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Por Mariana Luísa e Clara Badaró 

O assunto “moda” pode parecer muito clichê quando visto por apenas um lado. Diferentemente do que normalmente se pensa, a moda engloba inúmeros aspectos, autoestima, tendências, qualidade e, até mesmo, o valor econômico. Os assuntos nas ruas, as influências das personagens da novela e, principalmente, o gosto individual tem muito mais a ver um com o outro do que se pode imaginar. Por trás da moda, há um esconderijo elaborado pela mídia para que todos esses aspectos possam se encontrar com uma perspectiva que está presente independente de qual “moda” estamos falamos.

As influências, por exemplo, vem de todas as direções. Elas atingem desde o público das camadas de elite, o qual vai aos desfiles ou tem acesso a grandes empresas que estão por dentro do mundo fashion, até o público que não tem muita consciência de toda a grandiosidade da moda e se veste de forma semelhante a personagens simples, como Nina, da novela “Avenida Brasil”.

Universitárias da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, em dados atualizados em 2012, o Brasil é o quinto maior produtor têxtil do mundo, sendo que é o segundo mercado de maior empregador da indústria de transformação, perdendo apenas para a de alimentos e bebidas. Entretanto, o que essa indústria têxtil faz não é criar moda, mas sim o modismo. Ela lança tendências puramente para geração de lucro. A mídia divulga certos materiais e a indústria se aproveita deles, gerando um consumismo desenfreado em quem sofre uma influencia negativa da “moda”.

Universitários da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Juliana Romano, repórter de beleza da revista Gloss, diz que a moda pode influenciar de duas formas a vida das pessoas. Positivamente, a moda pode inspirar as pessoas, as ajudando se inspirar e se expressar. Nesse aspecto, Juliana acredita que a moda faz o papel de qualquer outra arte, como a música e o teatro, ela comunica. A forma negativa seria quando a pessoa não consegue refletir sobre o que lhe é colocado, levando todos os modismos como uma obrigação para se enquadrar na sociedade. Essa influência é negativa, porque ao contrário da primeira, desconstrói a personalidade da pessoa.

Na perspectiva econômica, Juliana, por estar nesse mundo, diz perceber que o mercado da moda movimenta muito dinheiro no Brasil. Para ela, e muitos outros, roupa é um investimento. Tem que se diferenciar moda do modismo: “Moda é arte, é expressão, grandes estilistas fizeram protestos com a moda, outros retrataram a imagem de sua época. Modismo são essas tendências que vemos sendo lançadas por aí, puramente para gerar lucro. É a bolsa que a atriz usou, a saia que a cantora foi ao Oscar, etc.”, diz Juliana. Esse modismo é aproveitado pela indústria, com ajuda da mídia, para gerar um consumismo desenfreado, nas pessoas que sofrem a influência negativa da moda. Gera-se um desejo de consumo que não teríamos sozinhos, o temos graças ao trabalho da mídia. “O poder está nas mãos da indústria (têxtil e midiática) e o modismo alimenta as duas, seja na nova edição da revista ou no lucro da loja no próximo verão.”

Vemos aí um mercado mal aproveitado e direcionado a um público específico: aquele que tem maior poder de aquisição. Essas pessoas alimentam a indústria, deixando as pessoas que não se enquadram nesse perfil fora de foco. A partir do momento que elas se mostram também como fonte de lucro, o mercado volta a olhar para elas. Juliana diz ser esse o caso das lojas de departamento, como C&A, Renner e Marisa. Segundo ela, essas lojas perceberam o poder de alcance da informação, e foi esse poder que despertou o desejo de ter as “tendências” nas classes mais baixas. Essas lojas começaram a trazer peças semelhantes as da passarela com um preço mais acessível. “A menina não tem o poder para ter uma Louis Vuitton, mas consegue comprar uma semelhante, mesmo que isso signifique uma dívida no final do mês, agora ela tem a bolsa da moda.”

Bolsa da grife Louis Vuitton, avaliada em cerca de U$1 200,00

Juliana Romano evidenciou a diferença do “tenho que ter” e do “posso ter”. O “você tem que ter”, segundo ela, é a imposição, a obrigação de se enquadrar em um padrão. Já o “você pode ter” está mais para a liberdade de escolha, liberdade de expressão. Em um mundo ideal, as pessoas saberiam filtrar a informação que lhes é passada. Saberiam fazer escolhas e julgar o que é feio ou bonito para elas mesmas, o que te a ver com a personalidade delas, o que de fato elas precisam e não o que têm que ter para se enquadrar. Como isso não acontece, a indústria, principalmente a da mídia, se aproveita para ampliar o mundo do “você tem que ter”.

Vendo de uma perspectiva diferente, de quem cria sua própria moda, Luís de Beauclair, estudante de design gráfico, teve a ideia de usar sua criatividade como fonte de renda aos 17 anos. Com a intenção de colocar um de seus desenhos em uma camiseta, ele não esperava obter o sucesso que atingiu hoje com sua marca, a Alternative Clothings. Independente financeiramente, ter seu próprio negócio o fez se apaixonar, e continuar com esse plano. Ao ser questionado sobre quanto tempo ele demorou entre ter a ideia e, de fato, colocá-la em prática, Luís diz que nesse aspecto foi um erro: “Foi muito rápido e hoje vejo isso até como um erro. Eu era muito novo, tinha 17 anos, não tinha conhecimento sobre mercado, sobre tendências, sobre negócios, então comecei atirando no escuro. Acredito que se tivesse começado a marca com todo um planejamento eu poderia estar muito melhor agora, mas tudo tem que começar de um jeito e o meu foi assim!”.

Gabriela Merjam e Luís de Beauclair, vestindo a marca “Alternative Clothings”

No início, a Alternative foi um risco que Luís resolveu enfrentar. Depois de estampar uma camiseta para uso pessoal e receber vários pedidos, ele percebeu que estava sozinho, mas precisando crescer. Um de seus primeiros pedidos, somando o valor da estamparia e tecido, havia dado por volta de R$5.000,00 e a única forma dele continuar com essa ideia era fazendo um empréstimo. Sem medo de arriscar, já que se não conseguisse vender sua marca provavelmente não conseguiria pagar esse valor, Luís acreditou no potencial e decidiu “não parar ali”, como ele diz: “Se você tem planejamento, é muito difícil de dar errado. Além disso, já vi muita gente com tudo na mão para obter sucesso e, por medo de não dar certo, desiste de seu objetivo. Isso não pode acontecer, tem que acreditar no seu próprio potencial”.

Produtos da linha Alternative Clothings

 Hoje, com 20 anos, Luís acredita que a faculdade seja sua segunda prioridade. Sua intenção é realmente se dedicar somente a Alternative, mas acredita que uma faculdade no currículo possa fazer diferença no futuro. Fazendo parcerias com bandas de público jovem, esse ano ele ainda pretende iniciar planos para crescer mais ainda. Para ele, chega um momento que não tem como se obter tanto crescimento sozinho, precisando expandir e compartilhar as ideias.

Atualmente, o valor que está por trás de muitos produtos desse meio é o valor da marca e não, de fato, daquilo que é produzido. Esse fenômeno, do “nome” valer mais do que é comerciado em si, não está presente somente nos acessórios de moda, mas também naquilo que é considerado “luxo” pela sociedade atual. Por exemplo, a marca Mercedes Benzs, naturalmente alemã, envolve muito dinheiro no seu nome, entretanto seus produtos são feitos quase todos por inteiro em países Asiáticos, como a Indonésia. O que está em jogo é o glamour que a marca traz para quem a tem. Uma bolsa da Louis Vuitton, criada no século XIX em Paris, atualmente por volta U$800,00, podendo chegar até U$7 000,000. Hoje em dia, porém essas bolsas, que ficaram famosas pelo símbolo e por mostrar a moda de Paris, são fabricadas nos Estados Unidos e na Espanha. Outra das marcas também luxuosa é de Nova Iorque. A pulseira Victoria, da grife Tiffany’s & CO, possui muitos diamantes brilhantes redondos e custa cerca R$ 133 000,00.

Esse mundo fashion então pode ter diversas ramificações, mas em todas o valor econômico está presente. Seja no luxo e glamour de uma marca ou na estratégia das indústrias têxteis para alcançar o público mais baixo, a moda tem sim uma preocupação em vender e gerar lucros, deixando assim na mão do consumidor a noção do que é útil e do que é desnecessário, sabendo reconhecer a diferença do “tenho que ter” e do “posso ter”.

 

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