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Por Rodolfo Almeida e Marcelo Teixeira

              “Uma mosca pode picar um cavalo, mas o cavalo continua a ser um cavalo, e a mosca não mais que uma mosca”. É com esta citação do pensador inglês Samuel Johnson que Stuart Kelly, crítico de literatura do jornal britânico Guardian respondeu a polêmica declaração do letrista e romancista carioca Paulo Coelho, dada em entrevista em agosto de 2012 à Folha de S. Paulo. Coelho afirma que “os autores [de literatura] hoje querem impressionar seus pares. Um dos livros que fez esse mal à humanidade foi Ulysses [clássico do escritor irlandês James Joyce], que é só estilo. Não tem nada ali. Se você disseca ‘Ulysses’, dá um tuíte [se referindo ao limite de 140 caracteres de uma mensagem na rede social Twitter]”.

Aos 65 anos de idade, Paulo Coelho é um fiel e orgulhoso representante do gênero conhecido por literatura popular, de estilo simples e narrativa comum – algo semelhante a uma autoajuda em forma de romance. Rechaçado pela crítica nacional e adorado pelo público leitor mediano, o carioca já é nome frequente entre os rankings de livros mais vendidos do mundo (os números ultrapassam 100 milhões de exemplares, em mais de 150 países, com traduções para mais de 75 idiomas). Hoje o escritor que já participou ativamente do cenário musical nacional dos anos 1970 ao lado do músico Raul Seixas escreve seus livros ora de seu apartamento na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, ora da tranquilidade de sua casa de retiro na França, na região dos Pirineus, vivendo exclusivamente de sua estratosférica vendagem literária.

A figura por ele criticada é James Joyce, contista, romancista e poeta irlandês amplamente considerado como um dos autores de maior relevância do século XX. Participou dos primórdios do movimento modernista em literatura e influenciou autores de literatura de diversas correntes, tais como Beckett, Jorge Luis Borges, Thomas Pynchon e William Burroughs. Sua obra foi submetida a intensas pesquisas e núcleos de estudo em âmbito literário e acadêmico, sendo considerado pelo crítico Haroldo de Campos “definidor de toda a poesia que a sucede”. A envergadura teórica e filosófica inabalável da obra de Joyce levou ao cunho do termo “cânone joyceano” para se referir a ícones da literatura e do pensamento complexo e sofisticado, em contraposição a situação econômica e social do autor: exilado de sua pátria, acusado de pornografia literária e de produzir livros “imorais” – o próprio retrato do artista faminto.

Paulo Coelho (à esq.) e James Joyce (à dir.) – Foto: divulgação

O que essas duas figuras de espectros tão distintos do mesmo segmento tem a nos apontar sobre a realidade? A crítica de Coelho, ainda mais apontada a um ícone como James Joyce, é emblemática de embates que há muito se travam entre academias e livrarias e que geram discussões calorosas acerca do papel da arte na experiência humana, da situação da produção literária e do mercado editorial na sociedade contemporânea. Aparentemente, aqueles envolvidos com a venda colossal de produtos editoriais apresentam diferentes intenções em relação a produção literária e, em contraposição, aqueles envolvidos em produções complexas e de vendagem modesta intendem um projeto artístico de cunho diferente.

Torna-se primordial para o debate compreender o contexto em que se encontra a literatura brasileira e o mercado editorial nacional. Segundo pesquisa do portal de literatura Publishnews, entre o ranking de livros mais vendidos em território no ano de 2012 até agora, estão incluídos títulos como Agapinho, de Padre Marcelo Rossi, o best-seller Cinquenta Tons de Cinza, de E.L.James., e o guia de auto-ajuda Nietzsche para estressados, de Allan Percy. Tal pesquisa pode ser replicada ano a ano e os resultados não serão ao todo muito diferentes. Os títulos que imperam entre os mais vendidos consistem naqueles chamados produtos de entretenimento – romances de narrativas fáceis, rápidas, direcionadas a um público há anjos forjado pela morosidade criativa e simplicidade estrutural das obras hollywoodianas – ou, então, obras do moribundo gênero da autoajuda (em que se inclui, inclusive, Paulo Coelho). Em um país com cidadãos que leem, em média, 4,7 livros por ano e elenca o pastor Silas Malafaia como um dos autores mais admirados, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2011. Desprezadas pela crítica, essas obras inevitavelmente geram o maior montante de lucro ao mercado editorial brasileiro.

A constatação acerca do teor das obras mais bem-sucedidas mercadologicamente é transparente, também, se analisando a colossal Bienal do Livro, evento organizado pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) para promoção da leitura. Em sua edição de 2012, o evento reuniu um público recorde de 750 mil visitantes entre autores, editoras, distribuidoras e público, congregados sob a proposta de celebrar a leitura e o livro. O problema reside exatamente aí. A celebração, a julgar pelo perfil de público participante e as obras mais vendidas (vide pesquisa da Folha de S. Paulo) parece ser muito mais da cadeia de produção editorial e da venda de livros, em contraposição a eventos como a Feira Literária Internacional de Paraty que buscam instigar o debate literário – com suas ressalvas em relação a seu lado “mercadológico”. É a constatação a que chega o consultor de políticas públicas para a leitura e ex-diretor da CBL Felipe Lindoso em artigo publicado pela Publishnews: “O evento sempre foi considerado principalmente por seu valor promocional. Promoção da leitura, promoção do livro em geral, promoção de autores e promoção do catálogo das editoras”.

Público na 22ª edição da Bienal do Livro de São Paulo – Foto: divulgação

A ligação de imediato se faz entre Paulo Coelho e a bienal. Este, um dos autores mais vendidos no evento, é representante do tipo de literatura celebrado amplamente pela feira. Ao lado destes, insere-se a publicação Geração Subzero – 20 autores congelados pela crítica mas adorados pelos leitores, de organização de Felipe Pena. A obra inclui autores como o bestselling Eduardo Spohr (amigo pessoal de Paulo Coelho), que não se intendem “cânones da literatura” e acreditam no entretenimento como, de fato, literatura. A publicação vem em resposta a recentemente lançada seleção Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros, da renomada publicação britânica Granta. Muitos dos autores escolhidos por esta são, ao mínimo, pós-graduados nas áreas de letras ou filosofia e fornecem profunda estruturação teórica a formulação de suas obras.

Estes últimos se aliam a outro espectro desse cenário literário, onde postam-se os autores nacionais elogiados pela crítica especializada. A suposta complexidade e sofisticação de suas obras tendem a direcioná-las a um público seleto de leitores que, presumidamente, tal qual os leitores de Joyce, estudam profundamente a literatura como forma de arte. Se por um lado a crítica – aquela que, de fato, critica a literatura em vez de propagar textos de divulgação de lançamentos literários – acolhe a literatura “complexa” e a elege como “a boa arte” do cenário atual, o sucesso se limita aos círculos acadêmicos, tendo as obras pouca vendagem entre o circuito popular.

Existe algo como uma polarização e um desequilíbrio entre os dois grupos: os que escrevem para vender livros são ignorados pela crítica, e os que são aclamados por ela são mal recebidos no mercado.

Os apreciadores da chamada “fina literatura”, aqueles defensores ferrenhos de James Joyce, frente à acusação de Paulo Coelho contra o autor irlandês, iniciaram um movimento de revolta contra o carioca em artigos pela internet e redes sociais , declarando a baixa qualidade de sua obra e enveredando para perigosas declarações acerca do público alvo “pouco intelectualizado” de Coelho. Tais críticas à cultura do vulgarmente chamado “povão” escondem em si, preconceitos de cunho econômico, social e intelectual que, por si, representam tanta imprudência quanto a declaração de Coelho.

Tal qual o preconceito linguístico contra o “falar errado” do povo comum, desenvolvido academicamente como elitismo cultural já no século XIX por autores de peso da linguística e da filosofia, como o russo Mikhail Bakhtin, a aversão a cultura popular não é novidade e esta sofre constantemente críticas – muitas pertinentes, tantas preconceituosas – por seu teor de entretenimento fácil e pouca reflexão. Na medida em que, inegavelmente, James Joyce eleva o nível do estado da arte e da produção literária mundial, sua figura canônica leva a aceitações imediatas e impensadas por seu aspecto “cult”. Muitos daqueles críticos de Coelho, defensores de Joyce, sem dúvida, jamais leram o Ulisses que tanto defendem

Ficção Científica: “vocês só estão com inveja de minha mochila à jato” – Foto: Tom Gauld

Diante do escalabro de ofensas, preconceitos e acusações intelectuais, culturais e literárias de toda a discussão, faz-se visível uma ausência marcante de verdadeiro senso crítico. Uma obra literária não pode ser aclamada apenas por sua complexidade e referencia acadêmica, na mesma medida em que não pode ser desvalorizada com base no seu caráter de entreter – o fazer parte da mesma lógica dos mais tenebrosos preconceitos raciais. A “fina arte” e o entretenimento cumprem papéis diferentes e que por vezes podem se misturar, não podendo, portanto, ser analisados por uma ótica estreitamente unilateral.

Entre os bestsellers, figuram, sem sombra de dúvida, obras de valor artístico, assim como entre os mais estreitos círculos acadêmicos, teóricos de baixo nível desenvolvem obras de suposta complexidade e refinamento. O conflito e os obscurantismos que dele partem – o ostracismo de boas obras por suas características de lazer e o esquecimentos de obras-primas por sua aura complexa – prejudica ninguém menos do que o leitor e a sociedade, que se priva do conhecimento por conta da “reputação” deste em uma bolsa de valores intelectual: qual obra vale mais ou menos. É, então, a falta de capacidade de distinção racional e sensível que impõe ao público a adoção de um ou outro valor de observação da manifestação artística – podendo privar o leitor de uma ou outra obra que o atingiria da forma mais legítima que a arte permite ao ser humano. A censura pela “reputação” da obra no mercado intelectual, não deixa de ser o que é: censura. Seja de moscas ou cavalos.

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