Home

Por Isabella Amaral

Em evidência na grande imprensa nacional por motivos pouco desejáveis como um imbróglio jurídico sobre a validade da eleição para reitoria e um rebaixamento na classificação do ranking das grandes universidades brasileiras, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo promove um debate interno sobre o futuro da instituição. Nele, os estudantes têm voz e vez, e muitos enxergam no controle da Igreja um risco para as conquistas legitimadas ao longo da história da instituição, que já teve papel decisivo para a democracia brasileira.

“A intervenção da Fundação São Paulo para mim é a morte da autonomia universitária.” Esta é a fala de Maria Fernanda Cardoso, estudante de direito da PUC-SP, mas que poderia ser de uma boa parcela da comunidade estudantil desta universidade paulistana. Considerada linha de frente na resistência à ditadura e reconhecida nacionalmente por seu ambiente democrático, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sempre foi um exemplo de liberdade de expressão e diálogo entre alunos, professores e funcionários. Contudo, em 2005 a crise instalada por conta da dívida de R$ 82 milhões fez com que a estrutura da Fundação São Paulo, mantenedora da Universidade, fosse modificada, dando mais poder à Igreja Católica. A partir daí todas as decisões administrativas passaram a ser tomadas levando em conta gastos e não suas consequências para a Universidade.

Em 2006 30% dos professores foram demitidos e salários foram reduzidos a até 56% do que era anteriormente à crise. No início de 2011 diversos cursos foram fechados e alunos remanejados durante o período letivo. Em maio do mesmo ano foi anunciado o fechamento do prédio da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes, obrigando a transferência de todos os cursos de graduação e pós-graduação para o edifício Bandeira de Mello; mais de um ano se passou e as obras no prédio da FAFICLA ainda não foram iniciadas.

20120911-231013.jpg

Faixa do C.A. Benevides Paixão durante a ocupação da ouvidoria em 2012

Movimento Estudantil

Foi nesse contexto de maximização do contrato de professores, minimização do tempo de pesquisa, terceirização de serviços e fechamento arbitrário de turmas que alguns alunos se uniram em coletivos que buscam manter viva a história da Universidade e trazer de volta o espaço de discussão que inspira a consciência política daqueles que ali se inserem.

Em 2007 os alunos ocuparam a reitoria durante dez dias em protesto ao redesenho institucional. Já, em novembro de 2010 cerca de 200 estudantes tomaram as dependências do atual reitor Dirceu de Mello para pedir a redução da mensalidade. Em setembro de 2011 o motivo foi a liberdade de expressão: os alunos haviam planejado o “1º Festival da Cultura Canábica” na universidade para o dia 16 daquele mês, neste dia os portões da universidade foram fechados, em resposta diversos alunos ligados ou não ao festival fizeram uma manifestação chamando atenção à repressão que estava se instalado.

Durante as eleições para reitor de 2008 foi lançada a candidatura de Florestan Fernandes, como voto de protesto. No mês passado integrantes do Centro Acadêmico Benevides Paixão e da chapa Construção Coletiva, entre outros estudantes de diversos cursos sentiram a necessidade de repetir o ato. Segundo Renata Falavina, estudante de Direito, isto serve para “mostrar para os reitoráveis que a gente não tá satisfeito com as propostas deles. Além de unir os estudantes para reivindicar suas visões de universidade”.

Renata aponta o que parece ser o desejo mais forte destes alunos: “nós não achamos que a educação tem de ser tecnicista, voltada para o mercado de trabalho. Queremos uma educação voltada para o senso crítico.” Ela diz ainda, que como aluna do direito não está interessada em aprender apenas como lidar com um processo jurídico ou decorar leis, quer saber a natureza disso. “Quero adquirir um senso crítico da sociedade e na sala de aula não temos espaço para isso.”

Bruno Matos, integrante do Centro Acadêmico de Jornalismo, compartilha desse objetivo: “Queremos uma universidade que forme indivíduos e não mão de obra.”

Sujeitos deste tempo

Um jovem que integra um movimento estudantil em uma universidade brasileira carrega a responsabilidade de defender uma ideologia e fazer jus à força histórica do movimento. Em 1977 a PUC foi palco de um dos episódios mais marcantes da resistência à ditadura militar: a primeira reunião da UNE desde seu fechamento pelo regime militar. O auditório do TUCA foi invadido e mais de 900 estudantes de todo o país foram presos pela repressão do Coronel Erasmo Dias. Atualmente o movimento estudantil da PUC é unânime ao dizer que respeitam e trabalham para manter a memória daquela época viva, mas pretendem ir além.

“Eu acredito num processo histórico e não no fetichismo nostálgico.” diz Maria Fernanda. Para ela é preciso mostrar como os ideais que impeliam os movimentos no passado ainda estão vivos. Ela cita também Florestan Fernandes e sua campanha por um ensino público de qualidade e para todos, além de Nadir Kfouri – reitora na época da invasão – que enfrentou os militares na luta ao lado dos estudantes.

Mariah acrescenta: “Não queremos voltar ao que era. Vamos além do que era! Naquela época existia movimento estudantil, mas não era a universidade dos sonhos”.

Renata propõe o questionamento junto à reminiscência: “Até quando a gente vai ficar só falando do passado e não vai fazer nada sobre o presente?”. A aluna fala de candidatos a cargos administrativos e membros do corpo docente que não se cansam de comentar sobre sua participação nos movimentos de resistência, mas contribuem para o processo de alienação dos estudantes e mercantilização do ensino.

20120911-231037.jpg

Prédio novo da PUC-SP com grafite

Parcela Ínfima da Sociedade

Ao discutir a alta das mensalidades Renata diz: “Quero uma universidade com mais acesso e com diversidade”. A universidade deve ainda abrir as portas para um contingente maior da sociedade, pois o meio de admissão, as mensalidades e a falta de assistência a alunos do Pro-Uni dificultam cada vez mais o ingresso.

O aumento da mensalidade a quantias absurdas foi uma das medidas tomadas pela Fundação São Paulo para escapar da crise. Desde 2005 o preço tem sido ajustado acima da inflação; como consequência a esmagadora maioria dos estudantes pertence às classes A e B.

Mariah Vieira, membro da chapa Construção Coletiva e estudante de Direito, acredita que essa medida deixa claro qual o projeto universitário que a mantenedora pretende realizar: “Elitista, de mercantilização da educação. Quem faz parte da PUC? Quem pode pagar.” Ela ressalta que muitos alunos na sala de aula mostram que desconhecem a realidade social do país já que os jovens pertencentes a outras classes sociais – os quais poderiam diversificar a discussão em sala de aula – não podem pagar a mensalidade.

Um pensamento em “A PUC discute a PUC

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s