinha dentes bem brancos e pernas machucadas, disse que ninguém para falar com ele, mas estar sozinho não pareceu um grande problema. Todo dia no mesmo lugar, na mesma posição esta o morador da rua Dr. Arnaldo, sem nenhum tipo de companhia.

Um dos motivos para isso acontecer é a forma negativa que os moradores de rua são vistos. Isso se reflete na falta de reconhecimento e na forma de tratamento que eles recebem. Um exemplo disso é chamá-los simplesmente de mendigos, o que é um equívoco, pois eles são considerados uma “população em estado de rua”. Segundo o Decreto nº 7.053 de 23 de dezembro de 2009, que instituiu uma política nacional para tais moradores, eles fazem parte de um grupo heterogêneo que vive diante da pobreza extrema, sem moradia e com poucos vínculos, e justamente por isso a população em estado de rua é um dos maiores reflexo da solidão em São Paulo.

Diferentes fontes, como a “Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) apontam que a maioria dos moradores de rua são homens, negros e estão na fase adulta – em torno dos 25 e 44 anos.  

A pesquisa da FIPE aponta que os bairros da Republica e da Sé são os que possuem maior concentração de moradores de rua. Mas a presença deles esta tanto em bairros humildes quanto nos de alto nível. O número de moradores também é alto no Bom Retiro, Santa Cecília e Mooca.

Essa multidão que pode parecer escondida convive lado a lado com pessoas de diferentes classes, o que demarca a desigualdade social. Mesmo que passem despercebidos aos olhos de muita gente, vários moradores de rua estão sempre no mesmo canto. A solidão e a estabilidade podem tornar a vida monótona e mais triste, justamente por isso, muitos integrantes da população em estado de rua não fica muito tempo parado em um mesmo lugar. Esse é um fenômeno que pode ser considerado como um nomadismo. Tal deslocamento é uma forma de não ficar acomodado a uma situação, de tentar melhorar de vida e também uma tentativa de amenizar a solidão.

Josuel Araujo é um grande exemplo disso. Morou no ABC paulista e tinha escolha política petista. Até que um dia escreveu um conto sobre uma família que não agradou a determinadas pessoas. Este fato lhe prejudicou de tal forma que o fez tornar-se morador de rua, durante três anos. Neste período, morou em diferentes cidades, e em São Paulo costumava ficar na Armênia. Essa transição era uma tentativa de mudar sua situação. Antes de estar em situação de rua Josuel era usuário de drogas mas afirma não ter usado durante esses três anos. O que só lhe trouxe benefícios já que lida com um problema psíquico, a esquizofrenia Os anos se passaram e sempre que precisou, contou com a ajuda de seu irmão, já que não constituiu família e nem teve filhos. Porém, Josuel diz ter lidado com uma forte solidão e que ela era muito mais evidente em datas comemorativas, como o natal e seu aniversário. A força de vontade era tão grande que mesmo sozinho, sempre procurou conversar com as pessoas e ir atrás das coisas. A solidão e os perigos da rua nunca o impediram de viver a vida. Comia os restos de comida dos restaurantes, dormia em albergues quando possível e ainda sim conseguia lavar suas roupas. O que para ele, era algo fundamental, já que prezava estar bem vestido e ter uma boa imagem. Virou-se muito bem, na medida do possível, e evitou estar com outras pessoas que estavam na mesma situação que ele; evitou estar junto dos “maloqueiros”, como ele mesmo faz referencia. Josuel admite que moradores de rua não são bem vistos, e não somente por um preconceito da sociedade, mas também por acreditar que muitos deles chocam aqueles que estão a sua volta. Chocam por usarem drogas. Chocam por entrarem em certo nível de loucura, que é capaz de assustar. Chocam devido a suas roupas. Mesmo com o distanciamento dessa realidade, o ex morador de rua defende que todos merecem respeito. Isso fica claro ao demonstrar indignação ao citar ocorrências de moradores que apanharam de entidades superiores, simplesmente por aparentar algum tipo de ameaça a alguém.  A forma de vida na qual eles levam pode chocar a sociedade, mas isso não justifica agressões e nem representa de fato um perigo.
Dessa maneira, afastando-se de uns e aproximando-se de outros, que Josuel chegou a um albergue da rua Armênia que mudou sua vida pois foi lá que percebeu que tinha direitos e que com eles conseguiria levar uma vida melhor. Hoje em dia trabalha como vendedor da revista OCA’s na rua Ministro Godói, próximo a Pontifícia Universidade Católica. Mesmo com as dificuldades Josuel conseguiu superar, aluga um quarto para dormir e criou diferentes formas de vinculo. A solidão esta longe de ser um problema com seu bom humor e força de vontade.

       Seja no caso da população em situação de rua, como qualquer outra camada que lida com a solidão, o problema das drogas passa a ser mais comum. Em muitos dos casos a droga aparenta ser uma solução para os problemas; ela se torna uma distração, um fator de esquecimento e um meio para lidar com o sentimento de solidão. Os moradores de rua estão mais vulneráveis a isso e principalmente, mais vulneráveis ao uso de drogas de pior qualidade, o que propicia que eles tenham mais problemas de saúde.

Por estarem sozinhos em muitas ocasiões, é comum caminhar por uma rua ou avenida e ver algum deles passando mal – seja algo do menor intensidade até convulsões e morte – sem ninguém que possa socorre-los. Conviver com a solidão não é somente conseguir lidar com um sentimento, com um vazio; é também ser obrigado a ser independente para resolver qualquer tipo de imprevisto ou problema, principalmente os de saúde.  Segundo o MDS, a AIDS/HIV, problemas de visão/ cegueira e problema psiquiátrico/mental e hipertensão,são problemas frequentes nas populações em situação de rua.

            Talvez a solidão seja um dos problemas da modernidade, e isso não inclui apenas a população em situação de rua; empresários, jovens, donas de casa….os problemas de um dia a dia corrido podem ser tão variados, as relações se simplificaram tanto e a alienação é tanta, que a estar sozinho ou lidar com a solidão é algo comum numa capital como São Paulo.

A Internet, nos dias de hoje, passou a ser um passatempo para aqueles que se sentem sozinhos ou afastados do mundo. Ela diminui distâncias, aproximou pessoas mas também rompeu com o contato, a presença que, mesmo que o tempo passe, continuam sendo fatores essenciais para que amenizar a solidão. No caso dos moradores de rua, a Internet e a tecnologia em si, fazem parte de outra realidade, esta longe de ser um passatempo e de fazer parte da vida dos que vivem nas ruas. A condição de vida em comum é justamente o que aproxima aqueles em situação de rua e o que pode ser capaz de amenizar um grande problema. Muitos dos moradores ficam juntos durante o dia, talvez seja esta uma forma do dia passar mais rápido; talvez seja este um jeito de sobreviver. Mas durante a noite a maioria deles sai a procura de um lugar, um “cantinho” que sobra para passar a noite. É também nos albergues que moradores de rua se unem, compartilham vivencias e lidam com a solidão.

         As dificuldades são diversas e a descriminação é grande mas mesmo assim existem albergues, ONG’s, e cidadãos a fim de ajudar essas pessoas. O maior desafio não é somente manter a vida na rua, é também lidar com o sentimento de solidão que ela traz. Melhorias a estas pessoas não aconteceriam do nada, mas se boa parte deles tivesse conhecimento dos direitos que possuem, fossem atingidos pelos programas governamentais, recebessem os benefícios da aposentadoria e do bolsa família, que tem direito, já seria um grande passo para que a situação mudasse de fato.

Um pensamento em “Humanos invisíveis

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