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Por Juliana do Prado e Rosa Donnangelo

Com a crescente demanda de associados aos convênios médicos iniciada no período de 2008 á 2011 com a compra de diversos conglomerados de saúde, principalmente pela Amil (Assistência Médica Internacional S/A), ocorre um déficit entre paciente x estrutura hospitalar na cidade de São Paulo. Por este motivo, problemas como o mau atendimento, falta de vagas em hospitais, filas no atendimento do pronto socorro, baixo valor pago por consulta aos médicos pelos convênios, e as longas esperas para marcação de consultas, resultam em um atendimento desumanizado e precário. Uma das causas destes problemas é o monopólio de empresas de saúde que fecharam hospitais, clínicas, e mesmo assim no meio deste colapso, insistem em vender planos de saúde.

Na projeção realizada no último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2010, foi constatado que cerca de 30,6 milhões de usuários dos planos/seguros de saúde residem no Estado de São Paulo, e muitos desses planos contratados são empresariais com 59%, ganhando da contratação do individual que representa 39%.

Outro problema alarmante é a questão das variações das opções de hospitais, clínicas laboratoriais e no nível de atendimento dentro de um mesmo plano do sistema particular. Em tabelas de vendas disponíveis em seguradoras de planos de saúde,  é possível notar que a partir do momento em que um cliente contrata o plano mais alto da categoria, que custa em média R$ 3.339,60 (59 anos ou +), tem o direito de utilizar os serviços do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e Hospital Albert Einstein com o conforto de um quarto individual, enquanto o contratante do mesmo convênio mas, de um nível de um plano inferior, paga  aproximadamente R$871,20 e tem direito a hospitais como Albert Sabin e Hospital de Guaianazes, com acomodações em enfermarias, ou seja, quartos compartilhados.Mas mesmo com essas discrepâncias de valores, o mau atendimento se equivale nos dois casos, gerando insatisfação por parte dos pacientes.

Principais problemas enfrentados pelos pacientes

Suma do patamar negativo alcançado pelo sistema. (Infográfico:Datafolha/APM)

Em uma recente pesquisa realizada em Agosto de 2012 pelo Instituto de Pesquisas Datafolha á pedido da APM (Associação Paulista de Medicina), foram entrevistadas 1943 pessoas que registraram os principais problemas encontrados no sistema particular de atendimento médico nos últimos 24 meses. Um dos piores resultados revelados é que 77% (7,7 milhões) da população da cidade de São Paulo tiveram problemas com a utilização dos serviços no plano de saúde. Os mapeamentos mostram que a atual situação dos planos de saúde é crítica, já que são alvos constantes de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor – cerca de 76% -, como o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e o Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor).

Infográficos

Em infográficos divulgados pelo Instituto de Pesquisas Datafolha, revelam os principais problemas encontrados pelos usuários do sistema particular de saúde:

(Infográfico:Datafolha/APM)

(Infográfico:Datafolha/APM)

(Infográfico:Datafolha/APM)

(Infográfico:Datafolha/APM)

(Infográfico:Datafolha/APM)

(Infográfico:Datafolha/APM)

Situações como estas demonstradas nos infográficos, acontecem freqüentemente com milhões de usuários, como foi o caso da empresária Patrícia Nora, 40, que no ano de 2010 sofreu com o descaso da Medial Saúde, que atualmente pertence á  Amil , no momento em que sua filha necessitou realizar uma operação na cartilagem do joelho, e que constantemente era boicotada por ser uma contratante deste convênio: “ Toda vez que a minha filha passava em algum médico para marcar a cirurgia, eles diziam que não atendiam mais a Medial, porque eles não pagam nem as consultas e muito menos as cirurgias aos médicos.Na terceira vez, eu cansei.Decidi procurar um médico particular,e fui em busca de uma autorização na empresa para o pagamento de futuros reembolsos, mas desde o início, briguei muito com eles, pois eles não queriam me fornecer esta autorização.Depois de um tempo, consegui este documento e a minha filha fez a cirurgia, paguei

Em meio ao descaso, muitos procuram o serviço público de saúde como meio de saída para a resolução dos casos.(Infográfico:Datafolha/APM)

o médico e a Medial ‘pagou’ o hospital. Mas três meses depois que ela estava se recuperando,recebi uma conta do hospital no valor de R$16.000 que é referente á prótese que foi usada no joelho dela, sendo que foi autorizado ser feito pelo plano de saúde, e ainda estão me cobrando… Até hoje não recebi nenhum valor do “sistema de reembolso”.Tudo isso aconteceu na transição da compra da Medial pela Amil.Mas, atualmente tenho problemas com diferenciação no atendimento em hospitais e consultas médicas, sendo que eu pago quase R$5.000,00 de convênio.Faço reclamações, mas nunca consigo resolver nada.É uma porcaria!”.

Médicos na defensiva

Na última quinta feira, 6 de setembro, médicos do sistema privado de saúde do Estado de São Paulo realizaram uma paralisação de suas funções por 24h. Como forma de protesto e reivindicação por melhores condições de trabalho dentro da política e burocracia dos planos de saúde, os profissionais não trabalharam, exceto em casos de emergência.

O sistema privado de saúde gira em torno do lucro, e quem mais sofre são os pacientes. A venda dos planos de saúde acontecem sem limites pré-determinados e é esse tipo imprudência que congestiona o sistema e traz consequências graves: o paciente paga caro por um plano que não oferece bom atendimento por parte dos médicos e que demora a autorizar cirurgias e exames, colocando-o em risco, na maioria das vezes. O médico que atende por esses planos ganha pouco e não tem autonomia para exercer a medicina séria, o atendimento humanizado.

 Solução?

As agências reguladoras exercem papel fundamental no que diz respeito a tornar públicos problemas de diversas instituições, mas agem com uma abordagem ampla, coletiva desses problemas. O objetivo é melhorar como um todo a qualidade do serviço prestado por essas instituições. Em contrapartida, o PROCON atua na solução de casos individuais. Por exemplo, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) cabe verificar a atuação das operadoras de planos de saúde bem como regular a relação entre os prestadores do serviço de saúde e seus consumidores.

Uma nova alternativa

Em meio ao caos no serviço de saúde, um novo nicho surgiu para tentar suprir a lacuna existente nos sistemas privado e público, é o chamado “Dr. Consulta” que fornece o serviço de saúde varejista para os pacientes que são constantemente lesados pelos dois sistemas.

O “Dr. Consulta” foi criado em janeiro de 2011 pelo administrador Thomaz Srougi e é dirigido pelo médico Dr.César Camara – diretor do Centro de Inovações em Medicina do Hospital Alemão Oswaldo Cruz -, que têm como principal objetivo oferecer um atendimento clínico privado á preços acessíveis – consultas variam de R$40 á R$60,00 –, e em busca de um tratamento mais humanizado, prática dificultada pelas pressões dos convênios exercidas sob os médicos. Além das consultas de diversas especialidades como clinico geral e cirurgia plástica são oferecidos aos pacientes exames clínicos, de imagem, micro procedimentos e tratamentos. Dependendo do número de serviços prestados, o parcelamento pode ser realizado em até 12 vezes no cartão de crédito com direito ao retorno gratuito. Além disso, logo ao chegar a clinica, o paciente é atendido em até 10 minutos, passando por uma pré-consulta e logo é encaminhado a especialidade desejada, com consultas que duram em média 40 minutos.

O fundador do Dr. Consulta Thomaz Srougi (á frente) e o diretor da clínica Dr. Cesar Camara (ao fundo), uniram a experiência administrativa e a medicina para criaram uma nova alternativa para os usuários do sistema de saúde.(Foto:Daniel Teixeira/Agência Estado) 

A primeira clínica foi inaugurada no bairro de São João Clímaco, próximo á comunidade de Heliópolis e de uma unidade da UBS/AMA do Sacomã. Inicialmente o serviço visava atender à comunidade e ao redor da região, mas surpreendentemente, pessoas de regiões mais distantes como Paraíso e São Bernardo do Campo, aproveitam a facilidade e proximidade do transporte público para se consultarem no sistema.

Em entrevista ao Jornal Protóttipo, Thomaz Srougi, fundador e CEO da Clínica Dr. Consulta esclarece como surgiu a idéia de implantar o conceito da clínica sem perder tempo em criar um modelo ideal, preservando fatores essenciais de modelos já existentes: “Sempre trabalhei com empresas e investimentos e sempre percebi que existia uma grande oportunidade pra fazer alguma coisa na área da saúde. Além disso, eu sempre quis fazer alguma coisa que tivesse alto impacto social, mas que também gerasse lucro. Comecei então a estudar o setor e percebi que lá fora existiam alguns modelos que funcionavam bem, um deles na Guatemala e outro no México, e então revolvi copiá-los e adaptar no Brasil.”

Atualmente, a equipe é formada por doze médicos qualificados para atender o paciente com comprometimento e atenção, visando o melhor atendimento. Srougi revela que: “Há muita procura dos médicos, porque muitos têm os direitos restringidos pelos planos de saúde e eles enxergam o “Dr. Consulta” como uma oportunidade para exercer a medicina de forma digna, com remuneração adequada. Muitos dos médicos que procuram a gente querem devolver alguma coisa pra comunidade, tentando ajudar as pessoas, impactando de uma forma positiva no sistema de saúde que é infelizmente, muito precário no Brasil.”

O atendimento tem crescido e já motiva a expansão e a próxima meta é avançar na instalação de novas clínicas em outras regiões da cidade.

Em visita a clínica modelo em Heliópolis, à reportagem do Protóttipo comprovou que muitos pacientes saíram

Fachada da clínica modelo “Dr. Consulta” em Heliópolis.Empresa busca como meta a expansão do sistema em outros bairros da cidade.(Foto: Rosa Donnangelo)

da clínica satisfeitos, como foi o caso da aposentada Dona Auxiliadora, 72, que saiu do bairro do Ipiranga atraída pela reportagem do Jornal O Estado de S. Paulo (22 de Julho de 2012), em busca de um atendimento mais humanizado. A aposentada contou que enquanto trabalhava, possuía um convênio médico, mas quando saiu do emprego não teve condições financeiras para arcar com os altos preços cobrados pelos convênios. Por este motivo, utilizou o sistema público de saúde, e relembra: “Fazia todos os exames que o médico me pedia, mas quando eu levava, ele nem olhava os exames e nem a minha cara”. Cansada de ser mal atendida, foi em busca do Dr. Consulta e se surpreendeu com o atendimento: “Pagaria quantas vezes eu precisar, só pelo fato do médico ter conversado comigo durante uns 40 minutos e ter olhado pros meus exames, me sinto satisfeita, coisa que o atendimento público não faz”.

Um dos maiores desafios da empresa é reforçar a comunicação para que a população entenda que este novo sistema é viável. Em uma pesquisa encomendada pela empresa, demonstrou que apenas 10% dos moradores do bairro sabem o que é o Dr. Consulta. O principal motivo deste desconhecimento é que na maioria das vezes elas supõem um valor, que de fato não é praticado pela empresa, além da desconfiança que é gerada em torno da qualidade e do preço do serviço, já que possuem uma visão negativa do SUS e do mercado médico em geral. Uma das tentativas para solucionar este problema é por meio da propaganda “boca a boca” entre os pacientes que já utilizaram o serviço.

Porém, foi possível notar que muitos dos moradores desconhecem esse novo sistema, e enquanto a reportagem ficou na fachada do imóvel, muitos caminhavam com os olhares atentos e curiosos, já que a estrutura e o estacionamento lotado de carros chamavam a atenção, fazendo com que várias pessoas parassem para perguntar “O que é esse Dr. Consulta?” ou simplesmente entravam no local, saindo com um folheto informativo que é fornecido pelas recepcionistas.

Uma moradora de Heliópolis que não quis se identificar, esclareceu como teve conhecimento da clínica: “Passei aqui na avenida e resolvi entrar. Marquei uma consulta, e passei pela primeira vez hoje. O médico parece ser bom, vou voltar outras vezes.”

Thomaz Srougi sugere como solução para a atual crise no sistema privado de saúde, a execução de projetos que se desenvolvam conforme o tempo: ”Eu sugiro que os brasileiros percam menos tempo discutindo qual é o modelo ideal, que eles gastem mais tempo executando, implementando modelos que não são ideais hoje, mas à medida que eles operem os negócios, esses modelos possam ser aprimorados. O brasileiro é muito de papo, e a gente geralmente, é muito ruim de execução.”

 

Um pensamento em “Saúde pública e privada sem remédio

  1. O problema é enorme, eu particularmente tive problemas graves e estou até agora esperando solução. Ótima reportagem meninas, parabéns!

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