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Por Bruna Mello e Júlia Paolieri

Final de semana, ingressos na mão, cheiro de pipoca e uma sessão de cinema lotada aguardando o filme começar. Luzes se apagam e o filme começa. Rostos se iluminam, choram, são surpreendidos. É visível identificar que, atualmente, esse desejo e sensação de assistir a um longa-metragem em uma sala de exibição são muitas vezes acontecimentos do passado. Um dos grandes desafios da indústria cinematográfica é a perceptível mudança nos enredos.

Cada vez mais os espaços cinematográficos dão preferência à trilogias, ou sequências a apostar em películas com enredos mais alternativos, mais instigantes, mas que podem não ser certeza de espectadores e renda. Pode ser que a sociedade moderna não disponha mais de espaços voltados para o cinema inteligente, ou talvez que esses espaços sejam usufruídos por poucos.
Se de fato houvesse um período demarcado da glória do cinema, esse englobaria todos os filmes reconhecidos por levantar discussões políticas, sociais, com enfoques provocativos, preocupados em trabalhar uma dada situação, um estado de alma/espírito dos personagens. No entanto, essa frente parece estar se dissolvendo devido à tendência Hollywoodiana de lançar produções “descartáveis”.

Foto: reprodução

O cinéfilo Benedito Carlos de Araújo, 82 anos , aposentado, que tem em casa uma coleção com mais de mil filmes acredita que a cinematografia inteligente não encontra espaço na sociedade moderna, e que esses são destruído cada vez mais. Os “produtores estão copiando o que era feito antigamente com pequenas modificações, porque fica mais fácil para eles, falta ideia. Só fazem produções de passagem que não significam uma história”.

        “Não sei se hoje somos um povo muito “frouxo”, mas produzir é um brinquedo caro que funciona segundo a lei de mercado. Algumas películas que saem têm uma proposta diferente, sendo uma aposta de estúdios que querem ver o cinema como uma forma de arte e não como produto, mas isso é um problema porque quem demanda é o público”, afirma o jornalista Roberto Sadovski. Segundo ele o grande problema referente ao espaço cultural não é nem tanto a presença ou não de público que se interesse por essas metragens inteligentes, mas que “as pessoas não vão ao cinema, não adianta insistir”, e “não há uma fórmula” para reverter isso.

A Cinemateca Brasileira possui o maior acervo de imagens em movimento da América Latina – Foto: Bruna Mello

Se perguntarmos a algum cinéfilo sobre os filmes premiados nas celebrações do Oscar ou Cannes dos anos 70/80, ele seria capaz de dizer a maioria, mas se fizermos a mesma pergunta sobre as premiações de cinco anos atrás, ele dificilmente lembrará. “O tempo é o senhor da razão”, continua Sadovski.
A impressão que se têm é a de que as grandes obras primas foram feitas todas em uma mesma época, e mesmo que isso seja verdade, as produções da “indústria cultural” que circularam no mesmo período, mas não marcaram data, são esquecidas, como se nunca tivessem sido produzidas. A realidade é que “quando o mundo está mais complicado os artistas fazem o seu melhor trabalho para refletirem essa complicação. Nessas horas as pessoas se esforçam para serem mais criativas e honestas consigo mesmas – o que não impede de vermos obras primas impressionantes todo o ano”, analisa o jornalista.
Durante os anos 70, por exemplo, saiam filmes que seriam mais instigantes, principalmente nos Estados Unidos, porque eles estavam em guerra, e sabiam que não iriam ganhar; a esperança das pessoas era outra, tinham um ideal específico do que eles eram como nação e o que eles queriam se perdeu, então os filmes começaram a refletir muitas das inquietações e perguntas. Mas não se deve fixar a ideia de que todo filme com interesses econômicos deve ser refutado. Muitos dos filmes que também marcaram época no cinema foram produções que apostaram em efeitos especiais e em

O diretor de “Guerra nas Estrelas” George Lucas – foto: reprodução

todos os mecanismos tecnológicos e inovadores com o intuito de impressionar a legião de futuros admiradores: “Guerra nas Estrelas”, “Senhor dos Anéis”, “De Volta Para o Futuro”, “Jornada das Estrelas”, e até produções de personagens de HQ, “X-Men”, “Indiana Jones”, “Batman”.

            Muitos longas-metragens, que muitas vezes não são sucesso de bilheteria, são os mais premiados em festivais nacionais e internacionais. Caso, por exemplo, de “A Falecida”, escrita por Nelson Rodrigues, que foi um fiasco comercia, mas levou o prêmio Gaivota de Ouro no Festival Internacional do Filme do Rio de Janeiro e até hoje é reconhecida pela interpretação de Fernanda Montenegro como a “melhor interpretação feminina do cinema brasileiro”.

O professor de cinema da Unicamp, Eli Teixeira, acredita que não “há uma regra geral que “todo” o cinema seja “descartável” e mercadológico, inclusive nos dias atuais. “Um dado bastante significativo é que o cinema cedeu, desde o final dos anos quarenta, o lugar que ocupava, de “arte de massa”, para a televisão, tornando-se desde então bastante segmentado em termos de público, gosto, estilística”.
E é devido ao “gosto do público” que, Larissa Teixeira, estudante de cinema, acredita que os roteiros “não voltarão a ser o que foram no passado. O mundo hoje percorre outras mídias, outros mecanismos de comunicação. “O cinema hoje serve apenas como uma publicidade: você lança o filme, coloca cartazes pelas ruas para que as pessoas tenham interesse em pesquisar”. Além disso, a estudante ressalta que ir ao cinema se tornou um passeio muito caro, e acredita que “o destino de outras formas artísticas irão seguir com o crescimento da tecnologia e das grandes metrópoles”.
A indústria de massa, voltada mais para o lucro encontra-se em “um mundo diferente”. Se antes a preocupação por resultados não era tão expressiva, hoje parece ser essa a diretriz das produções. Se o tempo for mesmo o Senhor da razão esperamos que ele não se esqueça dos grandes filmes inteligentes produzidos atualmente em meio às produções comerciais, e que esses mesmo sem público consigam mostrar que o cinema não está morto, mas refortalecendo-se de suas mazelas.

Cinema no Brasil:

         Quem acompanha as cinematografias brasileiras, de maneira geral, é difícil de assistir com cenas de exaltação muito fortes, com um nível de narrativa grande. Com isso, há produções nacionais voltadas para o maior publico possível

Em 2008, Tropa de Elite recebeu o Urso de Ouro de melhor filme, no Festival de Berlim

para arrecadar capital, mas há também o bom cinema autoral que atinge o grande publico. Tropa de Elite e Cidade de Deus estão nesse setor. A maior parte dos filmes nacionais que fizeram sucesso aborda a realidade brasileira de maneira bastante crítica.

O Oscar desse ano de 2012 teve uma indicação brasileira. O filme RIO do desenhista Carlos Saldanha, muito conhecido por “Era do Gelo”, teve sua música “Real in Rio” indicada à categoria Canção Original. No entanto, quando se questiona a posição do cinema brasileiro em território internacional, as opiniões são distintas.

          Sadovski afirma que “o cinema brasileiro nesse cenário (de cinema inteligente) não existe. É ilusão achar que estamos dominando lá fora. As pessoas nem sabem o que está acontecendo aqui dentro, até porque não tem filme brasileiro que é lançado fora, então é meio difícil as pessoas assistirem”. Além disso, “não existem cineastas de expressão fora do país que estejam fazendo algum filme brasileiro”.

       Já Eli Teixeira diz que “não falta nada paraFoto: reprodução o cinema brasileiro se ‘consagrar’ internacionalmente. Desde os anos sessenta, com o Cinema Novo, nosso cinema tornou-se uma das principais forças dos cinemas alternativos. Primeiro com a filmografia de Glauber Rocha, considerado um dos principais representantes de um “cinema político moderno”. Além deles, vários cineastas brasileiros fazem parte hoje do panteão do cinema comercial/industrial hollywoodiano, como Walter Salles, Fernando Meirelles etc. Nosso cinema tem se destacado já há um bom tempo, nos grandes festivais internacionais como os de Cannes, Berlim, Veneza, Roterdã”.

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