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por Gabriella Justo e Thaís Folgosi

               Brandon Sullivan é um homem na faixa dos 30, atraente, bem sucedido na carreira, de gosto refinado, que vive na cidade de Nova Iorque em um apartamento de luxo. Apesar de ser um personagem do filme de 2011, “Shame”, do diretor irlandês, Steve McQueen, ele se parece com muitos indivíduos reais, apesar de viverem em circunstâncias diversas. Sua falta de controle e a ansiedade que sente relacionado ao sexo fazem com que sua vida profissional e pessoal, além da sua psique, sejam afetadas. Embora a película não trate apenas da compulsão sexual, ela mostra o cotidiano de um dependente.

          Tal realidade atinge 5% da população mundial, de acordo com uma pesquisa feita pelo Aise (Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo), uma área de pesquisa do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Devido a essa pequena porcentagem e ao tabu que o sexo ainda é em nossa sociedade, a patologia é negligenciada. Sigmund Freud, em seu livro “Totem e Tabu”, explica que o tabu tem dois significados contraditórios, de um lado seria o “sagrado” e por outro o “proibido”, e talvez esse seja o motivo das pessoas temerem entrar em contato com ele. O sexo se enquadra nesse contexto, uma vez que na Idade Média foi lhe atribuído o sentido de ato pecaminoso, e isso até hoje incomoda boa parte da população.

        A banalização do sexo hoje em dia é um grande fator que impulsiona essa compulsão. Qualquer novela ou filme apresenta uma cena de sexo apenas como uma atitude à toa e isso rompeu o tênue limite que diferencia a pornografia do erotismo. De acordo com o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, pornografia é a vulgarização do sexo, aquilo que fere a moral, o pudor ou os considerados bons costumes. Já o erotismo é relacionado ao amor sensual e a libertinagem.“Pornografia é o erotismo dos outros” definiria de uma maneira mais objetiva o escritor francês Robbe-Grillet. Além disso, com o surgimento da Internet, o acesso à pornografia foi facilitado, contribuindo para essa compulsão que se torna visível em sites pornográficos ou de relacionamentos.

         Porém, não falar sobre a questão não resolve o problema. Em 2006, iniciou-se o tratamento ambulatorial de sujeitos com comportamento sexual compulsivo no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. E em 2010, a equipe do médico Marco Scanavino encabeçou uma pesquisa devido aos poucos estudos com amostragem sobre o assunto.  A pesquisa vem recebendo pessoas de todo o país, e essas passam por uma triagem com psiquiatras para diagnosticar a doença e começar o tratamento que é totalmente gratuito. Segundo a enfermeira Julie Cristine Vieira, de 22 anos, assistente do médico Scanavino: “A maior parte dos que nos procuram são homens, mas não se pode dizer que a doença não atinja mulheres […], há um grande preconceito por parte da sociedade em assumir que uma mulher sofre deste transtorno”. Além disso, ela justifica a maior quantidade de homens, a um maior material pornográfico destinado ao público masculino e disse também que a maioria dos pacientes são de uma classe social alta.

Tratamento

          Antes de tratar o comportamento sexual como uma doença é necessário diferenciá-lo de uma vida sexual ativa. Pois, ela se torna uma patologia quando tal comportamento começa a atrapalhar o cotidiano do indivíduo. “Entende-se que o problema se agrava insidiosamente, passando de uma fase inicial de aceitação, para uma fase mais aguda, mas com negação, chegando a uma de piora com consequências adversas em áreas da vida”, complementa Scanavino. Também é preciso estabelecer critérios, pois existem diversas enfermidades relacionadas à sexualidade e que recebem várias denominações. Uma delas é o Impulso Sexual Excessivo – ISE, que se enquadra entre os transtornos obsessivos compulsivos, e geralmente, começa no final da adolescência para o início da idade adulta. O dependente, neste caso, tem pensamentos constantes sobre sexo, ou seja, que se dão a todo o momento e em qualquer lugar, e a exemplo deles, labutam sobre como tornar o ato mais prazeroso, ou como realizar uma fantasia sexual.

          O compulsivo busca o sexo e a masturbação com frequência, tampouco importa aonde esteja, se no emprego, em um lugar público, etc. O que mostra outra característica do Desejo Sexual Hiperativo que é a falta de controle, “O paciente se percebe não controlando mais os seus impulsos, então por exemplo, às vezes ele tenta se controlar em seu local de trabalho e tem problemas por não conseguir, afetando a sua produção” conta a enfermeira Vieira. Isso pode prejudicar a vida do doente, que não discerne se seu comportamento é adequado socialmente, colocando-o, muitas vezes, em situações constrangedoras.

          A doença também está essencialmente relacionada à ansiedade, pois seus portadores não conseguem controlá-la, o que pode até causar disfunção erétil nos homens enfermos. Também causa falta de concentração quando se trata de afazeres que não tem relação ao sexo. O que resulta numa perda da liberdade, já que a dependência conduz a vida da pessoa.

          O enfermo tampouco procura o sexo apenas pelo prazer, mas principalmente por necessidade. O sexo virtual (salas de bate papo erótico), ou por telefone, a pornografia (Internet e revistas), o sexo pago (garotos e garotas de programa), são formas de satisfazer o desejo sexual. Um indivíduo heterossexual pode até ter relação homossexual motivado pela procura de novas experiências e uma maior satisfação. As sensações antes, durante e após o ato sexual variam, de tensão, excitação, alívio, culpa, frustração a remorso, são comuns.

      Os riscos que um dependente corre são vários, podendo contrair Aids e outras doenças sexuais transmissíveis, pela atividade desprotegida. Também pode machucar física ou emocionalmente um terceiro. A exemplo disso, os casos de infidelidade, quando o compulsivo mesmo estando em um relacionamento, pratica o sexo com outros parceiros. É importante notificar que a traição, neste caso, não é intencionada, já que a pessoa não premedita suas ações, tendo atitudes imediatistas relacionadas ao sexo.

          O ato de se masturbar, ter diferentes parceiros e/ou relações extraconjugais, e o acesso à pornografia não são necessariamente nocivos, podem apenas significar uma vida sexual ativa. No caso do compulsivo a busca por qualquer parceiro, pode forçar amigos, indigentes ou parentes a praticar a atividade sexual. O parceiro, portanto, deve compreender que lida com um impulso incontrolável e não deve considerar a atitude sacana. Ademais, o compulsivo pode vir a cometer estupro, pedofilia e outros delitos sexuais. “A pessoa vai ser sempre punida por aquilo que ela faz, mas se o paciente está em tratamento e comete esse tipo de delito, vai ser levado em consideração o diagnóstico do psiquiatra no julgamento. Ele não seria absolvido devido ao distúrbio, mas o crime será mensurado até que ponto o paciente está debilitado ou não para fazer suas escolhas” explica Julie Vieira.  Porém, isso não significa, necessariamente, que eles sejam violentos, logo, nem sempre podem ser relacionados a casos de abuso sexual.

          Primeiramente, para que o tratamento se inicie, é preciso que o próprio dependente reconheça a necessidade de ajuda. Porém, há ainda receio por parte dos depentes em buscar auxílio, por se tratar de um assunto tabu. “O portador do quadro se encontra dividido entre buscar ajuda e o medo de ser julgado moralmente, bem como o medo de perder a libido repentinamente. Porém, nossa abordagem visa deixar o paciente à vontade para trazer sua problemática. O tratamento é oferecido mas não imposto”, acrescenta o doutor.

          “Quando o paciente nos procura, pedindo ajuda, ele se encontra em uma fase na qual já percebeu que aquilo lhe é prejudicial” afirma a enfermeira Julie Vieira. Caso o portador esteja em um relacionamento, o seu parceiro deve também reconhecer a situação. O apoio e o acompanhamento de familiares são essenciais. Entretanto, não há cura para a compulsão, assim como outras patologias psíquicas, o tratamento busca desenvolver ou devolver ao doente seu autocontrole. “Trabalhamos com o conceito de manutenção e prevenção de recaída”, diz o Scanavino. Porém a sexualidade apresenta diversas patologias, portanto, seu trato depende do tipo da síndrome. De qualquer modo, ele funciona assim como em outras doenças do gênero, podendo conter terapia (individual e/ou grupal), psicoterapia, e uso de medicamentos, dependendo do nível e do tipo específico tratado. Quanto à medicação, busca-se o controle e a diminuição da ansiedade e da libido através de hormônios. O que impede a busca de auxílio médico, geralmente, é a questão da vergonha de se expor e admitir a doença.

          Uma patologia que atinge sobretudo a população masculina, apesar do aumento de casos em mulheres, a falta de divulgação quanto à doença, seus sintomas, como detectá-la, o processo de tratamento, aonde buscar auxílio, pode comprometer a vida do dependente e daqueles com quem convive.

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