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Por Bruna Bravo e Natacha Mazzaro

Contra os valores pré-estabelecidos, o tradicionalismo, o conservadorismo, o autoritarismo, o consumismo, as corporações industriais, o nacionalismo, o militarismo, a estética padrão, o machismo, a comunição em massa… O jovem teve sempre o espírito de contestação, enfrentamento e oposição à ordem vigente. Segundo a definição do dicionário Houaiss, pode se dizer rebelde aquele que “não se submete, não acata ordem ou disciplina; insubordinado”.

É em busca de uma identidade que o jovem procura se diferenciar daquilo que lhe é imposto. Patrícia Getlinger, psicanalista há 22 anos, acredita que o primeiro momento de uma diferenciação é se opondo. “Para se tornar sujeito de sua própria vida, o jovem se coloca contra qualquer coisa que diga como ele tem que ser”, diz ela. Essa autoridade que dita os padrões pode vir em diversas formas; no papel dos pais, da escola, de uma elite, do governo. Assim como as maneiras que se deram os movimentos rebeldes, que também não provêm de uma única força, nem atuam em um só sentido. É possível perceber ao longo dos anos a evolução histórica dos movimentos de contracultura. Desde seu início com o questionamento das ordens e valores dominantes, levando a mobilização e contestação, até ao desaparecimento de alguns movimentos e a perda de ideologias. Há questões sem respostas imediatas sobre uma provável deturpação do sentido de rebeldia e sobre os motivos da falta de insatisfação e incômodo do jovem rebelde nos dias de hoje.

Contracultura

O fim do período das guerras mundiais, que ocuparam o cenário da primeira metade do século XX, fez com que a década de 50 ficasse também conhecida como Anos Dourados. A época foi considerada, portanto, como de transição; saindo da condição de escassez e instabilidade gerados pelos conflitos e dando início a um furor de transformações comportamentais e culturais por parte daqueles que foram chamados de rebeldes. Os movimentos faziam oposição, nos Estado Unidos, ao famoso “american way of life”, que se baseava nos desejos e valores burgueses somados aos avanços tecnológicos que impulsionavam e alimentavam o consumismo e a face até então invisível da globalização.

A contracultura era a negação, portanto, de padrões impostos por uma sociedade tradicional. Na moda com a adesão pelos rebeldes ao “ready-to-wear” (pronto para usar) na busca de uma identidade própria e um estilo mais desleixado em comparação ao tradicionalismo da alta-costura, criando o estereótipo de jovem rebelde. Os filmes “Juventude Transviada”, protagonizado por James Dean e “Um Bonde Chamado Desejo”, com Marlon Brando, agregaram à calça jeans e à jaqueta de couro um comportamento rebelde, massificando a indústria do jeans. Também é na década de 50 que surge o rock and roll nos Estados Unidos da América eleito pela juventude dos Anos Dourados o estilo musical da época, tendo como principal ídolo o músico Elvis Presley. Suas músicas desafiavam os vários preconceitos que permeavam uma sociedade conservadora e repressiva do período e anunciava para a próxima década muito mais do que um simples movimento, mas sim uma filosofia que pretendia reafirmar a liberdade e a individualidade humana.

Ainda nos anos 50 surgiu  a Geração Beat. Formada por escritores, poetas e intelectuais, o grupo teve grande atuação na literatura, defendendo a intensidade narrativa e a criatividade espontânea. Uma das principais e mais famosas obras do movimento foi “On the Road” (1957) escrito por Jack Kerouac em uma linguagem informal, que teve muito sucesso econômico para o mercado editoral contando suas experiências que envolviam drogas, viagens sem rumo e sexo livre. O livro pôde ser considerado como expressão de uma rebeldia do autor e do movimento até o momento em que se torna produto da indústria cultural, vendendo exemplares e sendo adaptado, esse ano, em um filme de entretenimento. Esses ideais influenciariam mais tarde novos nichos de mercado, como a cultura hippie e a cultura punk.

Festival de Woodstock em 1969 (reprodução)

Na década de 60 o espírito de revolução e a contracultura se concretizam de vez. O surgimento dos movimentos feministas, em favor aos negros, contra a homofobia, os protestos contra à Guerra do Vietnã e à Guerra Fria, os ideias de paz e amor ao invés das guerras, as experiências com novas drogas alucinógenas, a revolução sexual, contra os governos autoritários tomaram força e ganham adeptos, na maioria jovens, que queriam mudar os rumos que a humanidade estava tomando. É justamente nessa década que a música vai tornar-se veículo de manifestação, através das letras polêmicas que criticavam diretamente o sistema vigente e as normas estabelecidas por uma sociedade conservadora, transmitindo o sonho libertário de mudar o mundo, utilizando-se como meio a música, e não armas. Entre os nomes que marcaram estão Beach Boys, Bob Dylan, The Beatles, The Rolling Stones, Janis Joplin, The Doors, The Kinks, Animals, The Who, Jimi Hendrix e Neil Young, todos logo encampados pela indústria fonográfica norteamericana para mercados globais. Nesta década também surge o movimento dos “hippies”, no qual jovens passam a contestar a sociedade e opor-se aos valores tradicionais e o poder militar e econômico ocidentais. Defendiam o amor livre e a não violência, sendo comumente relacionados ao lema: “Paz e Amor”. Adotavam um modo de vida comunitário e nômade, um estilo de socialismo libertário em comunhão com a natureza, influenciados pelas religiões como o budismo e o hinduísmo, contrariando-se totalmente com a Guerra do Vietnã e o nacionalismo, constituindo movimentos pelos direitos civis, igualdade e antimilitarismo.

Em 1969 aconteceu o maior evento de música chamado Festival de Woodstock, que reuniu mais de 500 mil pessoas em uma cidade rural de Bethel, próximo a cidade de Nova York, nos Estados Unidos. A princípio, o festival de música ao ar livre estava programado para abrigar no máximo 200 mil pessoas, mas o evento atraiu jovens hippies que pregavam paz, amor e sexo livre e encontraram na realização do evento a oportunidade de transformá-lo em um exemplo de movimento a ser seguido: “três dias de paz, amor e música”. Apesar do caos resultado da superlotação problemas como a falta de saneamento básico, falta de pronto-socorro, comida e água insuficientes, trânsito na estrada de acesso bloqueando a Via Expressa do Estado de Nova York e eventualmente transformando Bethel em uma “área de calamidade pública”, o festival recebeu as apresentações de The Who, Jimi Hendrix, Joan Baez, Grateful Dead, Janis Joplin marcando uma qualidade excepcional de bandas e músicas, além de se destacar pelo comportamento pacífico e harmonioso por quem estava participando.

Show da banda britânica Sex Pistols (reprodução)

Ainda no campo da música, os anos 70 dividiu e sofisticou a cultura jovem com o rock progressivo, o hard rock, o heavy metal, o glam rock e a discothèque. Um movimento cultural e social que nasceu nessa mesma década e ganhou força na seguinte foi o punk, que expressou suas ideologias na música, moda e no comportamento. Mais simplista, com caráter crítico e contra o sistema industrial, o punk rock se vinculou inicialmente a gravadoras independentes, propagando o estilo “do it yourself” (faça você mesmo). No entanto, acabou também lançando bandas à fama, ao estrelato e à indústira, como por exemplo, Ramones, uma das pioneiras no estilo. O movimento em comportamento e ideologia defende e busca, entre outros ideais, a liberdade sexual, a livre expressão, a justiça social, o laicismo e uma sociedade horizontal. Outra característica está na roupagem, que abusa de calças jeans, rasgadas e justas, peças de roupa pretas e de couro, coturnos, correntes, piercings e corte de cabelo moicano, o que contrasta muito visualmente e em valores com a moda e sociedade vigente, principalmente pela agressividade que ela transmite. “Infelizmente a postura agressiva é vista como agressão ao próximo, e não às injustiças”, diz Fernando Terra Costa, estudante de História na PUC-SP e aderente à cultura punk. Sobre o movimento nos dias de hoje, Fernando ainda comenta que “com certeza sofreu mudanças, mas as demandas sociais e da liberdade individual continuam as mesmas. Mas no momento, infelizmente, a preocupação maior é contra as gangues fascistas e neonazistas”.

No Brasil

O movimento que reuniu mais de 1,5 milhões em defesa das eleições diretas (reprodução)

Apesar do movimento de contracultura que surgiu no Brasil ter influências norteamericanas a circunstância histórica será diferente, apontando um viés quase que exclusivamente político, resistindo as forças autoritárias. O regime ditatorial que se instalou nos anos 60 fez com que o Brasil vivesse por volta de duas décadas um período de intensa repressão e censura. É na década de 70 que nasce o movimento de Tropicália, que tinha como objetivo a busca de uma estética verdadeiramente brasileira, baseado em conteúdos de crítica sociocultural e política. Destacam-se os artistas: Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Tom Zé, Maria Bethânia e Torquato Neto. Muitos artistas brasileiros que marcaram seus nomes nesse período foram exilados do país, mas seus rastros de insatisfação e suas composições de protestos e críticas em prol da democracia ganharam força conscientizando a sociedade brasileira que uma mudança política era necessária. Por isso a partir do início da década de 80 surgem as manifestações públicas afavor das eleições diretas, a maior delas foi em São Paulo no dia 16 de abril de 1984 que atraiu mais de 1,5 milhões de pessoas que apesar de não ter conseguido o efeito imediato mostrou que o desprestígio com os militares era grande e no ano seguinte foi aceita uma nova Constituição Federal com a realização de eleições diretas para Presidente da República no ano de 1989.

Segundo a Professora Rachel Balsalobre, o sentimento de rebeldia no Brasil está diretamente ligado à ação política. Os rebeldes eram jovens de esquerda que lutavam contra a ditadura. Porém após as década de 80 e 90 os movimentos de contracultura foram instrumentalizados. Com a queda do Muro de Berlin e o final da Guerra Fria os dois eixos políticos predominantes se desfizeram e passou-se por um processo de mistura e confusão de ideologias. É neste momento que os movimentos rebeldes de cunho político perderam força e se fragmentaram, neutralizando e enfraquecendo o ímpeto desejo de rebeldia, ao ponto de não causar mais nos jovens o sentimento de inquietação.

Mercantilização da rebeldia

A formação de grupos unifica ideologias e objetivos em comum. Além disso, dá ao jovem o que procura: identidade e diferenciação. “A rebeldia acontece em grupo, porque é ele que dá identidade; os grupos têm linguagens específicas, jeitos de se vestir…”, diz Getlinger. No entanto, a contestação de uma ordem por esses grupos logo cria uma nova ordem. Ou seja, a adesão aos movimentos e as características que eles sustentam criam um novo mercado consumidor, do qual a indústria rapidamente se apodera, alimentando-o.

Podemos ver esse fenômeno nos diversos ideais (beats, hippies, punks, etc.) que, apesar de fazerem oposição ao consumismo da classe tradicional burguesa, impulsionado pela indústria conservadora, criaram, durante e depois do movimento, um novo tipo de consumo, agora fomentado pelas indústrias que sustentaram esses valores de oposição. Pode citar-se como exemplo o comércio de drogas que tirou seu lucro da valorização da liberdade pelos hippies. Ou seja, o uso de drogas em busca da livre expressão e segundo Sigmund Freud da “fuga da realidade” era, na verdade, abastecido pela indústria química e farmacêutica. Outro ideal dos movimentos de contracultura, o do amor e sexo livre, também só foi possível com avanços tecnológicos e descobertas científicas que criaram a pílula anticoncepcional, possibilitando o ato sexual sem proteção e sem o risco de gravidez.

O mesmo acontece com outras indústrias como a do tabaco e do chiclete. A primeira ganhou força, principalmente na década de 50 e 60, quando um cigarro nas mãos tornou-se símbolo de rebeldia. O costume de mascar chiclete também se transformou em uma marca dos rebeldes, o que por trás fazia essa indústria crescer, passando a fabricar e investir brutalmente e, mais tarde, adaptando o uso do chiclete ao cotidiano das pessoas de todas as faixas etárias.

Ainda outro exemplo, que sempre acompanhou os movimentos de contracultura, foi a indústria cultural, que se aproveitou das várias expressões artísticas e musicais, dentre elas o surgimento do rock ‘n’ roll e as variações que se desenvolveram a partir dele. Bandas e cantores que propagavam os valores da juventude rebelde e críticas às desigualdades e injustiças que a sociedade vivia, como os Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan, passam a ser estrelas, perdendo-se o objetivo da crítica para se venderem no mercado. Ou seja, não fazem mais a oposição, pelo contrário, são parte do sistema. Bob Dylan é um ótimo exemplo, já que no início de sua carreira fazia músicas de protesto, mantinha suas raízes no folk, um estilo de música do povo, e recusava-se, inclusive, a usar a guitarra elétrica; no entanto, depois foi corrompido, tornando-se um ícone da cultura “pop” e hoje em dia seus shows têm orçamentos gigantescos.

Conclui-se, portanto, que nenhum movimento de oposição desestruturou a logística do consumo, nem revolucionou a indústria mercantil. A rebeldia conseguiu somente levantar o debate sobre a ética e estética padrão e mostrou que há possibilidades alternativas às vigentes da época. Claro que se opondo ao modelo referencial e conservador é possível descentralizar o poder da ordem principal. No entanto, o que se criou foi uma nova cultura, um novo padrão e não uma organização e estrutura social diferente. Getlinger acredita que é sim um modo de se contrapor, mas complementa: “eles (rebeldes) tem a ideia do antimodelo, só que o antimodelo é tão rígido e restrito quanto o modelo”.

Redes antissociais

A Internet surgiu em plena Guerra Fria, com o objetivo de ser um veículo de comunicação dos militares norte-americanos. Nas décadas de 70 e 80 também passou a ser utilizada como meio de comunicação acadêmica. Mas foi nos anos 90 que houve o “boom” da Internet, alcançando a população em geral, surgindo vários navegadores e provedores. O contínuo tráfego de informações por meio de uma rede conectadas pelo endereço IP, de modo que as pessoas do mundo inteiro possam trocar mensagens em tempo real, compartilhar e difundir ideias passou a ser essencial na sociedade em que vivemos. A Internet é considerado o reflexo da própria sociedade, segundo o sociólogo Sergio Amadeu, nela encontramos diversificados grupos sociais, políticos e econômicos  que defendem seus ideais de modo livre. Hoje somos aproximadamente 1,8 bilhões de pessoas conectadas às redes.

Outro movimento recente é a criação das Redes Sociais, principalmente as redes de relacionamentos. O pioneiro foi o Orkut em 2004 e posteriormente o Facebook e o Twitter, que tem por objetivo de comunicação e o compartilhamento de informações, conhecimentos e interesses em comuns. O fortalecimento dessas redes baseia-se na participação democrática e uma possibilidade de mobilidade social que oferecem. Por um lado, as redes conectam as pessoas às outras, ao mundo e à informação democrática, transcendendo o espaço geográfico e criando uma humanidade unificada virtual. Essa oportunidade de estar conectado com o mundo e com outras pessoas possibilita a manifestação de interesses, valores ou insatisfações pessoais, sociais, políticas e que podem levar à um movimento de mobilização, chegando aos quatros cantos do mundo. No entanto, essa participação não se dá por completo. Elas ficam presas ao espaço virtual e isso acaba gerando uma falsa sensação de envolvimento e engajamento com o mundo e com os interesses de caráter público e coletivo. O movimento, portanto, não se dá em campo físico e geográfico e sim no ciberespaço. As contestações não saem das telas dos computadores e as pessoas, de seus sofás.

A web aos poucos se transforma em nichos pouco ortodoxos para segmentos de mercados que não teriam vida fora da rede. Um exemplo de falso engajamento foi o vídeo publicado este ano com o intuito de denunciar e tornar conhecido o nome de Joseph Kony, líder de uma guerrilha que sequestrava crianças para torná-las escravas sexuais. O vídeo em poucos dias transformou-se em um viral com mais de 100 milhões de visualizações. Porém, além das falhas e falcatruas do movimento que não vêm ao caso citar, toda a mobilização inicial envolta do vídeo não transcendeu o plano do virtual para a realidade, apenas serviu para objeto de alerta e para compartilhar com o resto do mundo os horrores em que a população africana vive em algumas regiões.

Esse é um motivo pelo qual a rebeldia não funciona no meio virtual. Ela necessita do envolvimento direto e interação de pessoas e não distanciamento físico delas; ela deve fazer uma massa, um conglomerado; precisa acontecer no âmbito geográfico, nas ruas. E assim como todo movimento de revolução e de contracultura, o movimento de rebeldia atual também não pode ser fomentado e nem absolvido por uma indústria.

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