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Por Patricia S. Zylberman         

               Pessoas algemadas em camas, catatônicas pela medicação excessiva, ás vezes sem roupa, som do eletrochoque ao fundo e a negligência tanto dos médicos quanto do resto da sociedade. Esse tipo de imagens foram a bandeira que a Luta Antimanicomial e, com ela, a Lei 10216 – também conhecida pelo nome do deputado que a criou em 2001, Paulo Delgado – tornaram ilegais. Porém, uma fiscalização atual do SUS mostrou que não é bem isso e que, algumas vezes, as clínicas psiquiátricas, ou de repouso como são chamadas, dão lugar aos manicômios, pois tratam os pacientes de um modo similar, deixando-os dopados em leitos para que não “incomodem” nem os médicos da clínica, nem seus próprios familiares.

         Essa questão do fim dos manicômios passou a pautar as discussões de todos encontros trabalhadores de saúde mental desde o dia 18 de maio de 1987. Nesse dia ocorreu em Bauru o Encontro dos Trabalhadores de Saúde Mental, que uniu psicólogos, psiquiatras e demais atuantes na área de saúde mental que queriam por fim nos manicômios e criar direitos aos portadores de algum tipo de transtorno mental. Esse movimento foi induzido pela Reforma Sanitária Brasileira e, com ela, a criação do SUS – que sempre apoiou o fim dos manicômios – e pela desinstitucionalização da psiquiatria, em Trieste e Gorizia, na Itália.

         Desse Encontro dos Trabalhadores de Saúde Mental surgiu a ideia, em 1989 pelo então deputado pelo PT/MG Paulo Delgado, da criação de uma lei que criasse direitos aos portadores de transtornos mentais e, com isso, o fim dos tratamentos institucionais asilares (fechados) como eram conhecidos na época, os manicômios. Após muita luta, apenas em 2001, a lei é sancionada no país, colocando fim às instituições manicomiais e provando que, até no Brasil, os direitos humanos são de todos. Ou era assim que eles imaginavam. Segundo a psicóloga e professora da PUC-SP, Deborah Sereno, a luta antimanicomial foi importante para “resgatar a liberdade das pessoas que antes eram marginalizadas por serem consideradas perigosas, com a reforma temos conseguindo que os portadores de transtornos mentais sejam inseridos na sociedade apesar de sua loucura”.

         Desde 2001 diversas clínicas psiquiátricas que maltratavam os pacientes, como o terrível hospital psiquiátrico de Barbacena, foram fechadas e apesar das clínicas de repouso particulares permanecerem ainda em funcionamento, criam-se alguns locais de tratamento públicos, entre eles os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Criados em 1992, neles, os médicos, psiquiatras, psicólogos e terapeutas ocupacionais trabalham juntos como uma equipe que procuram a melhor maneira de tratar os pacientes.

            Nos CAPS, diferentemente dos manicômios, na maioria das vezes, não há leitos e as pessoas chegam para se tratar de manhã e saem à noite, se necessário, ou vão para um grupo terapêutico e uma oficina e voltam para casa, o numero de vezes por semana varia dependendo do que a equipe de tratamento julgar mais adequado, sendo dormir um pequeno período de tempo necessário em apenas poucos casos. A diretora de cinema e psicóloga Miriam Chnaiderman acredita que “os CAPS são bem frequentados, podem ser considerados um dos poucos lugares aptos a receber os “loucos” que saem das ruas e não tem aonde se tratar”. Com esse tratamento diário, sem que haja leito, a família tem uma participação muito maior do que na época dos hospitais psiquiátricos quando os “loucos” eram “largados” por anos nas clínicas, sem que houvesse qualquer interação com seus consanguíneos. Segundo Deborah Sereno, “com os CAPS, a família deixou de ter papel secundário e passou a atuar, ao lado da equipe, para o tratamento de seus entes”. Para tal, esse Centro de Atenção Psicossocial promove uma ajuda aos familiares e até atendimento separado dos pacientes a eles.

         Os CAPS, apesar de muito importantes, não existem em quantidade suficiente e, muitas vezes, ficam saturados, o que é o caso do CAPS Butantã, que tem pouco espaço para muita demanda e acaba tendo que decidir para fazer o melhor mas é muita gente e a prefeitura ao esta contratando profissionais, a casa precisa de reforma ou de mudança para uma casa maior e não há nenhum investimento da prefeitura na equipe e na infraestrutura do CAPS.

             Dessa maneira, há mais locais públicos para que os portadores de transtornos mentais se dirijam; um deles é o Centro de Convivência (CECCO). Neles, trabalham equipes multidisciplinares que oferecem atividades corporais e oficinas de geração de renda a toda uma comunidade. Nos CECCOs, estão presentes desde uma senhora da comunidade, uma criança, até um “louco”, todos atuando conjuntamente na fabricação de diversos produtos artesanais. Com esses produtos são criadas as Feiras de Economia Solidária, a Ecosol, que, até esse ano,   eram realizadas nos estacionamentos da USP ou do Hospital SP, ou seja, em ambientes ligados à saúde, sem que se amplie às demais pessoas. Porém, esse ano, a Feira da Economia Solidária foi realizada na Avenida Paulista, na qual, o público em geral pode participar e entrar em contato com essas pessoas marginalizadas e, quem sabe, perder um preconceito antigo. Ou então, assim como esses CECCOs, há as emergências psiquiátricas no hospital geral e nas residências terapêuticas, que recebem em casos de primeira ajuda, essas pessoas com transtornos mentais.

          Ao ser questionada sobre o que deve ser feito em caso de surto de algum morador de rua com transtornos mentais, Miriam Chnaiderman afirmou que “a polícia deve levá-lo durante o surto para a delegacia, mas depois de volta pra rua. Eles não são mais perigosos pra população que o resto das pessoas. Na concepção dela, deve haver uma educação do resto da sociedade sobre esse tipo de pessoa com transtornos mentais, os chamados “loucos de rua”. Já Deborah Sereno acredita que “Deve-se entender o que o louco de rua está fazendo na rua, não tirá-lo. A pessoa tem o direito de ser escutada, de ser ouvida”, nem sempre esses “loucos de rua” querem sair da rua, eles já tem sua estratégia de vida pronta,         pessoas que os ajudam e são conhecidos por elas.

         Quando questionada sobre clínicas psiquiátricas particulares, Deborah Sereno admitiu que em algumas, assim como os antigos manicômios, dopam os pacientes e os deixam em quartos isolados, individuais. Em uma delas, há uma ala dedicada apenas ao drogados, fato que Miriam Chnaiderman discorda por acreditarem que, ao se tratarem, todos os pacientes, seja de esquizofrenia, seja de vício em drogas, seja de depressão devem se tratar juntos, pois, dessa maneira, se acostumam mais facilmente com a vida em sociedade.

       Por fim, ao imaginar o que seria, nem que seja utopicamente, um tipo de tratamento ideal para os portadores de transtornos mentais, pelo menos os moradores de rua, Chnaiderman – que fez um documentário sobre esses “loucos de rua”, chamado “Dizem que sou Louco” – afirmou que seria perfeito um tratamento na rua mesmo, na qual os psicólogos os atenderiam frente a suas “casas”. Algumas ONGs realizam trabalho similar, porém, a demanda é bem maior do que o número de profissionais que o fazem, assim sendo impossível um trabalho feito a todos. Trabalho realizado a estes que, apesar de serem chamados de “loucos” são como a gente, tem sentimentos e pensamentos que merecem ser ouvidos como os das demais pessoas.

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