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Por Bianca Benfatti e Flavia Kassinoff

       Os movimentos feministas sempre tiveram motivos de sobra para reivindicar nas manifestações.  A sociedade se modernizou em termos técnicos, porém a mentalidade permanece a mesma há décadas. Isso se constitui em algo contraditório na atualidade: a possibilidade de existir machismo mesmo dentro de um contexto de modernidade. Avanços tecnológicos são conceitualmente ligados ao universo masculino e seu perfil de poder estruturam um perfil machista que se reverbera midiaticamente. Tecnologias e propagandas que estimulam uma visão distorcida da imagem das mulheres convivem lado a lado. Os anúncios de cerveja acabam pecando pelo excesso de situações pejorativas e denigrem, quase sempre, o universo feminino. Uma em específico, que inclusive desencadeou a marcha contra a mídia machista, mostrava homens invisíveis os quais apalpavam as mulheres sem seu consentimento. Outro exemplo disso pode ser observado em músicas como “Ai se eu te pego” (Michel Teló), cuja letra incita um comportamento sexual que expõe conteúdo adulto para crianças,

Exemplo de propagandas machistas

  Marcha contra a mídia machista

Feministas protestam em frente a Loja Marisa

A marcha contra a mídia machista, desencadeada pelas propagandas de cerveja que promovem comportamentos machistas, foi realizada dia 25 de agosto na Avenida Paulista, em São Paulo. As feministas, organizadoras da manifestação, protestaram contra o posicionamento da mídia em relação à mulher. Com frequência jornais, revistas e alguns anúncios tratam a figura feminina de uma maneira pejorativa. Como exemplo pode-se utilizar o caso do goleiro Bruno, no qual ele, acusado de assassinato, continuou sendo chamado de goleiro, enquanto que Eliza, sua vítima e namorada, foi sempre citada como “a amante”, mostrando todo o posicionamento da mídia. As palavras escolhidas pelos jornais para tratar Bruno e Eliza são totalmente diferentes, mesmo a mídia admitindo que ele cometera um crime brutal. Portanto é simples concluir que o tratamento dado à mulher é negativo se comparado ao dado para o homem. Esta diferença de análise está no mesmo espaço ideológico que leva muitos homens a se acharem no direito de abusar da mulher. Outro exemplo de machismo na mídia a ser observado é a nova propaganda das lojas “Marisa”. Nela é insinuado que só existiria um homem para cada cem mulheres, e que essas devem “caprichar” para conseguirem conquistar este homem perfeito, além de estereotiparem em toda a publicidade o corpo da mulher.

Marcha contra a mídia machista: protesto e reivindicações na Paulista

    Ana Carolina Andrade é formada em jornalismo pela PUC-SP, e foi uma das fundadoras do Coletivo Feminista Três Rosas, grupo pertencente ao Centro Acadêmico de Jornalismo da faculdade: “O maior objetivo do grupo Três Rosas é trazer esse debate para dentro do curso de uma maneira auto-organizada. A auto-organização das mulheres são elas mesmas serem protagonistas da própria história.” Para Ana o pior tipo de machismo é o implícito na sociedade, o mais difícil de combater: “Esse tipo de machismo que constrói uma sociedade que acha que não é machista. Quando pessoas fazem esse tipo de machismo escondido, que se passa por piada, brincadeira ou se passa como algo comum na sociedade é pior porque você não enxerga. Ele é camuflado, mas ele tão ruim quanto o escancarado.”

     O preconceito contra as mulheres muitas vezes apresenta-se enraizado dentro da cabeça das próprias mulheres. “Existem muitas mulheres machistas, que na verdade estão reproduzindo comportamentos preconceituosos. Nós fomos criadas para ser assim, fomos criados em uma sociedade capitalista, machista, patriarcal e nós somos assim.”, afirmou Ana Carolina. Ela ainda completa: “Eu estava lendo um livro que a autora dizia que era inadmissível uma mulher ser antifeminista, porque isso significaria que ela não quer expressar sua opinião, se ela não é feminista, se não acredita que o feminismo leva a algum lugar, ela não podia nem estar falando. “Ela só consegue expor o que pensa, porque o feminismo conquistou isso.”

    Existe essa descriminação contra as mulheres até mesmo na profissão que deveria exigir e pregar a liberdade: o jornalismo. O machismo, nesse caso, pode ser visto de várias formas, tanto implícito quanto explícito. Ana Carolina, jornalista formada e atuante feminista, afirmou: “Eu acho que ele ocorre de várias maneiras: primeiro e a mais obvia é o que nós vemos nas redações, onde há muita mulher, mas poucas em cargo de chefia, e isso ainda é muito segregado por editoria, as tipicamente femininas, por exemplo, mulher no esporte sofre um preconceito enorme, porque pra ela provar o espaço dela é necessário fazer mais do que o homem; segundo como a mídia trata as nossas pautas, as que são de mulheres, como de aborto eles entrevistam a igreja, um conservador e uma pessoa que é a favor do aborto pertencente ao Ministério da Saúde, mas eles não vão falar com uma feminina sobre os direitos dela a respeito do corpo. Nesse caso há um machismo implícito, pois na hora que você está escolhendo as suas fontes é revelado o seu pensamento.”

Manifestantes se agrupam perto do túnel na Avenida Paulista

    Movimentos Feministas

    Ultimamente a mídia vem noticiando inúmeros e diferentes casos de movimentos feministas.  Recentemente ocorreu algo muito polêmico na Rússia, que chamou a atenção dos veículos de comunição mundial: uma banda, Pussy Riot, formada apenas por mulheres usando máscaras fez um protesto contra o governo Putin dentro de uma igreja, e acabaram sendo presas. Sobre isso Ana Carolina disse: “O mais impressionante é que no julgamento delas foram usados vários argumentos para desconstruir o feminismo, o considerando como um pecado mortal. Aproveitando, como sempre, para usar o feminismo para distorcer todo o ocorrido.” Muitas celebridades, como Madona e George Clooney, reivindicaram a soltura das meninas membros do grupo, porém até o momento elas permanecem presas e foram condenadas a dois anos de prisão. A questão, nesse caso, é totalmente política, elas estavam protestando contra o governo Putin, e não da Igreja, é o presidente que não quer que falem sobre ele e as colocou nessa situação, sem argumentos palpáveis.

     O grupo feminista da Ucrânia, o Femen, também é um caso em pauta na mídia. As participantes ficaram famosas por tirar a blusa e mostrar os peitos em seus protestos. Sara Winter é a representante brasileira. Suas manifestações são polêmicas e foram muito criticadas pelas feministas, as quais não enxergam um objetivo claro e nem uma organização. Ana partilha dessa opinião e comenta: ”Eu acho, sinceramente, que o mundo que nós vivemos, com a mídia existente, protestar usando uma mulher gostosa com os peitos de fora, não passa nenhuma mensagem além dos peitos a mostra.” Ao comparar com a marcha das vadias, movimento feminista que protesta pelo direito das mulheres poderem se vestir do jeito que quiserem, afirmou:” Então assim eu acho essas meninas muito perdidas, podem até serem bem intencionadas, mas eu prefiro outras formas de manifestação e é muito diferente comparar o Femen com a marcha das vadias. Uma coisa é colocar mulheres que estão claramente protestando para pode usar a roupa que querem, mesmo que estejam mostrando os peitos ou com pouca roupa reivindicando por uma causa como essa, obviamente elas estão organizadas.”

Estupro e mídia

Na marcha contra a mídia machista palavras de ordem como: “ei Conar mulher não é palhaça, melhora seu trabalho porque estupro não tem graça.” eram usadas para fortalecer o protesto. Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) é um instituto responsável por analisar e liberar as propagandas para veiculação nos meios de mídia. Os anúncios de cerveja, principalmente, muitas vezes incitam comportamentos machistas. Para Ana: “Essa questão do estupro surgiu após a propaganda de cerveja. Nesse anúncio tinha algumas mulheres e os homens ficavam invisíveis, e eles mexiam na blusa, na mulher, portanto o que é isso? Qualquer relação sexual seja de assédio sem o consentimento da mulher é estupro. Quando a mulher não quer é considerado estupro.” Outro ponto ressaltado pela ativista feminista do Três Rosas, é como a mídia trata esse assunto do estupro, de uma maneira implícita, mas perceptível: “Porque no caso você não vai ver um cara estuprando uma mulher ao ligar a televisão, isso pode até acontecer como no caso Big Brother Brasil onde a menina que tava bêbada e o cara abusou dela, por menos que ele tenha feito com ela, ele fez alguma coisa quando ela não tinha condição de falar sim ou não e isso foi mostrado. É isso que eu falo da cultura do estupro, é o que é mostrado nas propagandas, nas novelas, essa coisa de passar a mão, mexer.”

Exemplo de anúncio que incita a ação do estupro

      Luka Franco, outra jornalista formada na PUC-Sp e também ativista feminista, ainda no âmbito das discussões sobre o machismo, ela deu sua opinião a respeito do abuso sexual sofrido por uma camada vulnerável da sociedade: “O fato de travestis e prostitutas se colocarem de uma determinada forma na comunidade, não dá o direito do outro achar que elas estão 24 horas disponíveis para o seu próprio prazer”. Como uma das organizadoras da Marcha das Vadias (movimento que defende o direito das mulheres usarem a roupa que quiserem para sair de casa), disse: “A maneira como eu me comporto na sociedade, as roupas que eu visto, não significa que alguém possa expropriar meu corpo, pois violência sexista é uma expropriação”.

    Machismo no LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis)

    Ana Carolina comentou sobre um preconceito existente em relação à mulher mesmo dentro de um grupo, o qual deveria defender os direitos das “minorias” homossexuais: o LGBT. Há um estereótipo mais “aceito” incorporado a esse coletivo, o de homem, rico, branco e gay, se a mulher for negra, lésbica e pobre ela seria desvalorizada. Sobre isso Ana comenta: “Tem, tanto que assim antes era GLBT, ai adicionou o LGBT, existe o dia da Visibilidade Lésbica, porque se constitui como um duplo machismo: a mulher duas veze. Existe sim machismo dentro do movimento LGBT.” Luka Franco citou a relevância de insistir na união dos grupos (feministas e homossexuais) contra o machismo, a homofobia e o racismo, a favor da liberdade acima de tudo.

   Há uma frase de Freud que diz: “Quando não somos capazes de entender alguma coisa, procuramos desvalorizá-las com críticas. Um meio ideal de facilitar nossas tarefas.”  Isso pode ser utilizado no movimento feminista, no qual com a finalidade de diminuir o problema do entendimento das suas ideias, as pessoas e a mídia acabam inventando artifícios para depreciar seus ideais. Por exemplo, existe um estereótipo de mulher feminista: masculinizada, feia e peluda. A respeito disso Ana analisou: “Realmente existe um estereótipo  que feminista é lésbica, peluda, odeia os homens e por isso se tornou feminista, masculinizada. Isso foi algo que a própria sociedade construiu com a ajuda da mídia para desconstruir aquelas mulheres as quais lutavam pelos seus direitos. Todo mundo acha isso, é por esse motivo que ninguém fala que é feminista, pois as pessoas vão olhar com um preconceito. Não é assim, óbvio que podem existir várias feministas que são assim, da mesma maneira que têm várias que não são. Constitui-se em mais uma criação da sociedade com o objetivo de posicionar as feministas muito distantes do modelo ideal de mulher. Como se você quiser ser mulher de fato só se for de um jeito pré-determinado. ” Aliás esse padrão de beleza ressaltado pela televisão, pelos anúncios nas revistas e jornais, é um tipo de machismo, em que a mulher precisa ser de um determinado jeito para ser considerada bonita e aceita pela sociedade. Se ela não é assim por algum motivo, precisa enquadrar-se o mais rápido possível, frequentando academias, fazendo inúmeras cirurgias plásticas.

     Ao final da entrevista Ana falou sobre os problemas que as mulheres ainda enfrentam em seu dia-a-dia, e ressaltou a importância dos protestos realizados pelas feministas: “Atualmente as pautas que estão mais em discussão sobre os direitos das mulheres são: a violência doméstica que ainda é muito grande, a cada 15 segundos uma mulher é violentada pelos próprios companheiros, podendo ser observado como o machismo continua presente, a mulher pode trabalhar, mas quando chegar a casa irá apanhar; legalização do aborto também um debate muito caro para o movimento feminista, quando a Dilma foi eleita as feministas de esquerda a criticaram pelo fato dela abrir mão da discussão desse assunto, a presidente preferiu ceder aos interesses da bancada religiosa (católicos e evangélicos) para se eleger a bancar o que ela defendia enquanto mulher feminista (questão de saúde pública, o direito da mulher sobre seu corpo). A faixa de mulheres que abortam é de 24 a 29 anos com relacionamento estável, tendo mais de dois filhos e católica (dados do Ministério Público), ou seja, o aborto também uma questão de planejamento familiar, não é porque eu defendo o aborto que eu irei fazê-lo, nós só defendemos que a mulher possa fazer esse procedimento de uma maneira segura. O mercado de trabalho, mesmo com diplomas as mulheres continuam ganhando menos (igualdade salarial). Quando falamos de drogas existe algo em comum com o debate feminista. Hoje têm muito mais mulher encarcerada por tráfico de drogas, porque desde que mudou a lei do tráfico os policiais acabam pegando a parte mais frágil da operação. É uma luta muito complicada, pois mesmo dentro da esquerda esse assunto é deixado de lado.”

A resposta do CONAR

O CONAR  (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) fez uma declaração por meio de Edney Narchi, Vice-Presidente Executivo do instituto, a respeito desse assunto polêmico: ” O Código de Autorregulamentação Publicitária reprova manifestações em anúncios ou campanhas, que sejam desrespeitosas, discriminatórias, preconceituosas ou ofensivas. O movimento de defesa dos direitos da mulher constitui um marco civilizatório a partir da segunda metade do século passado e suas posições- na promoção de metade da humanidade – são reconhecidas, acolhidas e incorporadas à ética publicitária. São inúmeros os processos no CONAR que trataram do tema. O Código, aliás, adotou na publicidade de bebidas alcoólicas a fórmula de que nenhum anúncio seria constituído principalmente de apelos sensuais e nenhum modelo publicitário seria tratado como objeto sexual. Como poderão verificar, em nosso site, nos últimos anos a infração contra tratamento desrespeitoso das mulheres foi reduzida. O último caso mais divulgado foi o que envolveu a cerveja Devassa e a modelo Paris Hilton. Resumindo: há previsão da infração e o CONAR acolhe denúncias, cita o anunciante para que se defenda e julga a representação. O caso Prudence está em andamento (houve sustação liminar do anúncio) e brevemente será julgado.”

O outro lado

Essa polêmica evolvendo a mídia, como em todas as outras, existem dois lados, um que defende a ideia das propagandas serem realmente machistas, e outro que condena essas acusações, discordando dessas afirmações. Bruno Ascari, estudante de publicidade da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) ressaltou a sua opinião sobre os anúncios de cerveja atuais, chegando a compará-los com os que eram feitos antes: ”Se analisarmos algumas polêmicas que envolvem a imagem das mulheres principalmente nas propagandas de cerveja, temos dois pontos a serem seguidos. Algumas decisões do CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) são de fato corretas. Se pegarmos, por exemplo, um comercial da cervejaria Devassa de 2010, onde a garota-propaganda, Paris Hilton, dançava de maneira sensual por seu apartamento com uma lata de cerveja na mão e era fotografada e observada por voyeurs, temos uma degradação da figura da mulher. Em minha opinião, essa propaganda mostra a mulher como um mero objeto de admiração pelos outros.
Outra polêmica envolvendo cervejas e mulheres foi uma propaganda da Nova Schin de 2012, onde um grupo de homens fica invisível em uma situação hipotética. Existe duas consideradas desrespeitosas nesse comercial, a cena onde retiram a parte de cima do biquíni de uma das moças e outra onde os rapazes invadem um vestiário. Na primeira cena, entendo e concordo com o fato de estarem expondo as moças a uma situação de constrangimento. Mas a meu ver, a segunda cena não seria uma representação/incentivo ao estupro, como dito pelo CONAR. Seguindo a possível raiz do briefing da propaganda, chegamos à frase “O que os homens fariam se fossem invisíveis”?”. Acredito que essa cena foi somente uma tentativa de visão bem humorada da situação. É o fato de o homem pensar, “Vou aproveitar que estou invisível e observar as mulheres se trocando”. No caso das propagandas de cerveja, me deixa triste o fato de ligarem a imagem da mulher, geralmente de biquíni e na praia, à cerveja. Sinto falta de propagandas grandiosas como a de Brahma Chopp de 1991, onde João Gilberto canta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro com uma orquestra um jingle sobre a cerveja.”

Um pensamento em “Mídia machista no alvo da moda

  1. “O fato de travestis prostitutas se colocarem de uma determinada forma na comunidade, não dá o direito do outro achar que elas estão 24 horas disponíveis para o seu próprio prazer”. A própria “profissão” que eles exercem já é uma escravidão em si, já é um estupro, como pretendem combater a violência machista sem combater a prostituição?
    Além do mais, em nenhum momento é dito que a maior responsável por esta mega-vulgarização da imagem feminina somos nós mesmas, e celebramos também a cultura do estupro ao admitirmos livros como “50 tons de cinza”(ah, mas foi escrito por uma mulher, então não é machismo…) Enquanto o movimento feminista for tão contraditório, não teremos progresso nestes termos de mercantilização do corpo da mulher.

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