Home

Por Juliana Bittencourt e Mariel Rechulski

              “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” já dizia Vinicius de Moraes. Feio ou bonito são conceitos da cultura midiática, por isso o padrão de beleza que vigora no mundo afeta a população de maneira estrondosa. Antigamente, o padrão de beleza era diferente. Na época da Renascença, o belo não estava na silhueta delgada, mas na gordura visível que demonstrava riqueza na família. Na Idade Média, o quadril largo e ventre avolumado eram considerados belos, pois sugeria bons níveis de fertilidade.

Na década de 20, veio o padrão clássico de mulher, representado por Greta Garbo. Mais tarde, Audrey Hepburn  transformou o padrão de beleza, deixando a mulher esguia e magra como aquela considerada bela. Entretanto, uma espécie de beleza agressiva ainda despertava os homens, como a de Marilyn Monroe, que tinha coxas largas e curvas acentuadas.

Na década de 60, Twiggy estabeleceu o padrão esquálido. Nos anos 90, Kate Moss apareceu com seu corpo magro, reformulando um conceito de beleza diferente das anteriores. As tendências mudam, assim como os ícones.

Padrão de beleza durante os anos

Questionamos algumas pessoas, homens e mulheres, a fim de traçar um padrão de beleza que é o mais apreciado na atualidade. Foram apresentadas três fotos, cada uma com um corpo diferente. A primeira foi uma foto de uma garota com transtornos alimentares, a segunda da modelo Gisele Bündchen e a terceira de uma “Panicat”.

Foi unânime a decisão de que o melhor corpo apresentado foi o da modelo e os motivos sempre giravam em torno da questão da saúde. Disseram que o corpo dela foi conquistado com academia e dietas saudáveis, enquanto o das outras duas variava entre anabolizantes e uma dieta extenuante.

Ilustração da enquete

Todos os entrevistados também são da opinião de que o padrão da magreza esquelética já se tornou passado e o que a mídia tenta agora é manter uma beleza que estipule a vida saudável. Alguns até se estendem, dizendo que mesmo a cidade vem se tornando propícia para que exista uma vida cheia de exercícios físicos, como por exemplo, a implantação da ciclofaixa. Atualmente, algumas das doenças que mais atingem os jovens são a depressão, anorexia, bulimia, entre outras. As campanhas de publicidade mostram jovens bonitas, altas e magras, representando um padrão sociocultural de beleza que pouco existe na nossa sociedade brasileira, mas que é muito desejado.

Revista Elle

Buscando um corpo considerado perfeito, garotas e garotos param de comer, tornam-se reclusos e sofrem por não conseguir atingir os padrões esperados. A dificuldade enfrentada pelos pais, amigos e conhecidos de vítimas é encontrar uma forma de ajudá-las. Deveriam explicar para jovens que seus corpos não precisam ser modificados, deixando-os à vontade para falar sobre a situação em que se encontram. O pior, é que muitos desses jovens que adentram a depressão e essas outras doenças são, na maioria das vezes, magros e com bom nível financeiro, buscando a perfeição.

O jovem pode acabar adentrando o mundo das drogas, buscando cada vez mais artifícios para emagrecer e sentir-se bem consigo mesmo.

CORPO PERFEITO COM A ALMA DOENTE.

A anorexia foi o primeiro transtorno alimentar reconhecido como problema psiquiátrico. Ela chega silenciosa, mas causa um estrago imenso. Há um esforço para não comer por existir uma fixação em perder peso. A pessoa fica com uma imagem corporal distorcida e acaba tendo um comportamento obsessivo para ficar magra. Isso leva a diversos desequilíbrios corporais, podendo causar a morte.

É um erro pensar que isso atinge apenas pessoas do sexo feminino. O Ambulatório de Transtornos Alimentares (Ambulim), do Hospital das Clínicas em São Paulo, recebe 25 novos casos de pessoas do sexo masculino por mês. Dos homens, 50% eram obesos quando crianças. A incidência de anorexia em homens acontece entre 14 e 18 anos, com sintomas iguais aos da mulher.

Adriano Segal, médico psiquiatra, autor de vários livros que tratam problemas como a obesidade e diretor da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), conta que a cada 10 pacientes portadores de anorexia, um deles é homem. O número é considerado pequeno, entretanto, quando o IMC (Índice de Massa Corpórea) é menor que 15, leva a óbito cerca de 10% dos pacientes.

O psiquiatra explica que, como a doença na maioria das vezes, é relacionada à mulheres, os homens encontram alguma dificuldade em aceitar e asumir que estão passando por um problema grave. Outro ponto que vale a pena ressaltar é que na mulher, a desnutrição leva a ausência do ciclo menstrual, no homem o corpo fica apenas sem combustível para executar suas atividades.

Anorexia também afeta o universo masculino

Adriano também conta que, ao contrário do que é pensado na sociedade, a questão da estética não é a principal causa da doença, mas sim um fator desencadeante em pessoas com pré-disposição genética ou com algum problema emocional.

Na Internet há diversos blogs e sites ligados a casos de anorexia e bulimia. Meninas e os meninos que abrem seus corações não apresentam um padrão definido de idade, variando dos 14 até os 26. Eles relatam o seu dia-a-dia em posts, escrevem seus pesos e medidas, mostram como estão ficando mais magros e mais fracos e torcem para que aquilo os ajude, como um refúgio do mundo em que vivem.

Eles apelidam as doenças com nomes carinhosos que tratam de situações que já fazem parte da sua rotina, sendo “ana” uma referência à anorexia e “mia” uma referência à bulimia. Muitos deles possuem frases rancorosas e angustiadas. Entre tantas lidas, essa foi a que chocou: “Se eu estou assim hoje é por que algum dia lá atrás alguém me incentivou a fazer isso, me humilhando, rindo da minha cara, muitos pisaram, tripudiaram, abusaram, curtiram, mais tudo bem o tempo é o senhor da razão, e minha hora há de chegar”.

Ana*  escreve em seu blog tudo o que se passa em seu dia a dia. Desde as brigas com o namorado, até suas dietas para emagrecer. Ela conta que o que mais a influenciou para iniciar a perda de peso foi o mundo virtual e o que ele oferece, como fotos de mulheres magras e bonitas, com roupas curtas e pernas finas. Seu psicólogo até pediu para que ela se desligasse um pouco dessa vida de computador, lendo mais livros, mas foi ali que ela encontrou seu refúgio.

Para muitas meninas, ao contrário do que é imaginado, a anorexia não sufoca, mas sim, liberta. “Sempre que passava dias sem comer, em “NF – No Food” como dizemos no mundo virtual, eu me sentia livre. Mas assim que, por algum motivo, começava a comer, meu mundo desandava. Me sentia presa. Por um lado, a anorexia era libertadora, mesmo me prendendo em um padrão de vida que não é saudável.”, conta Ana.

Ela se fixa nesse padrão de beleza que a sociedade insiste em impor. Quando questionada sobre a perda de controle em relação a magreza, ela nega, “Eu perco o controle quando como sem parar e depois me obrigo a colocar tudo aquilo para fora, de alguma forma. Seja por meio de laxantes ou pelo vômito. Quando eu não como, me sinto no controle da minha vida.”.

Existem pessoas que perdem peso para chamar a atenção de familiares ou amigos, muitas vezes por terem baixa autoestima e precisarem de elogios e agrados para sentirem-se bem consigo mesmos. Ana, ao contrário, mantém isso em segredo. “As pessoas que me rondam como minha mãe, meu irmão e meu namorado pressupõem, mas eu jamais contei a verdade. Não busco chamar atenção para o meu problema, só quero ser magra.”, conta a menina.

Além das fotos de mulheres belíssimas, Ana não hesita em dizer que o que a levou, de fato, a ingressar no mundo da perda de peso foram comentários maldosos que ela escutou. “O que me deu forças de verdade para entrar nesse mundo, foi quando ouvi um amigo do meu namorado sussurrando para ele que eu podia emagrecer alguns quilos.”.

Por fim, quando questionada sobre o papel de sua família na recuperação, Ana desabafa: “eles sabem que algo está errado, mas não falam a respeito. Não sei se é por medo ou por vergonha de ter uma filha doente. Minha mãe já viu diversas vezes as cicatrizes de cortes que eu tenho nos meus braços e nunca entrou em detalhes. Talvez ela nem se preocupe muito. Meu namorado, em compensação está sempre comigo. Ele me faz comer e as vezes eu me sinto tão bem com ele, que como. Depois vem a angústia e a dor por ter engordado, então eu solto tudo da maneira que eu encontrar. Essa é a parte que mais me incomoda na doença, não conseguir pedir a ajuda da pessoa que amo. Não tenho coragem de mostrar a ele como eu realmente sou, tenho medo que ele vá embora.”

Assim como Ana, várias pessoas também procuram companheirismo e amizade na Internet. É complicado compreender o que elas sentem e o que elas buscam. Talvez uma aceitação que não encontram na vida real, talvez carinho. Entre tantas suposições, entre tantos motivos reais, o que mais fere esses indivíduos é a necessidade de atingir uma expectativa que não pertence a eles, mas sim, à sociedade. Infelizmente, a cultura midiática imposta pela indústria da beleza manda uma mensagem: a não ser que você seja bonit@, você não tem importância.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s