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Fachada Unidade Básica de Saúde (Paraisópolis)

Por Amanda Brandão Lima e Ana Flávia Soares

               Paraisópolis é hoje a segunda maior favela de São Paulo, com cerca de 60 mil habitantes, perdendo apenas para comunidade de Heliópolis. Cercada de contrastes com casas e prédios da região do bairro do Morumbi, Paraisópolis ainda mantém o perfil tradicional das periferias do Brasil: barracos de tijolos, lixos espalhados, crescimento desordenado e com a grande maioria dos moradores sem posse legal de suas moradias . Neste contexto, já é comun avaliar a falta atenção do governo com a saúde local da comunidade, quando se trata de um contingente populacional carente dessa magnitude. Mesmo com todo este círculo de pobreza que a cerca, esse universo é rico em diversidades e merece toda atenção do poder público, uma vez que se trata da qualidade de vida de seus moradores.

A comunidade possui três postos de atendimento, sendo eles: Unidades Básicas de Saúde (UBS) I, II, III e uma unidade de pronto atendimento, Assistência Médica Ambulatorial, o AMA. As unidades, quando inauguradas, foram divididas por regiões e especialidades, fato que complicava o acesso da população. A prefeitura com o intuito de facilitar a vida dos moradores, transformou todas as unidades em “unidades básicas”, deixando-as compostas por clínicos gerais. Isso poderia se tornar uma boa saída, em vista de que assim todos seriam atendidos, entretanto, não foi. Com essa generalização, os atendimentos se tornaram praticamente limitados e a situação dos aparelhos necessários para certos atendimentos específicos são totalmente precárias, isso quando tem. Ao procurar consultas para suas necessidades, como ginecologia, na maioria das vezes as mulheres têm seus diagnósticos completamente equivocados, pois ali não há o médico certo para isso.

Recentemente integrados no programa de auxílio do Hospital Israelita Albert Einstein, os locais contam com o atendimento de médicos e enfermeiros vindos da mesma unidade. Com os postos recentemente reformados, os moradores da favela elogiam a melhora da infraestrutura dos postos, entretanto, quando se trata do atendimento, os depoimentos são claros: as unidades continuam precárias.

Existe uma grande dificuldade em comunicar-se com os funcionários das UBS para o agendamento de consultas e atendimento imediato de socorro. Ao requisitar uma consulta, o prazo proposto pela recepcionista das unidades é normalmente de 2 a 3 meses, além da burocracia que existe por trás da “carteirinha” do SUS. Prova disso, são pacientes como Cintia, que demorou cerca de quatro meses para marcar uma consulta para seu filho de três anos, além de não ter um pediatra específico para atendê-lo. “A consulta demora, demora demais para acontecer. Mas é o que temos aqui, então, ele vem desde bebê. Não tem o que fazer.” mostra Cintia, conformada com a sua situação.

Em meio a tantos problemas encontrados na Unidade, a bola de neve aumenta daqui pra frente. Além de toda burocracia das carteirinhas do SUS e da falta de educação dos atendentes, o sistema de agendamento também é complicado e, mais uma vez, precário. Cerca de vinte pessoas que ali passaram no dia 3 de setembro de 2012 não conseguiram ter a sua consulta agendada, por um empecilho do sistema: estava sem sinal. E para piorar, sem previsão de volta. A solução era mandar os moradores voltarem no dia seguinte de manhã para tentar agendar, sem a certeza de que o sistema teria voltado a funcionar. Se tornando assim, mais um dos motivos de descontentamento da população.

Buscando pelas ruas da comunidade, é possível encontrar pessoas que nem ao menos frequentaram os postos de saúde por não terem paciência para a fila de espera. Existem também aqueles que de tão descontentes com o atendimento, preferem se auto-medicar á serem atendidos por médicos apressados e indispostos.
Em uma das unidades, UBS I,  conversamos com Marcela, 16 anos, mãe adolescente que se mostrou infeliz com a médica de sua filha recém-nascida: “Acho que eles fazem por fazer, a médica não encosta a mão na criança. Parece que tem nojo, que minha filha é suja. Tento mudar a médica faz tempo, mas não consigo.” Já Maria de Lurdes, de 43 anos, alega que os postos oferecem apenas os medicamentos básicos, como Tylenol, Allivium, Neosaldina e Buscopan e ainda assim, para conseguir os medicamentos, é necessário ao menos uma consulta e receita do médico. “Os postinhos não dão nenhum tipo de remédio pra gente, nem mesmo se chegar morrendo de dor e pedindo o farmacêutico. Tem que consultar com a doutora pra depois tentar pegar qualquer tipo de remédio.” Conversando com o farmacêutico da unidade, ele opõe a afirmação de Maria, afirmando que na unidade existem todos os tipos de medicamentos, desde os controlados até as vitaminas.
Marieli, de 24 anos, alega que para marcar qualquer consulta ou realizar qualquer exame existe muita burocracia para pouca eficiência. Afirma também que o sistema de triagem é demorado, e que, existem muitos funcionários locais, mas são poucos que estão dispostos a realizar atendimento. “Tem muito médico e enfermeiro aqui, mas são poucos o que vem pra atender a gente direito. Se todos os funcionários trabalhassem, ninguém precisaria esperar tanto.”
Uma das outras entrevistadas, Sandra, de 22 anos, relatou que realizou seu exame de papa nicolau em outubro de 2011, e que até hoje não recebeu nenhum resultado, e ainda assim não conseguiu remarcar a consulta. “Quando pergunto pra eles do meu exame, eles sempre me enrolam. Fala que vai ficar pronto, ou que as vezes até já está, mas que eu preciso marcar consulta com a doutora para poder pegar, e pra poder marcar a consulta de novo, demora mais de dois meses. Melhor deixar pra lá,” conforma-se.
Os depoimentos confirmam a reclamação geral dos moradores: a burocracia para ter acesso á saúde pública na comunidade e a precariedade e indisposição do atendimento. Mesmo com as divergências de problemas de saúde, os moradores tem sempre a mesma reclamação para fazer sobre as todas as unidades. Nesse contexto, ninguém vê nas eleições de outubro uma ponte para melhoras, enxergam o discurso dos candidatos como promessas falsas. Os habitantes da comunidade sentem-se esquecidos pelo governo.

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https://protottipo.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=327&action=edit Moradora tenta retirar medicamento na farmácia da UBS

          Conversando com Renata, de 30 anos, é possível perceber como a precariedade da Saúde coloca em risco a vida das pessoas. Grávida de seis meses de um menino, seu segundo filho, Renata contou que sua gestação é de risco. Com oscilação de pressão, corre o risco de sofrer pré-eclampsia, além disso há chances de seu filho nascer prematuro, com sete meses. Desde o segundo mês de gestação, tenta ter um acompanhamento médico mensal pela unidade UBS I e II de Paraisópolis. Entretanto, não consegue. Mesmo sua gravidez sendo de risco, a fila continua e não há exceções para casos como o de Renata. “Durante toda a minha gravidez a médica me olhou só duas vezes, mas ela não colocou a mão em mim, e até hoje nunca escutou o coração do meu bebê.”

Averiguando a aparelhagem do hospital, foi possível descobrir que não apenas Renata, mas também todas as gestantes que passam e passaram pela unidade nunca ouviram os batimentos cardíacos de seus bebês, pela ausência da aparelhagem necessária. Inclusive, a grande maioria, não tem acesso á dados simples sobre a saúde e desenvolvimento de suas crianças, como por exemplo: o peso delas.
Na tentativa de avaliar hoje a situação do desenvolvimento da unidade, conversamos com Célia, de 34 anos, que está grávida de seu segundo-filho. Em 2002, quando estava grávida de seu primeiro filho Célia conta que este nasceu sem pré-natal, uma vez que a unidade era muito precária e sem condições de atendimento, e por isso, Célia perdeu a paciência e preferiu optar desta maneira. Disse também que, se tivesse a opção, também não faria pré-natal de seu segundo filho, entretanto ela não tem mais essa escolha, já que o pré-natal tornou-se obrigatório para gestantes. “Aqui já melhorou muito em vista de dez anos atrás, mas ainda continua precário. Médico tem, mas eles não gostam de atender a gente.” Célia também contou que há cerca de quatro anos atrás, teve um diagnóstico errado entregue pelo posto. Sem citar nomes, uma médica de dentro da unidade afirmava que ela estava com uma ferida em seu útero, e que por isso, não poderia engravidar mais. Desesperada com a informação e preocupada com o desenvolvimento da “ferida”, Célia decidiu optar por fazer exames privados, e descobriu que não havia ferida nenhuma, e as chances de ser mãe ainda existiam.

Quando a Secretaria Municipal da Saúde inaugurou em Paraisópolis um complexo de saúde que afirmava possibilitar diferentes tipos de acolhimento à população da comunidade e que tinha capacidade para mais de 15 mil consultas ao mês, os moradores criaram esperanças e acreditaram na promessa. Em vista que realmente existe o complexo formado pelas 5 unidades (UBS I,II,III, AMA e CAPS), quem não acreditaria que tudo funcionaria bem? Mas ao longo do tempo e do funcionamento, os moradores tiraram as provas com seus próprios problemas de saúde e viram que as coisas não foram como acreditavam que deveria ser.

Vivendo nessa situação, os habitantes de Paraisópolis estão deixados á sorte, ou azar, quando o assunto é Saúde. Tendo em vista a avaliação apenas desta comunidade, é possível imaginar que a situação é recorrente em demais comunidades da grande São Paulo. Mesmo sendo obrigados a viver nessas condições, os moradores estão preocupados com sua saúde e também de seus familiares, e por isso querem um atendimento médico de qualidade. Porém, dentro desse universo escasso da medicina que ali existe, acabam tendo que procurar hospitais particulares, que cobram taxas altíssimas para consultas médicas para conseguirem um bom atendimento, já que não tem os devidos direitos dentro dos hospitais que deveriam lhes proporcionar.

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