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Por Harumi Visconti e Cristiano Síndici Hernandes

“O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por relacionar-se e, no entanto, desconfiados da condição de estar-se ligado”.

É assim que começa o livro Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. O autor, cujos estudos debruçam-se sobre a pós-modernidade, defende em seus livros a ideia de liquidez. Para ele, um dos marcos do período em que vivemos é a facilidade com que os laços humanos se desfazem. Hoje, as relações sociais são frágeis, líquidas: desmancham-se com a mesma facilidade com que são formadas. O resultado disso são pessoas individualizadas, que se enclausuram em seus próprios universos particulares por receio de se abrirem ao outro. Nas palavras do próprio sociólogo, amor líquido é “o amor com um espectro de eliminação imediata”: as pessoas mantêm as relações sociais até o momento em que elas não as satisfazem mais. “É bom lembrar que o amor não é um objeto encontrado, mas produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e boa vontade”, completa o autor em entrevista concedida à revista IstoÉ, em 2010.

José Salvador Faro, professor de Jornalismo da UMESP e da PUC-SP, encara a fala de Bauman como uma síntese do mundo de hoje. “De fato, quando observamos as relações interpessoais na sociedade de consumo, percebemos sua efemeridade e transitoriedade, isto é, sua natureza fluída e liquefeita. Tudo indica que com o fim das grandes interpretações ideológicas que o mundo viveu até o fim dos anos 80, passamos a viver sobre a regra da inconstância, naturalmente para o benefício daqueles que acreditam que a obsolescência não é um atributo que pode ser aplicado apenas aos objetos que consumimos, mas também às próprias pessoas que nos rodeiam.” Entretanto, para o professor, a metáfora de liquidez só é válida quando se trata de relação social. No universo político e econômico ocorre o oposto: “O sistema sobre o qual prevalece a liquefação das relações sociais no plano afetivo  não tem nada de frágil ou delicado no nível econômico e político, já que a inconstância ou a leveza desaparecem por completo quando observamos os padrões de exploração do trabalho de pelo menos 2/3 da população do planeta”, completa Faro.

O melhor amigo do homem

Um fenômeno que se observa atualmente é o número de pessoas com animais de estimação. Independentemente de classe social, idade, gênero e etnia, cada vez mais bichinhos dividem o mesmo teto – e às vezes nem isso, como é o caso dos moradores de rua – com os seres humanos. Isso, entretanto, não é nenhuma novidade: há décadas os animais são bons amigos dos homens. Estudos recentes afirmam que ter animais de estimação minimiza a depressão, a tristeza e a solidão. São excelentes companheiros e ainda ajudam a reduzir o estresse. Quando convivem com crianças, os bichinhos auxiliam no desenvolvimento da autoestima e confiança, afirma o ProBem, site da Prefeitura de São Paulo sobre proteção e bem estar dos animais.

Em bairros nobres, principalmente, é comum encontrar cachorros com roupas, sapatos, lacinhos, perfume, dentes escovados, pelos aparados e brilhantes, com uma alimentação balanceada que vai desde filé mignon até ração importada. O shopping Pátio Higienópolis, na região central de São Paulo, é um dos poucos estabelecimentos que aceitam animais domésticos. Nele, podem-se encontrar todos os tipos de dono: senhores, mulheres, adolescentes, casais, pais, irmãos. Perguntados sobre como eles tratavam seus animais, todos responderam da mesma forma: com mimo. “São mimadíssimos, mesmo. Tratados com muito carinho”, disse uma das entrevistadas, dona de um Bulldog Francês. Próximo ao shopping há o Parque Buenos Aires. Arborizado e com calçamento em perfeito estado, o local é apropriado para um passeio com um cachorro. Entretanto, o lugar estava vazio. Já o shopping Higienópolis estava apinhado de pessoas com seus animais de estimação na coleira com brilhantes.

Apesar dos incontáveis benefícios trazidos pelos animais, há os que defendem que esse tipo de tratamento não é realmente necessário, justificando que cada vez mais pessoas cuidam melhor de outras espécies do que da sua própria. Bauman afirma que o problema está no relacionamento do indivíduo com os outros.

Rossana Semeraro Amaral, psicóloga há mais de 20 anos, afirma que os relacionamentos hoje são de fato descartáveis. “As relações são muito mais frágeis. As pessoas se comprometem pouco nos relacionamentos. Não querem se comprometer. Quando elas se comprometem, querem muito mais em troca do que elas querem dar. Muitas vezes eles trocam um relacionamento que está de um jeito não tão agradável, por um relacionamento que talvez possa trazer outro tipo de prazer. Eu vejo isso mais nos jovens: as pessoas não querem ter um compromisso. Um relacionamento é difícil. Você tem que abrir mão de algumas coisas, tem que esperar que o outro abra mão de algumas coisas, tem que se empenhar.”

Para ela, os animais diminuem a carência de atenção humana, que muitas vezes não pode ser suprida por outras pessoas. “Algumas pessoas colocam os cachorros no lugar de um afeto garantido. Eu acho que realmente funciona. Tanto que existem cachorros em asilos, hospitais. Por quê? Porque eles são carinhosos, não pedem nada em troca.” Dessa forma, com indivíduos cada vez mais solitários e insatisfeitos com os laços humanos, o apego aos animais torna-se frequente e essencial para muitos hoje.

“Não existe amor em SP”

Além do aspecto líquido das relações sociais, a pós-modernidade é também marcada pelo impacto do neoliberalismo. A força e a necessidade da criação de novos mercados é um dos principais símbolos na nossa era. A solidão, uma das características mais presentes desse período, é muito explorada pelo mercado. Hoje, a depressão tornou-se um problema frequente. Uma estatística feita com 18 países em 2011 mostrou que o Brasil tem o maior número de pessoas com a doença: 10,4% sofrem de depressão. Perto de outros países, tal como a China e Índia, em que o número chega a apenas 5,9%, o valor brasileiro é elevado. Além disso, uma pesquisa feita pela Secretaria do Estado de São Paulo mostrou que 61% dos idosos sofrem com transtornos de ansiedade e depressão e procuram ajuda psiquiátrica. Partindo dessas informações, a pós-modernidade criou um mercado em torno disso.

Criolo, músico brasileiro de rap e soul, traduziu bem a sensação de isolamento que as pessoas sentem na capital paulista com a canção Não Existe Amor Em SP: “Os bares estão cheios de almas tão vazias / A ganância vibra, a vaidade excita”. Por meio de seus versos pontuais, Criolo, natural do bairro do Grajaú, na zona sul, provoca os seus ouvintes a repensarem as suas próprias relações numa metrópole que cada vez mais individualiza seus habitantes.

Baseada nos inúmeros benefícios já aqui citados, a mídia informativa e publicitária encontrou uma solução para o problema da solidão: os animais de estimação. Tratados muitas vezes como membros da família, os bichinhos, em especial cães e gatos, recebem um tratamento de primeira linha de seus donos. Mas será mesmo que os animais realmente precisam ser cuidados dessa forma? Marcella Barella Ambrosio, estudante da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, afirma que não. “A pior coisa que existe é humanizar os animais. Sim, eles são importantes para nós, devemos amá-los e cuidar bem deles, mas como animais. Tratar cachorro como cachorro. Isso porque humanizá-los é prejudicial para os próprios bichos, pois a fisiologia deles não é essa. Por exemplo, colocar roupinha em cachorro achando que irá protegê-lo do frio é ruim, pois impede que eles usem o método de aquecimento da espécie deles que é pela erição dos pelos”.

Entretanto, sob a influência midiática, os donos dos animais rendem-se à febre mercadológica que dita que os bichinhos devem ser cuidados tais como seres humanos. Porém, o neoliberalismo exige dos consumidores a lógica da efemeridade: nada é feito para durar para sempre, inclusive os próprios relacionamentos. Portanto, a fixação por animais hoje é uma necessidade, mas amanhã pode não ser mais. Afinal de contas, qualquer tipo de relacionamento, independentemente da espécie com a qual se relaciona, exige empenho e dedicação, valores que estão cada vez mais se perdendo.

Um pensamento em “Isolados na multidão

  1. Gostei muito do texto que você escreveu. Bom que vc encontrou alguém que falasse da errônea humanização dos animais. Bj

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