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Por Luciene Sudré e Isabella Prado

 
          Um banco de madeira sob árvores, patos e galinhas, e um senhor no meio desse cenário. Sebastião Eugenio, acompanhado das histórias de seus 94 anos, vai ao Parque da Água Branca quase todos os dias. Nascido na divisa de Paraná com São Paulo, como faz questão de afirmar, hoje mora perto da estação Patriarca, linha vermelha do metrô, há mais de 15 anos. Seu Sebastião passeia pela cidade todos os dias
“Eu conheço de tudo. Quando você pensa que eu tô no norte, eu tô no sul. Conheço essa cidade inteirinha. Eu tenho passe de metrô, de ônibus. Não pago nada. Vou ficar em casa, sentado no sofá, vendo coisa que não presta na tv? Só paro em casa pra comer e dormir. O resto é rua, minha filha”, diz seu Sebastião, entre risos, estampando jovialidade.

          Uma parada fixa entre as andanças de seu Sebastião é o Baile da 3ª Idade que a direção do Parque coordena e que ocorre as terças e sábados (e aos domingos, a cada duas semanas). Entre dois salões pintados de um amarelo forte, cor mostarda, uma placa com as combinações azul e branco se destaca: Instituto da Melhor Idade – Estação Vida. Mas ali, é muito fácil confirmar que o som do forró e a dança não têm espaço certo e muito menos idade adequada. Pessoas sorrindo, conversando, dançando. Uns mais tímidos, no passinho “um pra lá, dois pra cá” e outros dançando com alegria e ânimo invejáveis. Se para dança não há limitações, nesse cenário para o amor também não há. Em cada canto se encontra um casal de mãos dadas, aos selinhos, sentados ou dançando abraçados.

Instituto da Melhor Idade e os curiosos.

          É uma festa, que por mais que aconteça duas vezes por semana, parece ser muito esperada. No salão cheio, com os enfeites de papel nas telhas, todos estão arrumados e nos trinques. Nada de roupa normal, afinal, é dia de baile. Mulheres de vestidos coloridos, homens de trajes sociais e chapéu. Alguns arriscam o suspensório e as boinas, assim como algumas também arriscam um salto mais alto e um vestido mais ousado. Juntas em um só lugar, todas as diferentes histórias de vida e experiências de cada um compõe uma cena agradável aos olhos de qualquer pessoa que pense sobre seu futuro. Algo bonito de se ver. “Ah, é muito bom ter um lugar assim né? Eu sou cheio de amizades” diz seu Sebastião, fazendo um convite para me sentar ao seu lado no banco de madeira. “Pode sentar, não tem erro não.”

          Continuando uma conversa descontraída – que no começo foi receosa – ele conta com muito orgulho que esteve presente no primeiro baile e possuí a carteirinha do parque há 15 anos.  Contando sobre suas viagens como caminhoneiro, não esconde que nunca foi de ficar parado em casa e ainda não entende os idosos que escolhem essa opção. “Toda vida fui andarilho. Se a pessoa tem saúde, tem que sair, mesmo que for sozinho!”

Preparado para o baile: Seu Sebastião se arruma para passar a tarde de terça feira dançando.

          Dona Maria Manoela, 70 anos, é outra frequentadora assídua do baile há mais de três anos. No último, sem saber seu nome, dançou com um senhor de 86 anos e se impressionou. “Só queria saber de girar, parecia um rapaz”. Além de dançar, adora sair de casa pela manhã e ir ao parque para se exercitar nos pedalinhos que, por sinal, são muito disputados.  Casou-se muito nova, e há quarenta anos saiu da Ilha da Madeira, (lugar onde nasceu), para iniciar uma família por aqui. E afirma isso com um forte sotaque português, como se tivesse chegado ontem ao Brasil, e também com uma pitada de saudade por não ter mais voltado ao seu país de origem. Dona Maria Manoela diz que não gosta de seu sotaque, “pois muitos dizem que não entendem”. Sem parar de girar o pedalinho, conclui que seu sotaque ainda está tão forte porque se reúne com quatro amigas portuguesas, que também frequentam o parque. E acompanhada de risadas, diz: “Somos o grupo das senhoras portuguesas”.

          O grupo das portuguesas, carinhosamente chamado de “as meninas” por Dona Maria Manoela também vai às aulas de alongamento que ocorrem no Parque, onde até aula de computação tem. Com tantas atividades, o local acaba tornando-se um espaço para passar o tempo com boas companhias. “Quando meu marido faleceu – a gente fica pra baixo mesmo não é? – eu vinha aqui todo dia (…)”.  Mas, interrompendo a conversa – e também o exercício – uma galinha e seus pintinhos passam por nós, para o gosto de dona Maria Manoela, que acaba confessando: “Hoje mesmo eu ralei um pão duro que tinha em casa e trouxe pros patos e pras galinhas”, já voltando a girar o pedalinho.

Bailão

          São muitos os estilos que desfilam pelo salão.  As senhoras selecionam os melhores trajes e se enfeitam com colares dourados. As sandálias de salto são requisitadas, as mais corajosas esbanjam habilidade na pista, realizando passos avançados com os seus parceiros. O cheiro de perfume, fortemente adocicado paira sobre o ar. A maquiagem também faz parte da produção, mas sem a necessidade de esconder as marcas do tempo. Apesar da variedade, não há distinção. Os senhores também estão preparados, com seus belos sapatos de couro, que parecem estar guardado para a melhor ocasião. As caixas de som reproduzem sambas antigos. É quase um hino para eles.

Baile enfeitado!

          Aos poucos, os mais audaciosos cavalheiros pedem uma dança para as damas que já estão olhando por um tempo. As moças também invertem o papel quando encontram um partido interessante. Quem não tem um par, dança algum passo curto sozinho. Vitalina Sabaterra era uma delas. No ritmo acelerado do forró, rodopiava sozinha como se acompanhasse um companheiro ausente. Quando viu a câmera fez questão de contar a sua história. Orgulhosa de si mesma, aos 70 anos, começou a correr. Ganhou o Campeonato da 3ª Idade, depois participou de uma corrida de rua e, logo, 5 km já era pouco para ela. Foi parar na São Silvestre. O motivo era que aos 60 anos já estava à beira da depressão e ainda não se enxergava como uma senhora, apesar da idade. Encontrou no treinamento de atletismo uma forma de fortalecer a saúde e a mente. “Ó, ser idosa pra mim é assim, uma coisa que você quer. Eu me sinto com 20 anos, a mesma coisa que uma moça dessa idade faz, eu também faço. Eu não me sinto idosa.” Trouxe uma bolsinha onde guardava um batom rosa cintilante e um pacote de bala. Antes de tirar a foto fez questão de passar nos lábios o batom cor de rosa e retirar os óculos. As sandálias de salto que calçava não lhe incomodavam nem um pouco, disse que ainda voltaria de metrô para casa usando-as. Ninguém naquele salão daria 70 anos a dona Vitalina. O corpo malhado e as suas roupas justas depunham a seu favor. Quando voltou a pista, já começaram a aparecer parceiros interessados em seu bom humor. Era notável a alegria, estampada em seu rosto pouquíssimo enrugado.  Uma bela dose de jovialidade.

“Não me sinto idosa”. Dona Vitalina, aos 70 anos, deixa muita jovem para trás.

Casais apaixonados em todas as idades.

O amor na Melhor Idade!

O amor de Seu Laerte e Dona Olívia: o casal participa de todos os bailes.

Saúde

          Ao ser comparado com o Instituto da Melhor Idade, o posto de saúde da Rua Vitorino Camilo parece irrisório. A fachada verde, mal tratada pelo tempo, revela que o clima ali dentro é carregado. No corredor que dá acesso ao atendimento, já se repara uma notável fila de jovens mães com crianças de colo esperando para serem vacinadas. Aos prantos, tentam acalentá-las e prometem que será só uma picadinha. É quase no final do extenso paredão que idosos ficam, praticamente, amontoados esperando pelos medicamentos. As expressões faciais, fatigadas e tristonhas, revelam o tempo que passaram ali esperando. Entre eles, estava Maria Misako Moue. A aposentada de 54 anos, desacompanhada, organizava em uma mesa os remédios de diabete e hipertensão que pegara. Quem passava ao seu lado se animava um pouco, o que amenizava o tom fúnebre do lugar. A japonesa, com no máximo 1,50m de altura e um sotaque paulistano arrastado, distribuía pelo posto sua simpatia. Ao me aproximar dela, logo se interessou pelo propósito da matéria e admitiu ser apaixonada por jornal. Em sua rotina diária, visitava um espaço para idosos no centro e só ia embora quando terminava de ler o “Estado de SP”, a “Folha” e o “Jornal da Tarde”. Em seguida, a reclamação: “o idoso está precisando de um cantinho para ler jornal. Eu já fiz uma reclamação em março desse ano, lá no SESC do Carmo, nunca encontro o Agora por lá.” Sem filhos e netos, a sua preocupação é fazer caminhadas (há pouco tempo caminhara do Ibirapuera até a Igreja da Sé) ou assistir palestras sobre saúde no próprio posto.

O outro lado: A rotina nos postos de saúde.

          Outra mulher que não se deixa abater pela idade é dona Glória. Aos 70 anos, comanda todos os dias a cozinha em sua casa. Os amantes das “quentinhas” encomendam todos os dias a boa comida caseira. Começou a fazer salgadinhos, vendendo para conhecidos, mas o dinheiro que ganhava não era suficiente para sustentar os três filhos. Trabalhou como cozinheira por muito tempo para uma família e depois de aproveitou a sua popularidade no bairro para vender as marmitas que preparava.  A sua rotina é cronometrada para não perder nem um minuto na correria do dia. Acorda sempre no mesmo horário, 5h 40min da manhã. Serve o café na cama para o marido e 7h 10min já está pronta para colocar a mão na massa. Compra os produtos frescos para fazer a entrega da sua marmitex. Sozinha, do mesmo bairro que ela. “Depois do 60 anos desisti das noitadas, fiquei mais tranquila”. Aproveitava para tomar uma “cervejinha” com o marido, mas hoje prefere ficar em casa aos finais de semana. A correria, por um lado, não a impede de se cuidar. Faz um coque a la Brigitte Bardot, com o pouco de cabelo que lhe restou. Não gosta de maquiagem e, por isso, prefere deixar transparecer os anos em seu rosto. Um batom claro é suficiente. Todo o dia está na frente de seu prédio no bairro de Santa Cecília conversando com porteiros e com moradores das redondezas. Sua personalidade dócil chama a atenção de quem passa pelo portão. Seus netos, às vezes vão visitá-la. Geralmente aos domingos. É possível até sentir de longe o cheiro do banquete que prepara para a reunião de família.

        Esses retratos são limitados perto dos 50, 60 ou 70 anos que cada entrevistado teve de experiências. A nova geração de idosos não quer parecer recatada ou inválida. Manter-se vívido de alguma forma é melhor maneira de acostumar-se com os obstáculos. Seja correndo, preparando comida, fazendo exercícios no parque e até mesmo dançando. E no baile mantém a aparência envelhecida dos tetos e das paredes que se confunde com o espírito jovem embalado pela música.

Um pensamento em “Espaço e tempo para viver…

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