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Por Murilo Cepellos, Lucas Turco, Leonardo Albuquerque

        “Governo turbina receitas para esportes olímpicos”, “Brasil inaugura novos centros de treinamento em quatro capitais nordestinas”, “Ministério do Esporte cria programa de capacitação para treinadores de 12 modalidades”, “Patrocinadores apostam em jovens atletas”. Todas essas manchetes ainda parecem ser um sonho distante para um Brasil que ama o esporte, mas apenas um esporte.

        Um País movido por ídolos momentâneos, atletas que surgem das mais improváveis circunstâncias, e com a mesma rapidez que encantam a torcida, são esquecidos, e, com eles, se perde a possibilidade de construir um legado. Com falta de apoio e de estrutura, as modalidades olímpicas enfrentam dificuldades crônicas e se mantém como eternas coadjuvantes no país do futebol.

        A falta de uma cultura olímpica nos impede de figurar entre as grandes potências do esporte a curto e médio prazo. Não se trata de um “complexo de vira-lata”, e, sim, do abismo notável ao se comparar as instalações americanas ou chinesas com os escassos centros de treinamentos brasileiros, limitados aos grandes centros.

        A Grã-Bretanha é o maior exemplo de que investimento com planejamento e seriedade gera resultado. O país terminou os Jogos Olímpicos de Atlatanta-1996 com apenas uma medalha de ouro e amargando a 36° colocação. Em 2012, quando a competição foi disputada em Londres, a equipe da casa melhorou consideravelmente seu resultado terminando na terceira posição, com 29 medalhas douradas.

        A possibilidade de sediar a competição pela terceira vez foi um incentivo importante para o governo britânico impulsionar as políticas esportivas do país. O Brasil não seguiu os mesmos passos e apresenta um quadro diferente. Sem um investimento eficiente em longo prazo, as expectativas brasileiras para 2016 não se comparam ao terceiro lugar conquistado pelo país europeu.

         A falta de estrutura e investimento são os dois principais impedimentos para o desenvolvimento efetivo dos esportes olímpicos no país. Patrocínios de empresas são quase inexistentes e o apoio do governo se limita a três iniciativas ineficazes se comparados à necessidade.

        Na ginástica, por exemplo, existe apenas um centro de treinamento de qualidade, inaugurado recentemente no Rio de Janeiro. “Estrutura eu acho que todo mundo já sabe, não temos nada. No caso da ginástica, na maioria das vezes são os pais das crianças ou o próprio clube que bancam todos os gastos, porque a prefeitura ou as confederações não apoiam. Eu espero que agora, com a medalha do Zanetti nós consigamos abrir as portas para mais investidores”, comentou Marcos Goto, treinador de Arthur Zanetti, medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres-2012.

          O técnico também critica a falta de apoio das políticas públicas: “Hum, o governo? Vou te dar um exemplo: Trabalho com o Arthur desde 1998, e já em 2000 conseguimos alcançar o pódio do Campeonato Brasileiro pré-infantil. Desde então, atingimos resultados relevantes, apesar disso o Arthur conseguiu a bolsa-atleta do governo há apenas um ano, quando ele já era vice-campeão mundial”, finalizou.

         Apesar de todas as dificuldades, o esporte ainda continua sendo umas das poucas alternativas de ascensão social para uma classe menos favorecida do nosso país. Essa possibilidade de mudança de vida é uma das virtudes do esporte. No entanto, o contraponto vem na necessidade de resultados que obriga o atleta, muitas vezes, a se esforçar para atingir metas em troca de um prato de comida, e é descartado se não alcançar o resultado esperado.

       Centenas de talentos são desperdiçados pela ausência de transporte público adequado. “Muitas vezes o garoto tem que se locomover 40 km para ir treinar e o mesmo para voltar. O atleta sai da escola 12h, chega no ginásio às 14h, treina até às 18h e vai retornar para casa só às 21h. É uma rotina muito dura, não há ninguém que consiga fazer isso diariamente e acabam desistindo”, revelou Marcos Goto.

        O investimento dos clubes, tão necessário para as modalidades, se faz presente principalmente, em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, com o Minas Tênis Clube, Esporte Clube Pinheiros e o Clube de Regatas Flamengo. As equipes de atletismo, vôlei, handebol, basquete, natação, entre outros esportes olímpicos, vencem competições internacionais ajudando a atrair mais praticantes em todo território nacional. Se compararmos os níveis de audiência entre o futebol e os demais esportes, podemos concluir que a diferença entre ambos é enorme. De acordo com o editor da Máquina do Esporte, Guilherme Costa, a comparação é inviável: “O futebol é transmitido em faixas nobres da grade da TV aberta. Além disso, é a modalidade com mais apelo de mídia no Brasil. Outros esportes ocupam faixas menos atraentes na programação, com menos espaço e sem horários fixos. É mais difícil conseguir público assim”.

        Mauricio Stycer, um dos fundadores do jornal Lance!, tem uma opinião forte sobre a falta de programação esportiva nos canais gratuitos: “A população só gosta de futebol, porque só assisti o futebol. A chance de acompanhar outras modalidades nunca foi dada ao povo brasileiro, a não ser quando haviam grandes ídolos. Como saberemos se gostamos de basquete se nunca tivemos a oportunidade de assisti-lo”.

        A situação financeira brasileira vem evoluindo drasticamente nos últimos anos, a ponto de assumir o posto de sexta economia mundial. Em meio a esse contexto, o país sediará a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, e terá a chance de mostrar a todo o mundo seu avanço e sua capacidade de formar grandes atletas.

Ocasião semelhante à ocorrida com Estados Unidos e China, que ascenderam mundialmente tanto no âmbito econômico quanto no esportivo. O Brasil vê a possibilidade de seguindo o exemplo, investir de tal maneira que se torne também uma potência olímpica. “O mercado brasileiro vive um mundo sem precedentes, tanto pela economia quanto pela presença dos megaeventos, em um horizonte de curto prazo. Tudo isso criará um boom sobre o esporte no país. Proporcionando por mais investimento, mais interesse e mais envolvimento. O desafio é transformar isso em desenvolvimento para o esporte, dependendo muito de projetos de gestão”, concluiu Guilherme Costa.

Paralimpíadas – o desafio é ainda maior

        As Paralimpíadas de 2016 podem não deixar um legado aos seus atletas. Mesmo pouco reconhecidos por empresas, mídia e governo, os jogos são exemplos de sucesso e superação.

        “Esqueça tudo o que você pensava saber sobre humanos. Conheça os super-humanos”. Parte de um anúncio exibido em 78 diferentes canais do Reino Unido, a frase reflete um conjunto de investimentos estruturais e midiáticos promovidos pelo governo inglês, em parceria com o comitê paralímpico, atraindo não apenas a participação da população para o evento, mas também patrocinadores aos atletas. Seguindo uma lógica inversa, a atenção e o incentivo destinados pela mídia, empresas e governo brasileiro, podem ser considerados irrisórios se comparado aos resultados obtidos pelos atletas.

        Entre os principais atletas estão Daniel Dias e André Brasil, que, após solidificarem suas carreiras, conseguiram patrocinadores pessoais que influenciam diretamente os resultados obtidos. Porém, essa não é a realidade da grande maioria de nossos representantes paralímpicos, que sem os mesmos incentivos financeiros precisam se superarem para atingir o alto nível necessário para figurar entre os primeiros colocados. Nos Jogos Paralímpicos de Londres-2012, o Brasil conquistou a sétima colocação no quadro geral de medalhas, superando países como França, Japão e Alemanha.

          As adaptações nas modalidades é um dos fatores que caracterizam as diferenças entre os esportes olímpicos e paralímpicos. No futebol de cinco, modalidade praticada por deficientes visuais, é necessária uma “bola sonora”, que contém guizos no interior, além de um técnico atrás do gol para guiar os atletas. No vôlei sentado, apesar da semelhante dinâmica de jogo, as regras se diferem, basicamente pela distância das linhas, possibilidade de bloquear o saque, que pode ou não ser realizado com as pernas dentro da quadra, sendo que o quadril não pode deixar de tocar a quadra, fato que define o esporte. A prática do basquete para cadeirantes é inviável sem técnicos treinados para realizar a manutenção de rodas e equipamentos.

         Este úlitmo, o basquete, é provavelmente o esporte paralímpico mais popular no Brasil.  Um advento importante para a disseminação da modalidade é uma iniciativa comum em países onde ele é mais popular. A prática do basquete teoricamente destinado para cadeirantes, por não deficientes, os chamados “andantes” no meio do esporte, possibilitou a formação de 70 equipes masculinas em todo o país, e seis femininas.
Essa história teve início em um torneio de dois jogos entre o Clube do Otimismo, de São Paulo, e o Clube do Paraplégico, equipe da capital carioca. Os dois jogos, um no Rio de Janeiro e o outro na cidade de São Paulo, ocorreram no ano de 1958, época áurea do basquete convencional brasileiro.

Principais dificuldades
Entre as principais dificuldades encontradas, está o início da carreira. Muitas vezes desinformados, potenciais atletas não tem oportunidade de conhecer, além de uma carreira, um novo estilo de vida. A prática esportiva, muitas vezes, faz parte de um conjunto de atividades fisioteraupêuticas determinantes para a recuperação e evolução no desenvolvimento motor ou dos sentidos. “Como convencer e dar o mínimo de estrutura para uma criança deficiente ou um recém acidentado começar a aprender um esporte paralímpico? Esse é o problema”, afirma Guilherme Costa produtor do núcleo olímpico da TV Record.

        O cotidiano de pessoas com necessidades especiais é cercado por dificuldades de acessibilidade, falta de piso adequado para deficientes visuais, rampas para cadeirantes e sinalizações para deficientes auditivos. Esses são alguns entre os muitos empecilhos que afastam o atleta do local apropriado para a prática esportiva. Na represa de Guarapiranga, na zona sul de São Paulo, onde são praticados os esportes náuticos, a locomoção de cadeirantes ou deficientes motores é impossibilitada pela ineficiência de transporte adequado. Para Vitor Hugo Pinheiro, técnico da seleção brasileira de vela adaptada: “os atletas veem o esforço que é pra chegar até aqui, e não voltam mais”.

        Desde os bons resultados alcançados nos Jogos Paralímpicos de Pequim-2008, o interesse de patrocinadores e o espaço destinado pela mídia têm crescido de maneira significativa, porém está longe de ser o ideal. São quatro os principais incentivos governamentais ao paradesporto: A Lei Piva, em que 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do país são repassados ao Cômite Olímpico Brasileiro e Comite Paralímpico Brasileiro, dos quais apenas 15%, são destinados ao CPB. A Lei de Incentivo ao Esporte, em que ao se investir em atletas brasileiros uma pessoa física tem um desconto de 6% em seus impostos, e uma jurídica, 2%. O Bolsa Atleta, programa que destina uma ajuda de custo, de acordo com os resultados obtidos desde as categorias de base. E por último, e mais específico, o “Time São Paulo”. Nessa iniciativa do governo estadual paulista, 25 atletas paralímpicos de elite recebem uma renda mensal para auxiliar em suas despesas.

        Há uma disparidade muito grande entre o incentivo a esportes olímpicos e paralímpicos. Bruno Landgraf já vivenciou os dois mundos. O ex-goleiro sofreu um acidente de carro em 2006, resultando em uma grave lesão na coluna que o deixou tetraplégico, interrompendo sua carreira no futebol. A partir de então, dedicou-se à vela sentada. Entretanto, o apoio, antes acessível no time do São Paulo, hoje é praticamente nulo. Para seu pai, Luiz Landgaf, “falta incentivo; local apropriado para treino, material para competir, um barco adequado, competições em território nacional e acima de tudo, organização.”


Bruno Landgraf e sua dupla, Elaine Cunha, disputando os Jogos Paralímpicos de Londres-2012

O Comitê Paralímpico e a Mídia

        O esporte paralímpico não recebe o apoio ideal, tanto da mídia, como do próprio comitê que, desorganizado, impede que muitas modalidades progridam no país. “A chance de conseguir um patrocínio é mínima, pois os esportes paralímpicos aparecem na mídia apenas de quatro em quatro anos e, mesmo assim, muito menos do que deveria”, afirmou Bruno, que considera essencial a participação do atleta no processo: “Para melhorar as coisas lá em cima, nós atletas também temos que fazer o nosso melhor, para que a mudança comece aqui em baixo”.

        Em 2012, as Olimpíadas bateram recorde na televisão aberta, tendo diversas provas transmitidas ao vivo. Nas Paralímpiadas, a realidade é outra, apesar do Brasil ter um desempenho mais significativo no quadro de medalhas. Nenhuma prova foi transmitida ao vivo, com exceção de poucos canais fechados, ganhando destaque apenas os atletas que ganharam medalhas.

Em casa

        O Rio de Janeiro é a nova capital dos Jogos Olímpicos, que serão realizados em 2016. E, entre todos os problemas que a cidade pode enfrentar, talvez sua capacidade para readaptar a infra-estrutura, e deixá-la como um legado para as futuras gerações, seja paradoxalmente a mais importante e distante de ser alcançada. Não é necessário ir muito longe para vermos calçadas altas nas ruas, escadas para entrar em instalações esportivas, falta de sinalização no transporte público, enfim, uma série de empecilhos que dificultam a vida de pessoas com alguma necessidade especial.
Nos debates para concorrer à prefeitura esse ano, muito foi falado no tocante às Olimpíadas e aos investimentos que serão feitos para receber as delegações de todo o mundo. Todavia, praticamente nada foi discutido sobre a necessidade de investimentos no treinamento de atletas e acessibilidade no evento.
Londres demonstra ter deixado o legado que se espera de uma edição dos Jogos Paralímpicos, tanto na acessibilidade, quanto no investimento no esporte. A parte dos atletas é feita todos os dias nos treinamentos e competições disputadas ao redor do mundo. Mas ainda é esperado um engajamento da sociedade como um todo, passando por apoio da população, mídia e investidores.

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